Terça-feira, Junho 23, 2009

BALADA DO DOMINGO TRISTE

Chove.
A tarde doente vem dizer-me
Das suas queixas e das suas dores.
Os móveis e os seres inanimados
São testemunhas.
Também sobre eles cai,
Trazida pela luz desta tarde sombria,
A tristeza das vidas sem destino.
Mas não n'a sentem
E é bem melhor para eles.

Abrem-se as portas do palácio negro
Que existe dentro de mim.
Luzes vermelhas
Soltam-se no ar,
Mas, ao chegar ao negro das paredes
Logo se apagam.
Vitrais alacres tingem sóis doirados,
Riscos de cor alagam os tapetes,
Mas tudo se desfaz.
E o meu leito
_ A única brancura
Que se distingue nesse inferno escuro _
Roça carícias na minha alma doente.
E tudo morre, quando entra em mim.
A maldição destas paredes negras
Semeia esquifes no lagedo frio.
Há ilusões emparedadas vivas...

Dos visitantes, um enlouqueceu:
Foi o Amor.
Canta, por noites longas de arrepios,
canções estrídulas,
Dissonantes, álgidas.
Outro, o Desejo,
Corre, alucinado,
Lançando-se aos vitrais,
Despedaçando as carnes pelas grades.
Quer ir tocar as formas
Das nuvens sensuais;
Aspirar os perfumes
Da luz que aqui não vive.
Quer morder rochas
Lívidas, abruptas,
Até sentir o sangue
(a espuma dos rochedos)
A escorrer-lhe pelas faces,
Das chagas de oiro e sal.

Sentamo-nos à mesa.
Um alto candelabro
Que ilumina todos,
Dá ao grupo o aspecto
Dum sonho de escultor.
Parecemos perdidos na Sala do Infinito.
Eu presido ao banquete.
As iguarias vêm,
E os meus Instintos,
E os meus Defeitos e Virtudes,
E a legião faminta dos meus hóspedes
Começa a devorar
O meu corpo transido.

E o festim continua...

No candelabro as velas vão morrendo.

Senhor, se até a Fé me abandonar
E a Esperança me não der
Mais uma esperança _
O que será de mim ?!

Fazei que, ao menos, eu não entre mais
Neste palacio de paredes negras.
Prefiro abandonar o meu país
_ O Pensamento
E ver apenas o que o meu corpo vê.
Não recordar nem saber o caminho
Deste palácio
Onde me mora a alma.

Chove.
As coisas físicas ficaram
Na serenidade, apáticas,
Indifirentes.
Também eu queria ser
Apenas um objecto inanimado;
Assim como o cinzeiro
Aonde apago
O meu cigarro !
Barro vidrado
Todo branco e azul,
Com o desenho duma caravela,
E as velas sujas
De cinza morta.
Sem bandeira no mastro,
Sem um porto à demanda...
Cai a chuva lá fora
E ele não sente.

Cai chuva,
Mas
Não é chuva:
São os meus gritos
Que andam pelo ar
E caem transformados
Em tempestades
De lágrimas geladas.
Sou eu pulverizado
Em cinzas líquidas,
Fagulhas de incêndio
Que anda em mim.
Sou eu universal,
Em labaredas
Num fogo frio
De ventos a atear.

Chove...
Não, não está a cair chuva.
Sou eu,
Que estou a chorar.

Carlos Santelmo

Quarta-feira, Maio 27, 2009

ILUSÕES MORTAS

Morreu-me enfim, amarguradamente,
A mais doce das minhas ilusões...
Que vale a vida sem as seduções
De uma esperança que nos acalente?...

Foi breve o sonho que tão docemente
Encheu-me a vida de fascinações...
Morto o ideal das minhas ambições,
Ficou-me a dor que mata lentamente...

Outrora eu via a rutilar brilhante,
Iluminando o céu da minha vida,
A promissora estrela da Esperança,

Agora eu vejo (ó causa apavorante!)
O céu mudado em noite denegrida,
Onde não surge um íris de bonança.

João Baptista de Morais Ribeiro

Sexta-feira, Maio 22, 2009

SONETO

Neste silêncio cheio de sentido
Da noite, escuto, em religiosa unção,
Um rumor misterioso e indefinido
Que parece rolar lá da amplidão.

De onde vem este som desconhecido?
Desce dos céus? Será uma ilusão?
São vozes que não ferem meu ouvido,
Mas que me vêm ressoar no coração.

