segunda-feira, fevereiro 01, 2016

IMPOSSÍVEL DESCRIÇÃO

Entre as vigas duma sala,
ou entre o céu e a terra?
     
A dimensão que me encerra,
nunca sei qualificá-la.
     
Sei que, por vezes, me ausento
para algum furtivo mal:
inseguro pedestal
onde, aos poucos, eu me invento.
     
E se cada espelho me retrata
duma forma diferente
não me levem a nenhum psiquiatra;
porque eu não estou doente
nem preciso da droga que me trata.
     
Se é esse o problema,
não é essa a solução.
Nem me levem ao cinema,
apenas porque estou triste
Este mal do coração
sempre persiste
e insiste.
     
Este mal do coração!
Isto que sinto antes de sentir dor...
Esta pré-dorida sensação
de cesuras, ritmo, rima,
música, dança. folclore...
e esta fúria suprema
do momento criador.
     
Entre as vigas duma sala,
ou entre o céu e a terra?
     
A dimensão que me encerra,
nunca sei qualificá-la.
     
          Fernanda Botelho    
 

sábado, janeiro 02, 2016

SOU EU

Sou alma, a poetisa d'alma misteriosa,
Sou a chuva que beija os telhados,
Sou o confessionário que lava os pecados,
Sou a boca rubra que se fechou silenciosa !
     
Não sabes quem sou, lágrima sequiosa !
Sou o bálsamo em cofres velados !...
Sou as tábuas velhas dos caixões chorados !
Sou enfeites áureos da alma dolorosa !
     
Sou o corpo frio da morte em tassalhos !
Sou o doce das quimeras, vivo além...
Sou toda asas, que dormem nos galhos !
      
Sou quem? Quem sou? Não sei, mas sou alguém !
Sou a que não vês, que dorme nos borralhos !
Sou eu... a mendiga... não sou ninguém !
      
            São Torres de Amorim

segunda-feira, dezembro 21, 2015

PAISAGEM DE INVERNO

Que queres que te diga da paisagem
Donde te escrevo! Meu saudoso amigo,
Tanto disseste que aprendi contigo
A só ver nela a minha própria imagem.

_O mar está bravo; a vinha nua; o trigo
É só esperança. Ríspido e selvagem
O pinhal sustenta com coragem
O seu pesado e verde luto antigo.

Ó minha irmã fecunda e desgraçada!
Já não há sol nem coração que te ame,
Chora no mar a voz dos temporais!

_Oiço daqui a tua voz pausada:
"Há-de haver sempre, em frente ao mar que brame,
A pacífica orquestra dos pinhais."
Sílvio Rebelo

domingo, novembro 29, 2015

À ESPERA

Casinha branca, ao centro da paisagem,
Que em montes azulados se remata;
O Vouga ao fundo, em múrmure cascata,
Passa beijando a trémula folhagem...
     
Foi nessa reniotíssma paragem,
Que ouvi do berço a matinal volata...
_Nesga do céu, que a mente me arrebata!
_Terra santa de fulgida miragem!...
     
Lá me esperas, ó Mãe! doce velhina,
Que por mim rezas, suplice, à tardinha,
Lançando à estrada o olhar angustiado...
     
Santa! Eu só peço a última ventura,
De repousar, em rasa sepultura,
Junto da tua, _à beira do valado!
     
                            Albino Costa  (Guimarães?)

 
 

terça-feira, novembro 17, 2015

ABDICAÇÃO

A paz que tenho, dela abdico:
não satisfaz a minha ânsia.
__Só a distância 
me faz rico.
     
Que importam velas, catedrais
para o meu sonho de partir?
__Sou longe e mais
só com sorrir.
     
Lírios, amores, cavalos-de-pasta,
também os teve a minha infância.
__Só a distância
hoje me basta.
     
                    Daniel Filipe

domingo, novembro 01, 2015

NOVEMBRO

Fizemos o magusto na charneca
Onde o mato começa; tarde fria,
Castanhas, belo vinho na caneca,
Lume experto, excelente companhia,
Bom apetite e sede, como a breca.
          A primeira saúde quem a fez
          Foi o prior, com frases em latim;
          Houve depois mais duas ou mais três,
          Toda a roda correram, e por fim
          Chegou, naturalmente, a minha vez.
Na caneca peguei; mas como penso
A toda a hora em ti, que me acompanhas,
Fui obrigado a recorrer ao lenço:
Não sei se me engasgaram as castanhas
Ou se a lembrança d'este amor imenso.
          
