Segunda-feira, Maio 14, 2012

SONETO

As plantas rindo estão, estão vestidas
de verde variado de mil cores;
cantam tarde e manhã os seus amores
as aves, que de amor andam vencidas;

as neves, já nos montes derretidas,
regam nos baixos vales novas flores;
alegram as cantigas dos pastores
as ninfas pelos bosques escondidas.

O tempo, que nas cousas pode tanto,
a graça que por ele a terra perde
lhe torna com mais graça e formosura.

Só para mim nem flor nem erva verde
nem água clara tem nem doce canto,
que tudo falta a quem falta ventura.
Diogo Bernardes
1520 ?_1605

Terça-feira, Maio 08, 2012

A UMA FONTE

O que dirá a fonte, noite e dia,
correndo sem parar?
É dor ou alegria
o seu falar?!...

Se Margarida vai encher a bilha,
como inda hoje a vi,
_que encanto e maravilha!_
a fonte ri.

Se uma criança, um velho, um animal,
refrescam a garganta,
em notas de cristal
a fonte canta.

Mas, quando a turvam por maldade, é tanta
a mágoa que a devora,
que já não ri nem canta!
_a fonte chora.
Espínola de Mendonça

Domingo, Maio 06, 2012

A MÃE

Eu canto-vos mulher, porque vos tenho visto
na pálpera vermelha a lágrima d'amor,
que vem d'Eva a Maria _ a doce mãe de Cristo _
formando a estalactite imensa duma dor !

Oh, quantas vezes já n'aldeia miserável
nas tristezas do campo, às portas dos casais,
vos tenho surpreendido em êxtase adorável,
enquanto os filhos nus ao peito conchegais!

A fria noite chega. Os maus, de boca cheia,
rebolam-se na terra: ainda pedem pão!
Com eles repartis a vossa parca ceia;
e vendo-os a dormir podeis sorrir então.

D'inverno quase sempre as noites são mordentes.
Uivam lobos na serra: o vento uiva também:
mas eles vão dormindo os longos sonos quentes,
enquanto a vil insóniaoprime a pobre mãe !

Tendes sustos cruéis. Temendo que lhes caia
a roupa que os abafa, aos pobres acudis;
e aninhando-os melhor nas vossas velhas saias
podeis então dormir um tanto mais feliz.

Mulher quanto é suave e longo esse poema
quanto é preciso ó mãe, no trânsito cruel,
que a vossa alma estremeça e o vosso peito gema
a fim de que em vós brilhe o mais alto laurel !

Quem é que nunca viu, na rua, a cada passo,
a pálida mulher que rompe a multidão,
trazendo agasalhado, um filho no regaço,
e aos tombos, muita vez, um outro pela mão ?!

Nos frios do lajedo, às vezes, pede esmola
às portas dos cafés: ninguém a quer ouvir:
e a ela qualquer côdea a farta e a consola
contanto que sem fome os filhos vão dormir !

E enquanto à luz do gás a turba prazenteira
no fumo dos festins revoa em turbilhão,
quantos dramas cruéis nas húmidas trapeiras;
nos campos quantas mães sem roupas e sem pão ?!

E sempre a mesma lenda, a mesma história antiga:
do palácio à cabana o vosso doce olhar,
nas insónias cruéis, na fome ou na fadiga,
dum raio criador um berço a iluminar !

No entanto à doce mãe, se aquele amor sem termo,
da moda traja agoraos novos ouropéis,
e o vosso coração já gasto e um pouco enfermo,
sofrendo se dilui nos ideais cruéis;

nas vagas pulsações dumas recentes ânsias,
se aquela santa flor das grandes comoções,
apenas tem lugar nas vossas elegâncias,
como um enfeite de mimo amado nos salões;

na corrente fatal que ao longe arrasta os povos,
se o vosso grande afecto intenta erguer-se mais,
sonhando a sagração dos heroísmos novos,
resplendente de luz; vistosa de metais:

aos reflexos do gás, ó mãe, abri passagem
por entre a saudação das alas cortesãs,
levando as seduções da vossa doce imagem
aos delírios da noite, às ceias das manhãs !

Surgi do canto obscuro aonde o casto seio
palpita ingénuo e bom na paz da solidão,
e o vosso amor levai à ópera e ao passeio
a fim de que ele arranque um bravo à multidão !