São vozes do silêncio e do mistério,
Com que Deus fala às suas criaturas
Dos abismos do espaço ermo e sidério;

Ouço-as no decorrer da noite calma,
Descendo misteriosamente das alturas
Para ecoar no silêncio de minh'alma.

Maria Nunes de Andrade

Segunda-feira, Maio 18, 2009

MULHER

A AVÓ

A avó , nos trémulos dedos
mal sustentando o leve fuso,
ouve ao longe o som confuso
duns inocentes brinquedos.

__Achando aberto o jardim,__
diz a velha __ é sempre assim;
são como as aves inquietas.
Nem eu sei quem voa mais,
se os incansáveis pardais,
se as minhas queridas netas.

E a avó, nos trémulos dedos
fazendo girar o fuso,
ouve a rir o som confuso
dos tais longínquos brinquedos.

Eis principia a assomar
da cadeira no espaldar
a face, risonha e linda,
duma das netas, e a avó,
pensando que está bem só,
fala das netas ainda.

Fala; e nos trémulos dedos
fazendo girar o fuso,
ouve a rir o som confuso
dos tais longínquos brinquedos.

Nisto, um rosário que está
pendurado há muito já
num dos braços da cadeira,
escorrega e cai ao chão,
por lhe haver tocado a mão
daquela infantil brejeira...

E a avó, dos trémulos dedos
deixando cair o fuso,
já não ouve o som confuso
dos tais longínquos brinquedos;

mas assustada ao sentir
o seu rosário cair,
volta a nevada cabeça
e inda distingue o rumor
que faz pelo corredor
a neta, fugindo à pressa.

E, do cesto das meadas
a avó levanta o fuso,
ouve a rir o som confuso
de longínquas gargalhadas.


Guilherme Braga

Quinta-feira, Maio 14, 2009

FRANCISCO DE RIOJA

Á LA ROSA

Pura, encendida rosa,
Émula de la llama
Que sale com el dia,
: Como naces tan llena de alegría
Si sabes que la edad que te da el cielo
Es apenas un breve y veloz vuelo?
Y no valdrán las puntas de tu rama
Ni tu púrpura hermosa
Á detener un punto
La ejecucion del hado presurosa.
El mismo cerco alado,
Que estoy viendo riente,
Ya temo amortiguado,
Presto despojo de la llama ardiente.
Para las hojas de tu crespo seno
Te dió Amor de sus alas blandas plumas,
Y oro de su cabello dió á tu frente.
Oh fiel imágen suya peregrina!
Bañote en su color sangre divina
De la deidad que dieron las espumas;
Y esto, purpúrea flor, y esto ? no pudo
Hacer menos violento el rayo agudo?
Róbate en una hora,
Róbate licencioso su ardimiento
El color y el aliento;
Tiendes aun no las alas abrasadas,
Y ya vuelan al suelo desmayadas.
Tan cerca, tan unida
Está al morir tu vida,
Que dudo si en sus lágrimas la aurora
Mustia tu nacimiento ó muerte llora.

Francisco de Rioja

Segunda-feira, Maio 11, 2009

VINICIUS DE MORAES

SONETO DE VÉSPERA

Quando chegares e eu te vir chorando
De tanto te esperar, que te direi?
E da angústia de amar-te, te esperando
Reencontrada, como te amarei?

Que beijo teu de lágrima terei
Para esquecer o que vivi lembrando
E que farei da antiga mágoa, quando
Não puder te dizer por que chorei?

Como ocultar a sombra em mim suspensa
Pelo martírio da memória imensa
Que a distância criou _ fria de vida

Imagem tua que eu compus serena
Atenta ao meu apêlo e à minha pena
E que quisera nunca mais perdida...

Vinicius de Moraes

Segunda-feira, Maio 04, 2009

PEDRO HOMEM DE MELO

BODAS VERMELHAS

As almas pedem luz. Apodrecida
A noite dorme, quieta, em seu armário.
Cantai sem medo! A cruz foi no calvário
Que Deus a ergueu, como a anunciar a vida!

Cantai, rapazes! E essa juventude
Que não foi minha, seja, ao menos, vossa!
Que dentre todos, um, ao menos, possa
Quebrar tanto silêncio que ainda ilude!

As asas só são asas quando há vento.
Cantai ! Cantai na força dos vinte anos!
Cantai ! Cantai ! Ingénuos mas humanos
Com lábios rubros de prometimento!

Não morrer hoje, que importância tem?
A paz, às vezes, lembra-nos veneno...
E tudo é falso no país sereno
Que não se bate nunca por ninguém.

