segunda-feira, Setembro 01, 2014

APOLOGIA DO LOBO

Nas montanhas soturnas e bravias,
Cobertas de urzes e giestas amarelas,
Vê-se às vezes, nas longas noites frias,
Um lobo a uivar, voltado p'ra as estrelas.
     Os seus olhos nervosos, refulgentes,
     A cintilarem como dois luzeiros,
     Têm o fulgor da fronte dos videntes,
     A ostentaçãp heróica dos guerreiros:
 Pois pode acaso alguém ao lobo negar
As aptidões de um pensador profundo ?
Quem sabe! Enquanto ao longe anda a ulular,
Estuda as obras de Proudhon a fundo.
     A Natureza educa. O Sol radiante,
     A árvore verde, graça e luz da aldeia,
     O azul celeste, a nuvem flutuante,
     Tudo contém em si uma epopeia.
O lobo talvez seja um grande artista,
Original espírito do bem,
Filósofo, talvez positivista
E que jamais se revelasse a alguém.
     Quando através dos densos arvoredos
     Eu o encontro, nas noites consteladas,
     Ou entre as altas cristas dos rochedos
     Erguidas para os ares como espadas.
Digo sempre comigo então: _Oh sábios,
Não injurieis o lobo, não fujais !
Que vai cair em breve dos seus lábios
O melhor dos sistemas sociais.
    
          José Leite de Vasconcelos
                      (1858-1941)

domingo, Agosto 24, 2014

VASSALAGEM

Como um vassalo aos pés d'uma rainha,
De olhar patrício e fronte misteriosa,
Uma radiante borboleta vinha
Ajoelhar-se defronte d'uma rosa.
     
Tombava a noite. E o pequenino insecto,
Na delicada folha que o sustinha,
Fitava a rosa, indo ajoelhar-se inquieto,
Como um vassalo aos pés d'uma rainha.
    
Ouve-me agora... Aquela flor tremente
Eras tu, eras tu, meiga andorinha!
E eu sou o insecto que, serenamente,
Se vem ajoelhar na tua frente,
Como um vassalo aos pés d'uma rainha.
     
                  Eugénio de Castro

sábado, Agosto 23, 2014

VINTE E TRÊS

Um numero festejado.

Um numero para esquecer

domingo, Agosto 17, 2014

NOVOS SONETOS A MINHA AMADA

A minha amada é uma menina doce
     como um exemplar currículo de cama:
     antes, durante, após, geme que me ama,
     com a falsidade que o prazer lhe trouxe.
     
Me quer como um brinquedo. Ou antes fosse.
     Mais um sorvete pra sorver na cama.
     Sabe mais coisas do que uma mulher dama _
     em seus braços meu verso desarmou-se.
     
E me quer só pra ela. Nada existe
     com que me queira dividir. E chora
     e briga e treme e agride e fica triste
     
se de algo em minha vida fica fora
     (E só faz o que quer). Nunca desiste
     de si enquanto jura que me adora.
     
                     Ildásio Tavares

sexta-feira, Agosto 15, 2014

PAI E FILHA

Criança meiga e formosa
É quem serve ao pai de guia
Ninguém melhor do que Rosa
Um velho triste alivia.
     
O pai, um velho, já cego,
Desesperado da vida,
Só tem consolo e sossego
Amparado à filha qu'rida.
     
Servem os dois de modelo
N'aquela aldeia singela;
A filha no seu desvelo,
O pai nos amores por ela,
     
Não há quadro mais divino,
De tanta simplicidade,
Ele, o cego sem destino,
Ela, a santa caridade !
     
      Julio Baptista Ripado

quarta-feira, Agosto 13, 2014

FIEL AMIGO


Ó pobre cão vadio, meu amigo!
Nem sempre encontras osso p'ra roer
Sou pobre, também sofro o teu castigo;
A vida é só p'ra quem sabe viver!

Ninguém tem dó de ti, ó desgraçado!
Afastam-se com nojo e por capricho
E já tens sido, até, apedrejado,
Por rebuscares pão que está no lixo.