E eu hei-de rir ao ver que um peito onde um tesouro
maior do que nenhum podemos encontrar,
intenta seduzir pela medalha d'ouro
que aos pequenos heróis os reis costumam dar !

Guilherme d'Azevedo
( 30/09/1839 6/08/1882)

Sábado, Abril 28, 2012

EM DEMANDA DA VENTURA

Com diamantes nos dedos, recostado
Num automóvel de faustoso brilho,
Subitamente vejo, do meu trilho,
Pobre casal num ermo desolado.

No portal, p'las videiras sombreado,
Descalça mãe dá de mamar ao filho,
E o pai na fresca leira rega o milho,
De barba hirsuta, semi-nu, curvado.

À cata de ventura, cada artéria
Pulsa em mim; e em negríssima miséria
Aquela gente aguarda em paz a morte!

Mas, nisto, ao cavador que rega o chão
Vontade tenho de bradar: __«Irmão,
Queres trocar comigo a tua sorte?»

Eugénio de Castro

Domingo, Abril 15, 2012

DIÁLOGO COM UMA ROSA

Numa jarra de cristal
Uma rosa branca e linda
A vinda de outra igual
Parece esperar, ainda.

Tão pálida, tão magoada
Que a piedade me invade
Pobre flor, assim curvada!
Sofre. Talvez de saudade...

Que mágoa é essa, que calas
Mas que de ti se desprende
Até no aroma que exalas
E minh'alma surpreende?

Terão as flores coração?
Serão nossas dores iguais?
À minha interrogação
A rosa curvou-se mais

E, qual lágrima que rola
Por amor que se sentiu,
Da macerada corola
Uma pétala caiu...
Aida Armanda Afonso da Silveira

Quinta-feira, Abril 05, 2012

A UMA SUSPEITA

«Amor, se uma mudança imaginada
É com tanto rigor minha homicida,
Que fará, se passar de ser temida,
A ser, como temida, averiguada?

Se, só por ser de mim tão receada,
Com dura execução me tira a vida,
Que fará, se chegar a ser sabida?
Que fará, se passar de suspeitada?

Porém, já que me mata, sendo incerta,
sòmente o imaginá.la e presumi-la,
Claro está, pois da vida o fio corta,

Que me fará depois, quando for certa:
Ou tornar a viver para senti-la,
Ou senti-la também depois de morta».


Sóror Violante do Céu
30/05/1601 ou 1607 _ 08/01/1693

Quarta-feira, Março 28, 2012

FOSFORESCÊNCIA

Nem sei o que é, nem sei... fosforescência,
luz que se fez sereia por demência.


Saudade dos marujos em viagem,
vinda de longe: lúcida romagem.


Puro sonho do mar que quer ser luz
e em lágrimas de íris se traduz.


António Patrício

http://pt.wikipedia.org/wiki/Ant%C3%B3nio_Patr%C3%ADcio

Quarta-feira, Março 21, 2012

SILÊNCIO TRÁGICO

A faina principiou de manhã cedo,
manhã de Junho, quente, abafadiça,
os machados, na arranca da cortiça,
rasgam de cima a baixo o arvoredo.

E o sobreiral vetusto, no segredo
das trágicas paixões, na dor submissa
dos vegetais, dir-se-à que se espreguiça
num êxtase espectral de espanto e medo.

Mas quando ao fim da tarde olho o montado
e vejo em carne viva, ensaguentado,
o velho sobreiral, sinto que encerra,

na tortura sem voz dos infelizes,
a dor que vai do tronco às raízes
chorar, gritar no âmago da terra !

Conde de Monsaraz

http://pt.wikipedia.org/wiki/Conde_de_Monsaraz

Domingo, Março 11, 2012

ÁRVORES DO ALENTEJO

Horas mortas... Curvada aos pés do Monte
a planície é um brasido,... e, torturadas,
as árvores sangrentas, revoltadas,
gritam a Deus a benção duma fonte.

E quando, manhã alta, o sol pesponte
a oiro a giesta, a arder, pelas estradas,
esfíngicas, recortam desgrenhadas
os trágicos perfis no horizonte !

Árvores ! Corações, almas que choram,
almas iguais à minha, almas que imploram
em vão remédio para tal mágoa !

Árvores ! Não choreis ! Olhai e vede:
__também ando a gritar, morta de sede,
pedindo a Deus a minha gota de água !