Pedro Homem de Melo

Sexta-feira, Abril 24, 2009

SONETO À LIBERDADE

Sagrada emanação da divindade,
Aqui do cadafalso eu te saúdo;
Nem em tormentas, com revezes mudos,
Fui teu votário e sou, ó Liberdade!

Pode a vida brutal ferocidade
Arrancar-me em tormento mais agudo;
Mas das fúrias do déspota sanhudo
Zomba da alma a nativa dignidade.

Livre nasci, vivi, e livre espero
Encerrar-me na fria sepultura
Onde império não tem mando severo.

Nem da morte a medonha catadura
Incutir pode horror a um peito fero,
Que aos fracos tão-sòmente a morte é dura.

António Carlos

Domingo, Abril 19, 2009

AMOR

É como um templo uma afeição sincera.
Nele se guarda um ídolo ou uma imagem,
Com a devoção de quem, confiando, espera;
Ou com a impaciência de um fervor selvagem.

Coloquei-a num trono. Que coragem
Tem o amor quando é força e primavera!
Até na devoção mais pura, ainda agem
As forças instintivas, em que impera.

Toda a alegria em que me inspiro e exulto
Vem-me da santidade do meu culto
E o silêncio contrito que me imponho.

E a glória por que luto e ainda forcejo
É não me expor a que ela tenha o ensejo
De cair das alturas do meu sonho.

Sebastião Noronha

Sexta-feira, Abril 17, 2009

HISTÓRIA BREVE DE

HISTÓRIA BREVE DE UMA BONECA DE TRAPOS

Era uma vez uma boneca
Com meio metro de altura...

Insinuante, bonita,
Mas, pobremente vestida.

Um ar triste, __ uma amargura
Diluída no olhar...
_ Grandes olhos de safira,
E um sorriso combalido
Como flor que vai murchar.

Quase a meio da vitrine
Lá daquela capelista
Essa boneca de trapos
A ninguém dava na vista!

Ninguém via o seu sorriso!

Ninguém sequer perguntava:
Quanto vale a «marafona»?
Quanto querem p'la «Princesa»?...

Passaram anos. __ Com eles,
Foi-se a minha mocidade
E cresce a minha tristeza.

_Quem é que dá p'la Boneca
Que os meus olhos descobriram
Lá naquela capelista
Quase à esquina do jardim?...

_ Quem dá por Ela? Ninguém.

E quantas almas assim!


António Botto

Terça-feira, Abril 14, 2009

NUNCA MAIS

Talvez a folha que ali vai no vento
Te volte aos ramos, árvore que choras...
!Não voltam as que levam o esquecimento!
São as folhas do tempo: são as horas.

A folha que revoa pelos rasos
Nas asas dos tufões é feliz, ela!
Que até, desfeita em pó, nos seus acasos,
Pode às vezes o vento ali trazê-la;

E pode, entre as raízes do arvoredo,
Ir na seiva do ramo onde nascera,
Tornando a ser ainda, tarde ou cedo,
Nova folha de nova primavera.

!Mas quem me dera a mim achar no vento
Em horas de saudade, em horas tristes,
Um pó que fosse vosso, um só momento,
Folhas do tempo, que a voar fugistes.

Fernando Caldeira

Quarta-feira, Abril 08, 2009

A ENTRADA DA BARRA

Manhã... poesia... encanto... alvoroço... alegria...
O sol enche de luz a terra e o firmamento,
E corta o espaço azul, de momento em momento,
Uma gaivota branca, errante e fugidia.

Há reflexos de luz pelas ondas que o vento,
Voluptuosamente, abraça e acaricia;
A natureza inteira a respirar poesia,
Num esto, faz a Deus erguer-se o pensamento.

Extasiada, contemplo a beleza pujante
Da nossa Guanabara a estender-se possante,
Com a pompa e o resplendor de eterna magestade.

E, fitando no céu meu olhar deslumbrado,
Vejo, branco, surgir, no alto do Corcovado,
O Cristo Redentor, que abençoa a cidade !...

Iracema Nunes de Andrade

Domingo, Março 29, 2009

AURORA

A poesia não é voz _ é uma inflexão.
Dizer, diz tudo a prosa. No verso
nada se acrescenta a nada, somente
um jeito impalpável dá figura
ao sonho de cada um, expectativa
das formas por achar. No verso nasce
à palavra uma verdade que não acha
entre os escombros da prosa o seu caminho.
E aos homens um sentido que não há
nos gestos nem nas coisas:

voos sem pássaro dentro.