Conheço que és um cão, que andas nu...
Mas quem dera que fossem como tu,
Esses falsos amigos que já tive!

Sou eu, o Silva Peixe quem te fala,
Amigo: quem mais sofre é quem mais cala
Com sentimentos sãos é que se vive.

Silva Peixe

terça-feira, Agosto 12, 2014

A MULHER SENTADA

Mulher. Mulher e pombos.
Mulher entre sonhos.
Nuvens nos seus olhos?
Nuvens sobre seus cabelos.
     
(A visita espera na sala:
a notícia, no telefone;
a morte cresce na hora;
a primavera, além da janela).
    
Mulher sentada. Tranquila
na sala, como se voasse.
     
   João Cabral de Melo Neto
 

domingo, Agosto 10, 2014

A CONCHA

É singular da concha a nostalgia
Depois que deixa as solidões do mar;
No seio nacarado preludia,
Ouve-se dentro a vaga a marulhar.
    
Semelhante à concha o coração humano;
Quando perdida a juventude e o ardor,
Ainda guarda no profundo arcano,
Fundos vestígios do primeiro amor.
    
                   Isaías de Oliveira

sábado, Agosto 09, 2014

O VELHO POVEIRO

Com a voz cansada de falar às ondas
E a pele curtida do vento do mar,
Pescador velhinho, que mistério sondas?
Que, perscruta, ao longe, teu fincado olhar?

Sentado na praia, nas dunas redondas,
Vendo as nuvens densas que enegrecem o ar,
Que receio oprime, por mais que o escondas,
Teu trémulo rosto, teu peito a arquejar?

Tu que navegavas sem um sobressalto
Entre nevoeiros, temporais, escolhos,
Porque estás agora pálido, inquieto?


Porque nessas lanchas que andam no mar alto,
E que em vão procuras, alongando os olhos,
Numa vem teu filho, noutra vem teu neto!
Alberto D'Oliveira

quinta-feira, Agosto 07, 2014

MORTA !

Havia arrulhos, havia ninhos,
Na transparência d'aquele olhar...
Olhar que os longos, negros caminhos,
Me iluminavam como o luar !...
Havia queixas, meigos carinhos,
Na branca esteira d'aquele olhar !
          Aquela boca, meu Deus, aquela
          boca __ onde os anjos vinham cantar
          Quando por vezes me lembro d'ela
          Inda prosterno-me a soluçar !
          Aquela boca d'onde a procela
          Dos beijos se iam como a cantar.
Um dia arcanjos de asas douradas
Do céu baixaram para a levar
Em nuvens pandas, aurilavradas,,
Do azul marinho, do azul do mar,
Anjos formosos, risonhas fadas,
Todos vieram para a levar !
          Amortalhada, da cor dos lírios,
          Dos brancos lírios junto do altar,
          Parece ainda rezar uns kyrius
          Por entre os lábios a sussurrar
          Branca, tão branca! da cor dos círios
          Que ardem às santas virgens do altar !
Todas as flores cantavam hinos,
Quando a levaram para enterrar !
Caía a tarde __ sons vespertinos
Se balouçavam no azul do ar,
E muito longe plangiam sinos,
Quando a levaram para enterrar ...
          
          Arnaldo Damasceno Vieira
                     1879 _ 1951

terça-feira, Agosto 05, 2014

NESTA PRIMAVERA OS PÁSSAROS

Lento é o passar veloz de todos os veículos
Rumor que se me confunde às ondas
Vai sobre o cais o meu olhar que só ouvindo
Se enclausura neste poço que lá em baixo ouço
    
Sei que não morreram todos os pássaros ainda
São pássaros que ouço lá em baixo na cidade que passa
Delicadamente as pombas interpõem seu ritmo
E não sei mais senão dum coração que bate
     
Eu sei como o bater das asas só longe é livre
Mas neste poço a cidade o repete frágil
Somos corações contudo vivos e percutindo
Um pulsar manso e imerso nesta margem
    