Florbela Espanca

http://pt.wikipedia.org/wiki/Florbela_Espanca

http://estrolabio.blogspot.com/2010/05/florbela-espanca-1894-1930-suicidios.html

Quinta-feira, Março 08, 2012

8 de MARÇO 2012



“A partir de 1922, o Dia Internacional da Mulher é celebrado oficialmente no dia 8 de Março.



Essa história perdeu-se no registo histórico oficial tanto do movimento socialista, como dos historiadores daquele período. Faz parte do passado histórico e político das mulheres e do movimento feminista de origem socialista do começo do século [XX].



Algumas feministas europeias na década de 70, por não encontrarem referência concreta às operárias têxteis mortas num incêndio em 1857, em Nova York, chegaram a considerá-lo um facto mítico. Mas essa hipótese foi descartada diante de tantos factos e eventos vinculando as origens do Dia Internacional da Mulher às mulheres americanas de esquerda.



Quanto aos elos perdidos dos factos em torno do dia 8 de Março levantam-se várias hipóteses em busca de mais aprofundamento.



É certo que nos EUA, em Nova York, as operárias têxteis já vinham denunciando as condições de vida e trabalho e já faziam greves . Esse momento de organização das trabalhadoras faz parte de todo um processo histórico de transformações sociais que colocaram as mulheres em condições para lutar por direitos, igualdade e autonomia participando no contexto social e político que motivou a criação de um dia de comemoração que simbolizasse as suas lutas, conquistas e necessidade de organização. É preciso, pois, entrelaçar os fios da história deste período.



Por conseguinte, há um relato que precisa de ser verificado nas suas fontes documentais, sintetizado por Gládis Gassen (num texto para as trabalhadoras rurais da FETAG), que nos indica que em Março de 1911, dezoito dias após o Dia da Mulher, e não em 1857, "numa mal ventilada fábrica de têxteis que ocupava os 3 últimos andares de um edifício de 10, na Triangle Schirwaist Company, em New York, estalou um incêndio que envolveu 500 mulheres - jovens, judias e imigrantes italianas - que trabalhavam em condições precárias, com o assoalho coberto de materiais e resíduos inflamáveis, o lixo amontoado por todas a parte, sem saídas em caso de incêndio, nem mangueiras para água... Para impedir a interrupção do trabalho, a empresa trancava à chave a porta de acesso à saída.



Quando os bombeiros finalmente conseguiram chegar aos andares onde estavam as mulheres, 147 já tinham morrido, carbonizadas ou estateladas na calçada da rua, para onde se atiraram em desespero. Após esta tragédia criou-se em Nova Iorque a Comissão Investigadora de Fábricas que já tinha sido solicitada há 50 anos! Foi assim que se iniciou a história da legislação de protecção da vida e da saúde. A líder sindical Rosa Schiederman organizou a presença de 120 mil trabalhadoras no funeral daquelas operárias para expressarem o seu lamento e declararem solidariedade para com todas as mulheres trabalhadoras".



Assim, embora seja necessário continuar a procurar memórias perdidas, é certo que todo um ciclo de lutas, numa era de grandes transformações sociais até às primeiras décadas do século XX, tornaram o Dia Internacional da Mulher um símbolo da participação activa das mulheres para transformarem a sua condição e a transformarem a sociedade.



Celebramos então, anualmente, tal como as nossas antecessoras o fizeram, as nossas iniciativas e conquistas, fazendo o balanço das nossas lutas e actualizando a nossa agenda de lutas pela igualdade entre homens e mulheres e por um mundo onde todos e todas possam viver com plenamente e com dignidade.



(Extractos de um artigo de SOF - Sempreviva Organização Feminista )











Passaram cem anos desde que Clara Zetkin propôs o dia 8 de Março como Dia Internacional da Mulher,







aquando da II Conferência Internacional de Mulheres Socialistas.





Clara Zetkin



(1857-1933)

Quinta-feira, Março 01, 2012

NINHOS

Procura um melro voando
A balseira onde se acoite.
Aves que passam em bando
Todo o dia andam cantando
E os rouxinóis toda a noite.

Cantigas que são carinhos
Lhes inspira a primavera.
Tempo de amores e ninhos!
Madrigais de passarinhos
Quem traduzir-t'os soubera.

D. João da Camara

http://alfarrabio.di.uminho.pt/vercial/jcamara.htm

Domingo, Fevereiro 19, 2012

SONHO DE ARTE

Em horas de lazer, abençoadas,
Detenho-me a ouvir, no prédio em frente,
As vibrações dolentes, prolongadas,
Dum Pleyel que deleita a minha mente.