Adolfo Casais Monteiro


http://pt.wikipedia.org/wiki/Adolfo_Casais_Monteiro

Sábado, Março 21, 2009

PRIMAVERA

Faz hoje um lindo sol peninsular,
É o dia mais bonito dos deste ano
Encanta a vista a transparência do ar
E o céu é dum azul napolitano.

Um galho de roseira florescente
Que a aragem faz bater-me na janela
Parece mesmo estar chamando a gente
E oferecer o aroma, os botões dela ...

Ergo a vidraça à luz fulgente e amiga,
Colho uma rosa meio aberta e branca
Coloco-a em água numa jarra antiga
E ponho a jarra sobre a minha banca;

Mal na mesa a coloco dá-se um caso
Que é de gerar o mais estranho enlêvo:
A rosa debruçada sobre o vaso,
Vai perfumando e lendo o que eu escrevo ...

Do canto, onde trabalho, vê-se o rio
Através dos chorões curvos das margens,
Seguir pausado, como um rei sombrio
Por dupla fila de inclinados pagens.

E aquela massa de águas, alterosa,
E na doce paisagem, destoante
Como, numa boceta leve e airosa,
Um verso austero do Divino Dante;

Porque é um terno idílio tudo o mais,
Porque é tudo o restante ingénuo e ledo
A virginal brancura dos casais,
O verde tenro e novo do arvoredo.

Nas hortas e valados, nos caminhos,
Cruzam-se vozes límpidas cantando,
Vozes de melro no himeneu dos ninhos,
Notas alegres como um vinho brando ...

E a ondulação das searas, onde os meus
Olhos alongo, num degrau da serra,
Lembra-me as invisíveis mãos de Deus
Acariciando as produções da terra.

Augusto Gil

CONTRASTES (A PRIMAVERA)


Vem assomando além, festiva, a primavera,
recamada de luz, de pérolas toucada.
O rosmaninho exorna o vale e a cumeada ;
nas ruínas verdeja a parietária e a hera ;

a amendoeira em flôr, noiva gentil, espera
o orvalho cristalino, o beijo da alvorada ;
o sol vai abraçar a terra enamorada ;
acorda para o amor o rouxinol e a fera !

Mas...? que me importa a mim a natureza em festa ?
se um vento regelado as ilusões me cresta !
se nuvem tempestuosa o meu deserto cinge !

se a ventura, que eu sonho, em meu casal não mora
se te não vejo nunca, ó inspirada aurora !
se não queres ouvir-me, ó suspirada esfinge !

Candido de Figueiredo

Domingo, Março 08, 2009

8 DE MARÇO


Quinta-feira, Março 05, 2009

A TI... MULHER

Ontem, hoje e amanhã, procuradas
A acalentarem os humanos do futuro
Orientar estradas de vida despejadas
As ervas daninhas ramificadas no muro!

E, nas nulheres, a seiva espalharam
Do seu ventre, sairão os julgadores
No mundo de vis guerras, crepitaram
Na esperança da vinda do salvador!

Crédulas, secam suadamente o tempo
Entregues ao amor dos homens e filhos
Esquecem a sua existência sem lamento
Na certeza porém de afastar os trilhos!

Da clareza da intuição, afastam castigos
Num aclamar exaltado, gritam às nações
Nas suas vozes são denunciados perigos
Para que não hajam lágrimas de paixôes!

Dia 5 de Março de 2009
Maria Valadas

http://ecosdepalavras.blogspot.com/

Sábado, Fevereiro 28, 2009

CANÇÃO DO TEMPO PERDIDO

O tempo perdido
Não mais voltará...

Um dia
Podia ter sido...
Podia...
Mas seria...
Ou não ?...

O tempo perdido,
Relógio parado,
Só na Eternidade
Será recuperado...

Júlia do Carmo Ferreira Maury

Quarta-feira, Fevereiro 25, 2009

JORGE DE SENA

CARTA A MEUS FILHOS
SOBRE OS FUZILAMENTOS DE GOYA

Não sei, meus filhos, que mundo será o vosso.
É possível, porque tudo é possível, que ele seja
aquele que eu desejo para vós. Um simples mundo,
onde tudo tenha apenas a dificuldade que advém
de nada haver que não seja simples e natural.
Um mundo em que tudo seja permitido,
conforme o vosso gosto, o vosso anseio, o vosso prazer,
o vosso respeito pelos outros, o respeito dos outros por vós.
E é possivel que não seja isto, nem sequer isto
o que vos interessa para viver. Tudo é possível,
ainda quando lutemos, como devemos lutar,
por quanto nos pareça a liberdade e a justiça,
ou mais que qualquer delas uma fiel
dedicação à honra de estar vivo.