                  Acácio de Paiva

domingo, outubro 18, 2015

CANTAR DE AMIGO

Bailada, bailia
que eu já sei bailar.
E agora só queria
aprender a amar.
   
Ao entrar na roda,
soltou-se-me a liga.
E agora há quem diga
que não foi na roda.
     
Bailada, bailia
que eu já sei bailar.
E agora só queria,
mas não posso, amar.
     
     Fernanda Botelho

quarta-feira, outubro 14, 2015

VÉU

Somos seres oblíquos,
tementes da luz
que não seja reflexo.
Por isso a Beleza é para nós
antes o véu de sombra em que se oculta.
    
      
Anderson Braga Horta

quinta-feira, outubro 01, 2015

NO SILÊNCIO MONACAL

Eis, no silêncio monacal, um frémito
De borboletas... Lá de longe em longe,
Sobre a encantada placidez do tanque,
Serenamente caem gotas de água.
     
Ah! Não podermos suspender o tempo
E conservá-lo, como o fino orvalho
Imóvel neste cálice de rosa...
Ah! Não podermos suspender a vida!
     
Seremos como as estátuas sombrias
Que ficaram, nos cantos dos jardins,
Ou como as altas torres onde, a espaços,
Voam morcegos, ao morrer do sol!
     
Eis, no silêncio monacal, um frémito
De borboletas... Como é noite já!
De velha, a água enruga-se num poço...
Tomba do cális, sobre a terra, o orvalho.
     
       João Cabral do Nascimento

 

domingo, setembro 13, 2015

CABEDELO

Esbranquiçado réptil,
adiantava a língua rugosa,
a secar a saliva das ondas.
     
Dos embarcadiços de Falmouth que
morriam a bordo,
alimentava-se-lhe a sede de progredir.
     
E formava a garganta dos naufrágios,
e embebia-se da garrafa de gin,
no bolso das calças dos herejes que,
em seus lençóis,
alcançavam o repouso dos guinchos das gaivotas.
     
                         Mário Cláudio

terça-feira, setembro 01, 2015

FEIA

Achas-te feia ! O porquê
nem talvez saibas dizer...
não julga assim quem te vê
embora sem to dizer.
Teus olhos são como tantos,
fontes de amor e desvelos;
há neles iguais encantos
como nos olhos mais belos.
    
Na tua boca, o sorriso,
como um divino condão,
temtodo o jeito preciso
de prender um coração.
Há nos teu lábios, desejos,
como os possa ter qualquer,
origens de muitos beijos
como em lábios de mulher.
    
Achas-te feia !  O motivo
anda fora da razão...
e nesse desgosto vivo
laceras teu coração.
Que de mágoa definida
se possa sofrer ? Vá lá...
As penas são desta vida.
Mas penas assim não há...
    
São os gostos variados
a definir a beleza.
Ai de ti !  Que os teus cuidados
são talvez de uma incerteza...
Não há bela sem senão
por mais linda que se creia,
nem feia sem atracção
porque é difícil ser feia !
    
                Eurico Neves

domingo, agosto 09, 2015

POENTE

Apartava-se o sol da terra com um beijo,
Derradeiro acenar de amarga nostalgia...
Do vivido astro-rei a pálida agonia,
Vibrava, ao fenecer, a mágoa dum harpejo... 
     
Fundiam-se no campo as tintas do festejo
Verde-rubro da terra, em horas de alegria...
E engolfando-se ao longe, a luz desaparecia 
Da vetustez em pó da «casa de azulejos»... 
     
Momentos de harmonia!... Incerta, uma penumbra 
De brilho fulvo-rosa apenas se vislumbra,
Mas adensa-se já, volita mansamente...
     
E a chegada da noite a soluçar tristezas,
Às almas juvenis, candeias sempre acesas,
Segreda as orações etéreas, longamente...
     
                                       «EURÍPEDES»

sábado, agosto 01, 2015

MANHÃ

Oh, a frescura intensa da manhã,
Batendo, lado a lado, toda a estrada ! 
_Inda há pouco apanhei uma braçada
De alfazema florida, ingénua e sã...
     
Abre no céu, a fulgida romã
Que em beijos de oiro se desfaz, cansada,
Oh, como eu sinto agora remoçada
A minha fé tranquila de cristã...
     