De Grieg. as frases ternas, delicadas,
Perpassam pelo ar, serenamente :
A Arte, e a Beleza, tão amadas,
Devem sorrir ali discretamente.

Penso em mansões de pálidas orquídeas
Nas obras de Mozart, de Rubens, Fídias,
Em cânticos de fontes ao luar...

_Ó Arte ! Ó beijo ! Ó santa claridade !
Envolto nessa tua suavidade,
Eu escuto... e cismo... e fico-me a sonhar...

Faustino dos Reis Sousa

Domingo, Fevereiro 12, 2012

VINHO ALEGRE

Venha, após tanta lágrima bebida
E tanto fel provado, a doce e branda
Alegria, onde a murcha flor se expanda
Do sorriso; e eu, de novo, surja à vida !

De novo, em festas, gárrula e florida,
A alma se rasgue inteira _ ampla varanda
Escancarada, de uma e de outra banda,
Ao fresco e à luz, de alegre sol batida...

Parta a lousa ao sepulcro, que a devora;
E livre, assim, d'essa mortal tristeza,
Desfeita em hinos, vá pela floresta...

Vá pelo mar... vá pelo azul afora...
Derramando por toda a natureza,
O pouco de ilusões, que inda me resta.
Raymundo Corrêa

Domingo, Janeiro 29, 2012

SENTENÇA

«_Caminha em frente ! _Faz o que te ordeno.
Não sejas preguiçoso; apressa o passo !...
_Que me importa saber do teu cansaço ...?
_Sou teu Destino e quero !... _Eu te condeno !...»


E eu senti as dores do Nazareno !
_O vigor diminuto do meu braço
Não suportou a cruz do meu fracasso,
Feita de amargo fel e de veneno !...


Eu caminhei com as forças esgotadas,
Sentindo no meu corpo as chicotadas
Que deixavam em sangue a carne nua !...


Mas o caminho é longo... é tão ruim...
E quando eu julgo que é chegado ao fim,
Mais agreste me surge... e continua !...

Clodoveu Gil

Domingo, Janeiro 22, 2012

TESTAMENTO

Quando eu desaparecer
Dispenso trens ao Paço, e aos vates loas;
Descargas e discursos e coroas,
E os préstitos civis da «idéia nova»
Já minha conhecida;
Que em nada d'isso eu possa achar a vida,
Se tiver de morrer,
Também dispenso a cova,
Se cão faminto me quiser comer.

Ressalvo o coração:
E' para os filhos meus, _ os meus amores;
Para o imenso que de mim ficou;
Para a mulher que me estendeu a mão,
E que, sem condições me quis, e amou,
Que tenha paciência o pobre cão.

Thomaz Ribeiro

Domingo, Janeiro 15, 2012

NOTÍCIA DE JORNAL

Tentou contra a existência
Num humilde barracão
Joana de tal
Por causa de um tal João
Depois de medicada
Retirou-se prò seu lar
Aí, a notícia carece de exactidão
O lar não mais existe
Ninguém volta ao que acabou
Joana é mais
Uma mulata triste que errou
Errou na dose
Errou no amor
Joana errou de João
Ninguém notou
Ninguém morou
Na dor que era o seu mal
A dor de gente não sai no jornal
Chico Buarque

Segunda-feira, Janeiro 02, 2012

AS ALDEIAS

Eu gosto das aldeias sossegadas,
com seu aspecto calmo e senhoril,
erguidas nas colinas azuladas,
mais frescas que as manhãs finas de Abril.

Pelas tardes das eiras, como eu gosto
sentir a sua vida activa e sã,
vê-las na luz dolente do Sol-posto,
e nas suaves tintas da manhã !

Alegram as paisagens as crianças,
mais cheias de murmúrios do que um ninho,
e elevam-nos às coisas simples, mansas,
ao fundo, as brancas velas dum moinho.

Pelas noites de Estio, ouvem-se os ralos
zunirem suas notas sibilantes ;
e mistura-se o uivar dos cães distantes
com o canto metálico dos galos.
Gomes Leal

Sábado, Dezembro 24, 2011

NATAL

Sozinho na calçada, junto à grade
Da sumptuosa residência, a medo,
Contemplas,, no jardim, a alacridade
De um bando de petizes em folguedo.