Um dia sabereis que mais que a humanidade
não tem conta o numero dos que pensam assim,
amaram o seu semelhante no que ele tinha de único,
de insólito, de livre, de diferente,
e foram sacrificados, torturados, espancados,
e entregues hipocritamente à secular justiça,
para que os liquidasse com suma piedade e sem efusão de sangue.
Por serem fiéis a um deus, a um pensamento,
a uma pátria, uma esperança, ou muito apenas
à fome irrespondível que lhes roía as entranhas,
foram estripados, esfolados, queimados, gaseados,
e os seus corpos amontoados tão anonimamente quanto haviam vivido,
ou suas cinzas dispersas para que delas não restasse memória.

Às vezes, por serem de uma raça, outras
por serem de uma classe, expiaram todos
os erros que não tinham cometido ou não tinham consciência
de haver cometido. Mas também aconteceu
e acontece que não foram mortos.

Houve sempre infinitas maneiras de prevalecer,
aniquilando mansamente, delicadamente,
por ínvios caminhos quais se diz que são ínvios os de Deus.
Estes fuzilamentos, este heroísmo, este horror,
foi uma coisa, entre mil, acontecida em Espanha
há mais de um século e que por violenta e injusta
ofendeu o coração de um pintor chamado Goya
que tinha um coração muito grande, cheio de fúria
e de amor. Mas isto nada é, meus filhos.
Apenas um episódio, um episódio breve,
nesta cadeia de que sois um elo (ou não sereis)
de ferro e de suor e sangue e algum sémen
a caminho do mundo que vos sonho.

Acreditai que nenhum mundo, que nada nem ninguém
vale mais do que uma vida ou a alegria de tê-la.
É isto o que mais importa _ essa alegria.
Acreditai que a dignidade em que hão-de falar-vos tanto
não é senão essa alegria que vem
de estar-se vivo e sabendo que nenhuma vez
alguém está menos vivo ou sofre ou morre
para que um só de vós resista um pouco mais
à morte que é de todos e virá.
Que tudo isto sabereis serenamente,
sem culpas a ninguém, sem terror, sem ambição,
e sobretudo sem desapego ou indiferença,
ardentemente espero. Tanto sangue,
tanta dor, tanta angústia, um dia
_ mesmo que o tédio de um mundo feliz vos persiga _
não hão-de ser em vão. Confesso que
muitas vezes, pensando no horror de tantos séculos
de opressão e crueldade, hesito por momentos
e uma amargura me submerge inconsolável.
Será ou não em vão? Mas, mesmo que o não sejam,
quem ressuscita esses milhões, quem restitui
não só a vida, mas tudo o que lhes foi tirado?
Nenhum Juízo Final, meus filhos, pode dar-lhes
aquele instante que não viveram, aquele objecto
que não fruíram,, aquele gesto
de amor, que fariam "amanhã".
E, por isso, o mesmo mundo que criemos
nos cumpre tê-lo com cuidado, como coisa
que não é só nossa, que nos é cedida
para a guardarmos respeitosamente
em memória do sangue que nos corre nas veias,
da nossa carne que foi outra, do amor que
outros não amaram porque lho roubaram.

Jorge Cândido de Sena


http://pt.wikipedia.org/wiki/Jorge_de_Sena

Sexta-feira, Fevereiro 20, 2009

NICOLAU TOLENTINO

A DOIS VELHOS JOGANDO O GAMÃO

«Em escura botica encantoados,
Ao som de grossa chuva que caía,
Passavam de Janeiro um triste dia
Dois gingas no gamão encarniçados.

Corra, vizinho, corra-me esses dados,
Gritava um d'eles, que nem boio via:
De sangue frio o outro lhe dizia
Mil anexins n'aquele jogo usados:

Dez vezes falha o mísero antiquário;
E ardendo em fúria o trémulo velhinho,
Atira c'uma tabola ao contrário:

O mal seguro golpe erra o caminho;
Quebra a melhor garrafa ao boticário
Que foi só quem perdeu no tal joguinho.»

Nicolau Tolentino
1740-1811

Terça-feira, Fevereiro 17, 2009

CLARÃO TARDIO (a Gomes Leal)

CLARÃO TARDIO

No declinar da vida, a gente reconhece,
Talvez já tarde um pouco, e com remordimento,
que tanta cousa vã, que séria nos parece,
E' pó, somente pó, erguido pelo vento.