Nos silvados despontam as amoras,
Começa, ao longe, a vibração das noras
Todo o campo se alegra e se ilumina !
    
Passam pardais a grazinar em bando,
Um rebanho, um pastor, de quando em quando,
_E cheira a mato, a frutos, a resina...
     
       Virgínia Vitorino 

quinta-feira, julho 23, 2015

COMPANHEIROS

Eu tenho um livro velho, amarelado,
Que sabe quase toda a minha vida;
Vibrou comigo em sonho enamorado,
Sofreu comigo a chaga dolorida.
    
Relendo as folhas mortas, com cuidado,
Compondo a velha história já sentida,
Eu sinto o coração alvoraçado,
Sofrer a mesma angústia revivida.
    
Mas o livro amarelado, antigo,
Está já tão velhinho, o meu amigo,
Que já não quer gravar meus dissabores;
    
E viu-me tantas lágrimas perdidas,
Fi-lo seguir comigo tantas vidas
Que ele também cansou de tantas dores.
      
            Hermes Ferreira

quarta-feira, julho 15, 2015

PREÂMBULO

Galopam cavalos
por dentro do sangue
     
Em dunas resvalam
a boca e as mãos
     
Crisparam-se as pálperas
Os dedos se inflamam
    
ao mais leve toque
na tua garganta
     
assim que de costas
te deito na cama
     
   David Mourão Ferreira

quinta-feira, julho 09, 2015

ESPUMA

Nas horas más em que a tristeza pesa,
fecho os olhos e sonho um mar todo d'espuma,
não há musica igual à voz em que ela reza
em pétalas de choro a cair uma a uma...
     
Espuma a abrir ao sol em corolas que morrem,
em jardins de mistério a soluçar na bruma,
eis o que eu queria ser! Enquanto as horas correm,
é esta a minha dor: ser como tu, espuma!
     
E sem ter uma mãe que me console e adore 
e sem ter um amor para beijar-me os olhos,
ser uma pobre flor em poeira nos escolhos...
     
E viver e morrer sem que ninguém me chore,
tendo toda a beleza e toda a alvura
a rolar numa onda cheia de doçura...
     
               António Patrício

sábado, julho 04, 2015

A CASA DO CORAÇÃO

O coração tem dois quartos:
Moram ali, sem se ver.
Num a DOR, noutro o PRAZER.
      
Quando o PRAZER no seu quarto
Acorda cheio de ardor,
No seu, adormece a DOR...
     
Cuidado, PRAZER !  Cautela,
Canta e ri mais devagar...
Não vá a DOR acordar...
      
         Antero de Quental 

quinta-feira, julho 02, 2015

AS DUAS AVES

Porque, dizem, uma ave, em a cegando,
Canta mais e melhor,
A um rouxinol os olhos foi tirando
Cacilda, sem horror.

E a voz da ave foi, depois subindo
Em sentimento... oh ! sim...
Quanto mais cego mais e vai sentindo...
Sei-o também por mim...

De Campoamor

quarta-feira, julho 01, 2015

FLOR DE ESTUFA

Em tardes mansas, pela Avenida,
onde a carruagem roda serena,
pela vidraça toda corrida,
avisto-a às vezes, tão combalida,
tão feiazinha que até faz pena.
     
Duas velhinhas, que bem suponho
quanto não mentem com seus olhares,
mostram-lhe, heroínas, um ar risonho;
mas nada, nada distrai do sonho
seus olhos dela crepusculares.
     
De amor vivendo numa atmosfera,
nas sedas moles deitada, inerme,
tristinha cisma no mal que a espera
quando ouve os beijos da primavera
dar luz ao lírio, calor ao verme.
     
Contam que um dia, vendo uma rosa,
dentro de um copo de cristal fino,
perder o lume da cor viçosa,
em tal desgosto caiu, nervosa,
que pôs a casa num desatino.
      
É que bem sabe que um dia, breve,
do frio outono que se avizinha,
num beijo, a morte, branca de neve,
há-de colhê-la, muito ao de leve,
como o abrir de asas de uma andorinha.
      
E o beijo frio, murmúrio brando,
por-lhe no rosto sossego infindo,
tanto que as velhas piedosas, quando
forem vesti-la, dirão chorando :
«Olhem, parece que se está rindo !
      