Na árvore de Natal, que variedade
De enfeites, e de luz! quanto brinquedo!
Paira um sorriso de felicidade
Em cada rosto inocentinho e ledo.

Só tu, ante a alegria alvoroçada
Das crianças ricas, sem maldade e fel,
Pensas, a alma em tristezas mergulhada,

Olhando os trapos com que mal te cobres
«Porque será que o bom Papá Noel
Se esquece sempre das crianças pobres?»

Maria Nunes de Andrade

Quarta-feira, Dezembro 21, 2011

PAISAGEM DE INVERNO

Que queres que te diga da paisagem
Donde te escrevo! Meu saudoso amigo,
Tanto disseste que aprendi contigo
A só ver nela a minha própria imagem.

_O mar está bravo; a vinha nua; o trigo
É só esperança. Ríspido e selvagem
O pinhal sustenta com coragem
O seu pesado e verde luto antigo.

Ó minha irmã fecunda e desgraçada!
Já não há sol nem coração que te ame,
Chora no mar a voz dos temporais!

_Oiço daqui a tua voz pausada:
"Há-de haver sempre, em frente ao mar que brame,
A pacífica orquestra dos pinhais."

Sílvio Rebelo

Segunda-feira, Dezembro 12, 2011

VOY A DORMIR

Dientes de flores, cofia de rocío,
manos de hierbas, tú, nodriza fina,
tenme prestas las sábanas terrosas
y el edredón de musgos escardados.

Voy a dormir, nodriza mía, acuéstame.
Ponme una lámpara a la cabecera;
una constelación; la que te guste;
todas son buenas; bájala un poquito.

Déjame sola: oyes romper los brotes...
te acuna un pie celeste desde arriba
y un pájaro te traza unos compases

para que olvides... Gracias. Ah, un encargo:
si él llama nuevamente por teléfono
le dices que no insista, que he salido...

Alfonsina Storni

Quinta-feira, Dezembro 01, 2011

ABERTURA

De pé sobre a vaidade e a vanglória,
sobre a miséria que me prende ao mundo,
aflorando da lama em que me afundo
com uma febre estranha de vitória,

eu guardarei p'ra sempre na memória
esse germe tão cálido e fecundo
que se desprende, _ oh povo sem segundo! _
das páginas ideais da tua história!

Lanças, muralhas, cavalgadas, lutas,
o fragor dos combates, das disputas,
a fé e o sangue, a cruz sobre o arnez!

História de luz que as outras mais redime!
..............................................................................
Nem há no mundo orgulho mais sublime
de que poder gritar: Sou Português!

Armando Soares Imaginário

(dizem por aí que querem acabar com o feriado do 1º de DEZEMBRO)

Sexta-feira, Novembro 25, 2011

SAUDADE

Saudade, é Amar.
Amar é sofrer.
Quem na vida
O Amor não conhece
Nada pode dizer.
Amei, e fui amado,
Sofri e tenho saudade;
De não voltar ao passado.
Essa vida sem significado;
Em que tudo é alegria,
Na época da fantasia,
A vida que passou.
Se eu pudesse voltar
Aos braços de quem me [Amou !!!
Américo Barroso

Segunda-feira, Novembro 21, 2011

TECEDEIRA

Tecedeira d'olhos pretos,
Não me sais do pensamento,
Pois teceste os meus afectos
Urdindo no meu tormento.


O tear tece os fiados,
O amor tece saudades,
Os zelos tecem cuidados,
Tece a traição falsidades.


A alma tece a esperança
No tear do coração:
E o desejo não se cansa,
Tece e fia com paixão.


Na teia da desventura
Há trama do bem querer;
Por isso tem tanta dura
Que se não pode romper!


Lançadeira vai e vem
Larga o fio no tear;
Meu peito pulsa também;
Mas não deixa o seu penar.


Que teia fina e garrida,
Que fino e rico brocado,
Se ela fora entretecida
Com teu cabelo doirado!


Um lençol quero na morte
Tecido por tua mão;
Quem me mata d'esta sorte
Que amortalhe o coração!