Em duro batalhar, se cansa, se embranquece;
Consome-se a existência, expondo-a ao fogo lento
De inúteis dissensões; e, enfim, quando anoitece,
Surge o passado todo, em rápido momento.

Ouve-se, então, a voz suprema da verdade,
Que nunca se escutou, que nunca se entendeu;
E, sem remédio, vê-se, em plena claridade,

_ Das ilusões rasgado o pardacento véu, _
Como nos foi total, a estéril vanidade
De tudo, ou mal ou bem, que a vida nos encheu.

Fernandes Costa

Sexta-feira, Fevereiro 13, 2009

VOZ DO ALEM (a Gomes Leal)

VOZ DO ALÉM

Ao poeta GOMES LEAL

A voz da Impiedade eu, louco, ouvira,
Que, sob o falso nome de Ciência,
_Não há Deus! _me bradava; _ A Providência,
Virtude, Bem e Mal, tudo é mentira!

Mente em nós o que chamam Consciência,
E esse idela do Bem a que a alma aspira;
Que tudo, no universo, tudo gira,
A leis fatais em cega obediência.

Mas veio a Dor; ferina, encarniçou-se
Sobre mim revoltado e sem defesa,
Clamei socorro! e aquela voz calou-se!..

Outra, do Além, divinamente doce,
então, ouvi: _Meu pobre filho, reza!..
Oh! bendita ilusão! _se ilusão fosse!..

Roberto Pinto

Terça-feira, Fevereiro 10, 2009

Antonio Duarte GOMES LEAL

DE NOITE

Ele vinha da neve, dos trabalhos
violentos, custosos, da enxada,
cantando a meia voz, pelos atalhos.

A mulher, loura, infeliz, resignada,
cosia junto à luz. O rijo vento
batia contra a porta mal fechada.

Ao pé, havia um Cristo, um ramo bento
e uma estampa a Virgem, colorida,
cheia de mágoa, olhando o firmamento...

Uma banca de pinho, mal sustida,
vacilante aos pés: um candeeiro,
companheiros daquela negra vida.

O homem, alto, pálido, trigueiro,
entrou. Tinha as feições queimadas, duras,
dos que andam com a enxada, o dia inteiro.

A mulher abraçou-o. As linhas puras
do seu rosto contavam já tristezas
de grandes e secretas amarguras.

Tinha chorado muito as estreitezas
daquela vida assim!... Talvez sonhado
um dia com palácios e riquezas!

Ele deitou-se a um canto, fatigado
de erguer-se, alta manhã, todos os dias,
mal voavam as pombas do telhado.

Lá fora, nuvens grossas e sombrias
no pesado horizonte. Ele assim esteve
__ as noites eram ásperas e frias __.

Ela cobriu-o duma manta leve,
esburacada, velha. No telhado
ouvia-se cair, sonora, a neve.

Ela então meditou no seu passado;
no seu primeiro beijo, nas lembranças,
talvez, do seu vestido de noivado,

e nas tardes das eiras, e das danças
às estrelas, e aquela vez primeira
que a rosa lhe furtou das longas tranças;

e aquela tarde, junto da amoreira,
que trocaram as mãos; e na janela;
e quando olhavam juntos; a ribeira;

e quando era tímida e singela...
................................................................
Lá fora, dava o vento nos caixilhos;
não brilhava no céu nem uma estrela.

E, àquela hora da noite, por que trilhos
andariam no mundo __ ela cismava __
nas misérias, talvez, sem rumo, os filhos!...

Ele, na manta velha, ressonava.

Gomes Leal
(1848-1921)

http://pt.wikipedia.org/wiki/Ant%C3%B3nio_Gomes_Leal

Sexta-feira, Fevereiro 06, 2009

ESPERA-NOS

Espera-nos o tempo dividido
A ânsia da decadência rogada
Com uma amante na cama errada.

Espera-nos a certeza de nada:
A morte como tecido rasgado
Um dia a mais como se fosse dado.

Rui Dias

Quinta-feira, Fevereiro 05, 2009

SONETO

Agora con la aurora se levanta
mi luz, agora coge en rico ñudo
el hermoso cabello, agora el crudo
pecho ci-ne com oro, y la garganta.

Agora vuelta al cielo pura y santa
las manos y ojos bellos alza, y pudo
delerse agora de mi mal agudo ;
agora incomparable tañe y canta.

Ansí digo, y del dulce error llevado,
presente ante mis ojos la imagino,
y lleno de humildad y amor la adoro.