Uma galera é ave ou rio ou nobre ritmo
Passando anódina neste azul só pálido
Que silentes as manhãs álacres também já vividas
Mas a cidade me apela e assim frágil a amo
     
Quero pensar em pássaros e nos seus ramos de árvores
Na hora vesperal em que se acolhem e é tranquila
Mas só tenho esta manhã e a cidade em meu olhar
Compõe igual seu canto neste poço um pouco triste
    
Não sou viúva de cantos de aves por outras manhãs
Em que a primavera pintava para mim azuis céus antigos
Mas a cidade palpita com um rumos também de asa
E a beleza sobe a este poço como a pomba com leve fremir
    
Falei da cidade mas não contei da cidade
Disse antes que ela tinha um leve coração de bater triste
Talvez um Deus tanbém triste a toque e a envolva em paz
Mas a cidade é frágil neste poço subindo múrmura do cais do rio.
    
     Maria Aliete Galhoz

segunda-feira, Agosto 04, 2014

TEMPUS

Nascem dias, morrem dias,
E o tempo sempre a correr:
_Tão ledo nas alegrias !
_Tão triste no padecer !
     
Caminha, ó tempo e contigo
Leva o meu mal por meu bem ;
Mas deixa-me atrás, amigo,
Que eu não posso ir mais além...
      
    Manuel Augusto d'Amaral
                 1862-1942 

sexta-feira, Agosto 01, 2014

SONETO

Estende o manto, estende, ó noite escura,
Enluta de horror feio o alegre prado;
Molda-o bem co pesar dum desgraçado,
A quem nem feições lembram de ventura.

Nubla as estrelas, céu! que esta amargura,
Em que se agora ceva o meu cuidado,
Gostará de ver tudo assim trajado
Da negra cor da minha desventura.

Ronquem roucos trovões, rasguem-se os ares,
Rebente o mar em vão n'ocos rochedos,
Solte-se o céu em grossas lanças de água!

Consolar-me só podem já pesares:
Quero nutrir-me de arriscados medos,
Quero saciar de mágoa a minha mágoa.

Padre Francisco Manuel do Nascimento
(Filinto Elísio)
1734-1819

sexta-feira, Julho 25, 2014

O FILHO PRÓDIGO

Aqui estou, Pai. Perdi-me.
Venho
de porcos grunhindo contra o sol.
     
Trago
as marcas da fome.
Como devorar sobejos
junto ao esterco?
Também lá dormi.
     
Trago na alma um pouco de sede.
     
Recebe-me como a um dos teus servos.
Podes recusar-me o cabrito e o anel.
Meu irmão não precisa queixar-se:
é dele também teu amor.
     
Deixa-me
o amor de minha mãe.
     
É por ela que vim.
     
        Armindo Trevisan 

 

segunda-feira, Julho 14, 2014

FERNANDO GUIMARÃES

Que leve superfície ali tocavam
os pés, quando encontraram o suporte
sem peso deste vaso, onde passava
o rumor quase extinto de outra fonte
    
ao levantar o manto que foi água,
e assim ficará preso àquele círculo
de um gesto que se torna o início apenas
da noite em que se eleve agora a curva
    
dos joelhos vergados, o silêncio
que envolvera de novo a superfície
atravessada pelo mesmo impulso
     
de um amor mais secreto, desta súbita
vontade, quando fica em nós a extrema
nudez que pelas águas se perdia.
    
                                Fernando Guimarães

terça-feira, Julho 08, 2014

PANÓPLIA

Robustas árvores magnólias frescas
em Portugal no centro crescem sempre
apesar dos desterros e das sombras
que sobre este país reflorescem
    
À maneira nobre e simples de Cesário
Verde de seu nome e sua juventude
digo que as papoilas ardem fervem
quer seja por costume ou por virtude
    
E nos altos pinhais da nossa terra
os gaios as calhandras e os melros
hão-de fazer sempre a mesma festa
    
uma festa contra o crime e contra a guerra
com as uvas o vinho e alguns velhos
sentados em bancos à sombra da giesta.
    