Oliveira Simões

Segunda-feira, Novembro 14, 2011

SONETO

Quando, escondido em teu jardim florido
Te vi sair das águas murmurantes,
Postas as mãos nas pomas saltitantes,
Solto ao vento o cabelo humedecido:

E, sorrindo-te, o corpo enlouquecido
Reclinaste nas relvas ondeantes,
Dando-me assim aos olhos coruscantes
Uma estátua de mármore polido;

Não tive, como a santa Bíblia conta,
As idéias dos lúbricos juízes
Vendo a nua Susana, que se afronta.

Desejei-me nos bárbaros países
Dos canibais, e tive a idéia tonta
Do selvagem voraz: não te horrorises!...

João Penha

Segunda-feira, Novembro 07, 2011

SONETO

O grande trigueiral ondeia, basto,
A balouçar a espiga já madura,
E a brisa, pela coma, como um rasto
Deixa-lhe um leve sulco na espessura...

A lua desmaiada no céu vasto,
A deslizar naquela grande altura,
Já mostra pelo azul, o rosto casto
E até parece olhar-nos com ternura...

E o sol a descambar no olivedo,
Onde balança a asa d'um moinho,
Vai escondendo a face no arvoredo...

E parece dizer-nos _ adeusinho! _
E canta então mais alto o passaredo
E rescende mais vivo o rosmaninho...

Elva Serrão

Terça-feira, Novembro 01, 2011

NOVEMBRO

A folhagem da ramada
De todo rolou no chão.
Já sem vida, estiolada,
Vai entrar na podridão.


Assim toda a criatura
D'esta vida amargurada:
Morre e cai na sepultura,
Onde se reduz a nada.


F. Pinheiro

Domingo, Outubro 23, 2011

HOMENAGEM P'RALAMENTAR

No parlamento cheira mal a peixe podre,
e a fétida carne morta em putrefação...
...e os abutres passam o tempo a devorar,
o que resta das carcaças da nação...
e apenas uns quantos, poucos, que lá estão,
e se recusam a juntar à rapinagem,
como podem, vão fugindo da pilhagem,
comprovando que a regra tem excepção!
São poucos, mas, mesmo assim, resistem
à fraqueza que é o fácil, e à tentação!!!
Para esses a minha singela homenagem,
Para os outros, veemente contestação!!!


Duarte Arsénio

poema retirado do livro REFLEXOS DO MEU SENTIR
Pag. 56,
Editora; EDIUM Editores

Quinta-feira, Outubro 13, 2011

HEROÍSMOS

 Eu temo muito o mar, o mar enorme,
Solene, enraivecido, turbulento,
Erguido em vagalhões, rugindo ao vento;
O mar sublime, o mar que nunca dorme.

Eu temo o largo mar, informe,
De vítimas famélico, sedento,
E creio ouvir em cada seu lamento
Os ruídos dum túmulo disforme.

Contudo, num barquinho transparente,
No seu dorso feroz, vou blasonar,
Tufada a vela e n'água quase assente,

E ouvindo muito ao perto o seu bramar,
Eu rindo, sem cuidados, simplesmente,
Escarro, com desdém, no grande mar!

Cesário Verde

Sábado, Outubro 08, 2011

FÁBULA ANTIGA

No princípio do mundo o Amor não era cego;
Via mesmo através da escuridão cerrada
Com pupilas de Lince em olhos de Morcego.

Mas um dia, brincando, a Demência, irritada,
Num ímpeto de fúria os seus olhos vazou;
Foi a Demência logo às feras condenada,

Mas Júpiter, sorrindo, a pena comutou.
A Demência ficou apenas obrigada
A acompanhar o Amor, visto que ela o cegou,

Como um pobre que leva um cego pela estrada.
Unidos desde então por invisíveis laços,
Quando o Amor empreende a mais simples jornada,
Vai a Demência adiante a conduzir-lhe os passos.

António Feijó

Sábado, Setembro 24, 2011

TIMIDÍSSIMA

Medo? Medo de quê? Porquê? Responde.
O amor te encanta e te amedronta? Vamos...
Tímido pintassilgo que se esconde
Entre a folhagem dos mais altos ramos...

Canta e confia, sem temeres onde
Pousas. Tu, como os pássaros que amamos,
Pensa que é num ramúsculo da fronde
Que se embalam os débeis gaturamos...

Lembra-te, sempre, colibrí, que és ágil...
Tremes, arisca, mal pisando a areia,
Como se acaso andasses sobre brasas...

Não tenhas susto, beija-flor, se és frágil:
Se o balanço do galho te arreceia,
Ave, não tenhas medo: tu tens asas...

Martins Fontes