Mas luego vuelve en sí el engañado
ánimo, y conociendo el desatino,
la rienda suelta largamente al lloro.

Fray Luís de León

Sexta-feira, Janeiro 30, 2009

O INFINITO

Aonde o corpo não vai _ projecta-se o olhar;
Onde pára o olhar _ prossegue o pensamento;
Assim, n'esse constante, eterno caminhar,
Ascendemos do pó, momento por momento.

Muito além da atmosfera e além do firmamento
Onde os astros, os sóis, não cessam de girar,
Há de certo mais vida e muito mais alento
Do que nesta prisão mefítica, sem ar...

Pois bem! se não me é dado, em vigoroso adejo,
Subir, subir... subir _ aos mundos, que não vejo,
Porém que um não sei quê me diz que inda hei-de ver,

_Quero despedaçar os élos da matéria:
Perder-me pelo azul da vastidão etérea...
E ser o que só é quem já deixou de ser!


Mucio Teixeira

http://pt.wikipedia.org/wiki/Múcio_Teixeira

Domingo, Janeiro 25, 2009

PÁGINA DE FUMO

Corpo é matéria, um todo limitado.
O quebra luz. A porta do aposento.
O vaso e a planta verde de ornamento.
A pena com que escrevo. O livro ao lado.

O gato sonolento anovelado ...
A almofada fofa. O fogão lento.
Familiar cadeira em que me sento.
A mão obediente ao meu mandato ...

Tudo o espaço contém, tudo limita.
A página de fumo onde está escrita
A minha dor sem trégua ao sofrimento,

De nada limitada ou circunscrita,
Só ela é incontível, infinita,
_Voz silenciosa ao meu cruel lamento.

Maria Antonieta Fernandes


publicado no CORREIO DO RIBATEJO nº 5151,
de 5/01/1990, página oito

Sábado, Janeiro 24, 2009

SOU QUEM TE QUER...

Eu sou uma intrusa na vida,
A mais pequena unidade de medida.
Sou a que vive por viver,
Aquela que chora sem se ver.

Eu sou a lágrima de um olhar,
A mágoa do verbo amar.
Sou a que luta e nunca vence,
A palavra suplicante de uma prece.

Eu sou quem ama sem ser amada,
Mais um sinónimo de "nada".
Sou quem sorri só com a boca,
Quem se finge surda e faz de louca.

Eu sou o vento que voa sem destino,
O choro nos olhos de um menino.
Eu sou segredo que ninguém conhece,
Tormento que ninguém merece.

Sou dor de chama que flameja
E se abafa para que ninguém a veja.
Eu sou alma velha, nua,
Sombra que, à noite, cobre a Lua.

Sou quem te quer com pouca sorte,
E ainda mais te amará depois da morte...

Juliana Belo

Sexta-feira, Janeiro 23, 2009

ANTONIO RAMOS ROSA

AQUI MEREÇO-TE

O sabor do pão e da terra
e uma luva de orvalho na mão ligeira.
A flor fresca que respiro é branca.
E corto o ar como um pão enquanto caminho entre searas.
Pertenço em cada movimento a esta terra.
O meu suor tem o gosto das ervas e das pedras.
Sorvo o silêncio visível entre as árvores.
E aqui e agora o dilatado abraço das raízes claras do sono.
Sob as pálperas transparentes deste dia
o ar é o suspiro dos próprios lábios.
Amar aqui é amar no mar,
mas com a resistência das paredes da terra.

A mão flui liberta tão livre como o olhar.
Aqui posso estar seguro e leve no silêncio
entre calmas formas, matérias densas, raízes lentas,
ao fogo esparso que alastra ao horizonte.
No meu corpo acende-se uma pequena lâmpada.
Tudo o que eu disser são os lábios da terra,
o leve martelar das línguas de água,
as feridas da seiva, o estalar das crostas,
o murmúrio do ar e do fogo sobre a terra,
o incessante elemento que percorre o meu corpo.
Aqui no grande olhar eu vejo e anuncio
as claras ervas, as pedras vivas, os pequenos animais,
os alimentos puros,
as espessas e nutritivas paredes do sono,
o teu corpo com todo o vagar de sua massa,
todo o peso das coisas e a ligeireza do ar.
Ao flexível volante trabalhado pelas seivas
a minha mão alia-se: bom dia, horizonte.

Uma saúde nova vai nascer destes ombros.
A lâmpada respira ao ritmo da terra.
Sei os caminhos de água pelas veredas,
as mãos de ervas finas embriagadas de ar,
o silêncio donde se ergue a torre do canto.