      Jose Carlos González

segunda-feira, Junho 30, 2014

EL CIPRÉS DE CILOS

                                   A Ángel del Río
       
Enhiesto surtidor de sombra y sueño
que acongojas el cielo con tu lanza.
Chorro que a las estrellas casi alcanza
devanado a sí mismo en loco empeño.

     
Mástil de soledad, prodigio isleño,
flecha de fe, saeta de esperanza.
Hoy llegó a ti, riberas del Arlanza,
peregrina al azar, mi alma sin dueño.

     
Cuando te vi señero, dulce, firme,
qué ansiedades sentí de diluirme
y ascender como tú, vuelto en cristales,

     
como tú, negra torre de arduos filos,
ejemplo de delirios verticales,
mudo ciprés en el fervor de Silos

     
                                  Gerardo Diego

sexta-feira, Junho 06, 2014

LANTERNAS

Na aspiração de encontrar seu grande amor
Os poetas desesperam com sentida dor
Trazem acorrentados ao seu próprio louvor
Os desejos fundidos, do seu querer e furor.

Se alguma outra lanterna numa hora seduz
Que lhes dá ao delírio caminho alguma luz
Logo, logo no tempo em sombra se traduz
Porque eles respiram a sua, a própria cruz.

Luz que rima na poética fantasia
Lanterna que se acende noite e dia
Nem assim a alma lhes acaricia…

Porque os poetas são almas magoadas
Eternamente luz, cegamente encandeadas
As próprias sombras, de amor encantadas!


Isa. Cal.



domingo, Junho 01, 2014

ESTE RIO DE VERÃO

Este rio de verão, esta paz, este rio,
A tristeza de ser quem em mim não conheço,
Este alheio seguir sobre o gume do fio,
Este alheio acordar sob o molde de gesso.
Esta vã solução de dizer «obrigada|»
Ao que passa e não vê, ao que volta e não vem,
Este dedo de Deus que se aponta à errada
Lucidez da mulher que de mim é ninguém.
Como drama que espera o chegar do Actor
E de gritos, no Ar, enche a tarde de dó,
Eu me espero, me espero, entre o Amor e o Terror.
Sobe o pano. E o deserto é de mosto e sol-posto
E onde estou é no sangue. E onde vou é no pé.
Natercia Freire

domingo, Maio 04, 2014

MÃE

Nas horas de tormenta ou de bonança,
o braço firme e forte que não treme
é o braço da Mãe que vai ao leme
e que embala o bercinho da criança.

Ó Mãe, ó luz da infância e mocidade,
feliz de quem a tem e traz consigo,
pois não lhe faltará porto de abrigo
nas horas em que surge a tempestade !

Quer sejas a princesa ou a rainha,
senhora dum palácio ou pobrezinha,
eu te saúdo, ó Mãe, ó mensageira

tão bela como a luz que enche os espaços
e que embalas na curva dos teus braços
o mais sagrado amor da vida inteira !

Maria de Mesquita da Camara

domingo, Abril 20, 2014

A MINHA CASA

CAIEI de branco a casa que não tenho.
Para iss, primeiro, pedra a pedra,
idéia a idéia, tive de edificá-la,
aqui deixando livre uma ampla janela,
e além, cerrandas, paredes para os livros.
Em arcas guardaria as roupas lhanas,
que por outras trocaria, quando velhas,
e no quarto de cama abobadado
repousaria à noite e amaria,
se não me apetecesse dormir antes na relva,
ao som à porfia dos rouxinóis e dos grilos.
     
Estaria sempre posta a minha mesa,
e quem aparecesse e fosse amigo
à vontade nela comeria
e beberia à vontade do que houvesse,
febras, enchidos, azeitonas,
saladas, pão trigueiro,
farta e sortida fruta,
e desde os vinhos leves, ou encorpados,
às várias aguardentes, fortes e perfumadas.
     
Tudo isto fiz, tudo isto quis
eu fazer num andar modesto de aluguer,
na cidade confusa,
tumultuosa e hostil.
Assim falhei o meu fado,
dia a dia igual, ao contrário de mim,
desenfadado e alegre,
por qualquer insignificância enternecido,
mas logo por uma ínfima injustiça
revoltado e raivoso.
     
        Armindo Rodrigues

quinta-feira, Abril 10, 2014

TERRA DO MEU ORGULHO

Mar largo. O vento canta. O navio estremece.
A alma de Frei Gonçalo erra sobre este mar...
Sírios, na proa, ao alto, o roteiro esclarece.
Brilha Vénus à ré. Começa a dealbar.

Sinto na boca impura o aroma duma prece.
O coração, ansioso, é um sino a repicar...
Céu e mar são um templo azul, que resplandece!
_De joelhos: São Miguel surge em seu verde altar!

Ó terra de meus pais! Arca do meu afecto...
Mais linda das que eu vi, de olhar saudoso e inquieto,
Buscando-te rival entre os jardins do mundo...

Terra do meu orgulho, e último bem que espero!
Mãe de Bento Góis e mãe de Santo Antero...
_Beijo, a alma de rojo, o teu ventre fecundo!
Raposo de Oliveira

domingo, Abril 06, 2014

EPÍLOGO

Este mar, este sol, este perplexo
     Olhar de um gato, este sabor de sal,
     Esta folha da Bíblia, este vitral
     De um templo de Bizâncio, este complexo
    
     Teorema, tudo isto é já um reflexo
     Crepuscular do mundo e do final
     Do cordeiro na cova do chacal,
     Do Espírito castrado pelo sexo.
    
     O que era belo é morto. E, entre monturos,
     Vagam hienas. Vespas zumbem juros,
     De uma csterna o homem mede estrelas.
    
     Sobe uma ogiva à lua. E uma pomba
     Desce do céu e traz no bico a Bomba.
     Uiva em vestais o cio das cadelas.
    
          Domingos Carvalho da Silva

sábado, Abril 05, 2014

EUGÉNIA LIMA

http://www.omirante.pt/noticia.asp?idEdicao=54&id=71363&idSeccao=479&Action=noticia#.U0BlraLtAkE


 http://www.oribatejo.pt/2014/04/05/morreu-a-acordeonista-eugenia-lima/


 https://www.youtube.com/watch?v=ycnBqdRk6k4

terça-feira, Abril 01, 2014

CAIR DO ALTO

E ficou com as mãos pousadas no teclado,
Esquecida, a cismar num mundo de riqueza:
Supunha-se num baile; um conde apaixonado
Segredava-lhe: "Adoro-a!... Eu mato-me, marquesa!..."

Ah! se fosse fidalga!... Ao menos baronesa...
Que baile! que esplendor na noite de noivado!...
Estremeceu, nervosa, achou-se na pobreza,
E o piano soltou um grito arrepiado.

Absorvida outra vez, prendeu-se-lhe o sentido
A mesma ideia __ o luxo. Ia comprar cautelas...
E imaginou de novo o conde enfurecido...

Um palácio, um coupé, esplêndidos cavalos...
Nisto o marido entrou, de óculos e chinelas,
E miou com ternura: "Anda aparar-me os calos."
Garcia Monteiro
1859 - 1913

domingo, Março 23, 2014

SONETO

Quem no mundo não tem uma ilusão,
Quem a terra não sente estremecer,
E nas fragas bater um coração,
Quem nas fontes só água vê correr,
    
Terá uma vida calma, sem acção,
Qual onda sem desejo de crescer;
Qual estrela sòmente escuridão,
Que nenhuns olhos tristes podem ver.
    
Eu quero as tempestades do oceano,
Sentir, no peito, o fogo lusitano;
A dor da vida, em mim, quero sentir!
    
Quero a branda tristeza na alegria,
No sol nascente a definhar do dia,
Na sombra escura, a luz que há-de surgir!
 