Abrem-se os novos lábios e eu mereço-te.
É este o reino de insectos e de jogos,
das carícias que sabem a uma sede feliz.
Aqui entre o poço e o muro,
neste pequeno espaço de pedra cai um silêncio antigo:
uma infância inextinguível se alimenta
de uma fábula que renasce em todas as idades.
É aqui, minha filha, que dança a fada do ar
com seu brilho sedoso de erva fina
e a sua abelha silenciosa sobre a fronte.
É aqui o eterno recanto onde a água diz
a pura praia da infância.
Aqui bebe e bebe longamente
o hábito da tristeza no silêncio da vida,
aqui, ó pátria de água calada e de pão doce,
da fundura do tempo, da lonjura permanente,
aqui, bom dia, minha filha.

António Ramos Rosa


http://pt.wikipedia.org/wiki/António_Ramos_Rosa

Sexta-feira, Janeiro 16, 2009

SÁTIRA A UMA SOC......

SÁTIRA A UMA SOCIEDADE BURGUESA

Deixem-me rir a bom rir
Só assim me posso ir...!

Pátria, Família, Religião
São valores da burguesia
Que impõe a sua razão
Numa espécie de asfixia...!
O soldado a marchar
Às ordens dum general
A família a crescer
Toda no mesmo ideal
O padre a benzer
O próprio pecado original...!

Sempre a querer mandar
Está o marido machista
Fatigado, suave, sussurrante
(Tudo para disfarçar...)
Que no seu próprio lar
Vai ditando a tirania
Da mulher tudo fazer
Desde o coser ao lavar
Passando até pelo amar...!

Deixem-me rir a bom rir
Só assim me posso ir...!

Se o doente tem dinheiro
E está disposto a pagar
Então será o primeiro
No consultório a entrart,
Enquanto no hospital
No sector da urgência
Que nos valha a paciência...!

De fato escuro e gravata
Em direito formado
Ele não ata nem desata
Aquele processo intrincado,
É tanta e tal papelada
A confundir o pensar...,
Entretanto no banco dos réus
(Detidos sem culpa formada)
Passa a revolta calada.

Deixem-me rir a bom rir
Só assim me posso ir...!

Até que...
O juíz no tribunal
Com ar compenetrado
Lê a sentença final
Ao arguido já saturado
Por julgamentos sucessivos
Que se arrastam inconclusivos...,
Enquanto ele inocente
Espera impaciente

Entre grades de prisões
A última das decisões.
Há médicos, sapateiros
Operários, escritores
Ministros, serralheiros
Arquitectos, actores
Professores, engenheiros
Oprimidos e opressores...,
Estão todos misturados
Mas sem que haja igualdade
E convivem aleijados
Nesta mesma sociedade
Onde cresce o capitalismo
Aumentando a pobreza
Tenho disto a certeza.

Deixem-me rir a bom rir
Só assim me posso ir...!

Lá está em cena o burguês
Fingindo-se trabalhador
Vai chegar a sua vez
De se tornar ditador.
Esse burguês astucioso
É o pior, o mais perigoso
Só lhe interessa vencer
Para alcançar o poder.
Tantos homens sem escrúpulos
Continuam a proliferar
Porque afogada em crepúsculos
Anda a vontade de os derrotar.

Deixem-me desta vez chorar...!
Sinto-me inválida para apagar
O fogo que está a arder
Com perigo de alastrar
Se depressa não chover.
Sociedade burguesa
Ironia do destino
Não me ponhas mais a mesa
Não me dês mais desse vinho
Denuncio-te a escrever
Sem que me vença o cansaço
Faço da minha poesia
Uma espada de aço...!

Deixem-me rir a bom rir
Que o meu riso é de escárnio...
E de nojo... e de repulsa...
O meu riso satiriza
Com crescente zombaria
Toda e qualquer burguesia
Deixem-me rir a bom rir
Só assim me posso vir
Em orgasmo contrafeito
A apunhalar o peito...!

Ana Trigal

Sábado, Janeiro 03, 2009

EL INTERROGATORIO

No pude resistir
o interrogatorio.
La fría sapiencia
del interrogador
y la debilidad
del interrogado,
hicieron fácil la tarea.
La picana y las tenazas
habían trabajado
con profesionalidad
casi perfecta.
En el lóbrego calabozo
estaba terminando
de escribirse una historia,
una más de esos seres
desgraciados que
caminaron por esta
América nuestra,
en aquellos siniestros
años.


Fernando Giucich