        Maria de Carvalho

sábado, Março 08, 2014

ELOGIO DA VIRGINDADE

Não, não é uma jóia pela qual se paga.
É só a primeira vez de alguma coisa enorme
que envolve o prazer e não envolve o prazer
porque a ciência do prazer é ela mesmo prazerosa.
Também não é a marca sem a qual tudo perde
a legitimidade e o valor consequente.
Não é nada melhor nem pior do que nada.
 
Mas é um minuto, o minuto antes de,
quando a gente está vivo e frui a vida
e ainda não sabe o quanto ela se guarda.
 
Não ignoro o relativo resistir de uma membrana
e todo o lado trágico que isso trouxe à História.
Não ignoro o perigo de supervalorizáa-la;
mas ressalto o perigo de não lhe dar valor nenhum.
Antes você não sabia de nada, você só sabia
que havia alguma coisa que você quase ignorava.
Agora houve uma dor perfeitamente suportável
e um pequeno prazer perfeitamente suportável.
O melhor vem depois. Mas isto, a descoberta,
a promessa de novas e infinitas angústias,
o começo de um caminho que findará na morte,
isso, meu bem, não dá pra perder calmamente
no banco posterior de um automóvel.
 
Renata Pallottini

sexta-feira, Fevereiro 21, 2014

ERA UMA TARDE...

Era uma tarde
De vento agreste e de inclementes chuvas.
À porta do palácio, a multidão
De aleijadinhos, orfãos e viúvas,
Mal coberta de andrajos, a tremer,
Pedia pão...

Quem havia de, entretanto, aparecer ?
Vinha Isabel com uma abada de ouro,
Um deslumbrante e autêntico tesouro,
E ia já dá-lo aos pobrezinhos, quando
El-Rei lhe tolhe o passo...
__Que trazeis vós, Senhora, no regaço ?__
Pergunta D. dinis. Ela corando,
Responde-lhe: __São rosas, meu Senhor...
__Rosas no Inverno ? Não será engano ?...
__É que estas rosas são de todo o ano, __
Diz a Rainha então,
__São rosas de piedade e de perdão,
Rosas de luz,
Rosas de amor,
Duma roseira que plantou Jesus...__
E, desdobrando o seu brial de seda,
Mostrou-lhas, a sorrir...
Cada moeda
Se transformara, por milagre, em flor...
E, frescas, orvalhadas e viçosas,
Aos pés de El-Rei cai um montão de rosas...

Pelo ar derramou-se um tal aroma
Tão doce e tão fragrante,
Como se alguém tivera nesse instante
Quebrado uma redoma
De bálsamos celestes...

    
 Cândido Guerreiro

segunda-feira, Fevereiro 17, 2014

O RELÓGIO

Corda, ponteiros, numeros, _ e tanta
Coisa lá dentro !  Finas rodas de aço !
Ao seu comando, débil de cansaço,
Ora a gente se deita, ora levanta.
    
A voz do tempo !  Sossegada canta
Imperturbável, dominando o espaço.
Nova manhã desperta no regaço
Da noite, como surge a flor na planta. 
    
O Passado, o Presente sempre iguais !
O mesmo giro sempre, sempre... Aquela
Pontualidade que não pára mais !
    
Já não te ouço sequer !  Nem sinto o mundo !
Vai-se-me a vida sem eu dar por ela ...
Um segundo... um segundo... outro segundo...
              Cabral do Nascimento

quinta-feira, Fevereiro 13, 2014

AZULEJOS

Asume el aire
su vocación perdida
la densidad
abierta de tus manos
cuando en la tarde llueve.
    
Entre tu nombre
y el mío hay un lugar
donde no falta
la luz, la arquitectura
que nace de tu sombra.
    
Irrepetible,
sorprendida en su vuelo
tu otra imagen.
La certeza del pájaro
te acoge en su huida.
    
Ojos furtivos
(azules) de mujer
pueblan la casa.
Una mirada incendia
las paredes del cuarto.
    
Última escena:
(lejos) tu voz desnuda
es un lenguaje
cifrado en lo más liso
del agua, en lo más hondo.
Àngel Campos Pámpano