Que bem a morte meiguinha a trata,
que tão bonita faz vê-la  à gente !»
E ela, a sorrir.se, feliz e grata...
Caixão de mogno, fechos de prata, 
forros tão lindos do ninho quente !
     
Irá formosa no seu passeio
ao campo imenso do bom repouso.
Tal como os outros, do céu nos veio
o dia curto, do inverno em meio,
do sol mais baço, mais amoroso.
     
           D. João da Camara


     

domingo, junho 28, 2015

VISITAÇÃO

O  vazio em visita verifica
     o Verbo, verbaliza a vulva, voa
     Ave invisível visualizo cego:
     náufrago n'água benta vou à rola
    
     Em plena catedral, em pura perda
     recuperada toda ao imprevisto
     do escopro e do martelo no enigma
     cheio de não ter nada nem voz nula
    
     Somente germinar na terra branca
     como neve purpúrea numa salva 
     misturada com lâminas de barba
    
     Gerar o génio na semente surda
     tal um jorro d'esperma numa alva
     mulher aberta totalmente jarra
      
          António Barahona da Fonseca

quarta-feira, junho 24, 2015

MANHANA DE S. JOAO

Manhana de tanto calor !
Todos os criados vão
Visitar o seu Senhor.
Ai de mim, triste coitado,
Qu'eu estou nesta prisão.
Não sei quando é de dia.
Nem quando nasce o sol.
Se não três passarinhos
Que cantam no alvor.
Uma é a cotovia
Outra é o rouxinol,
Outra é a andorinha
Que é a cor do que reclama melhor.
     
           Recolhida no Planalto da Lombada por Cristina Maria
    Monteiro da Silva, da T.A , nº 19, 1º Ano, no Planalto
    da Lombada em 1985.

quarta-feira, junho 10, 2015

MENTIRA

Mente quem diz que a dor, enfim, esquece
no peito onde caiu uma amargura,
só porque um riso falso de ventura
vem aos lábios do triste que padece.
    
Dizem também que o mal nem sempre dura,
que o tempo tude extingue e desvanece.
Mas há mágoas tão grandes, que parece
que só podem findar na sepultura.
    
Os golpes tão profundos que a Desgraça
rasgou nos corações, por onde passsa,
deixam um sulco doloroso, infindo.
    
E ficamos chorando eternamente.
Mas, se, às vezes, sorrimos, de repente,
só Deus sabe o que estamos encobrindo.
     
                     Espínola de Mendonça

sexta-feira, junho 05, 2015

RAIVA

Saber ter raiva
   Com as palavras que gritam força
  
   Ter raiva
   Com os músculos tensos de pólvora
  
   Raiva
   Com os lábios humedecidos de amor
  
   Raiva
   No jogo igualmente jogado
  
   Saber ter raiva
   Raiva de carinho e ódio
   Nas impressões digitais da vida
  
    Raiva com força
   E raiva com amor
    Jogo igualmente jogado
   No dedilhar da metralha
   No dedilhar da guitarra !
  
                    Tomás Jorge

segunda-feira, junho 01, 2015

JUNHO

Tem magia, tem segredos
À sombra dos carvalhais
Ouvir cantar ranchos ledos
Na ceifa de áureos trigais.
    
E às searas vem colher
Seu abençoado fruto
Contra a fome a oferecer
O mais potente reduto !
     
         F. Pinheiro

sábado, maio 23, 2015

EM VILA VIÇOSA

(À memória de Florbela Espanca)

Senti, sob os meus pés, a terra quente
Que cantaste com zelo arrebatado!
O teu verso foi sempre chama ardente
De um terno coração apaixonado...

Senti, numa ternura comovente,
Que vibravas, uníssona, ao meu lado
Nesse Paço Ducal, sóbrio, imponente,
Que o meu olhar hauria deslumbrado,

Descuidada e feliz segui contigo,
Pelos campos de trigo, já ceifado,
Descansamos depois, pedindo abrigo

Á sombra dum sobreiro ensanguentado...
Numa curva da estrada __ muito branca __,
Tu disseste-me: «Adeus»... Florbela Espanca.
 

        
Lisette Villar de Lucena Tacla

http://pt.wikipedia.org/wiki/Florbela_Espanca

quinta-feira, maio 14, 2015

O SECRETO DESEJO

Um desejo feito de asa
Ou de leve brisa acesa
Entrou-me de noite em casa
E achou minh'alma indefesa.
 
(O secreto desejo
É mais leve que o vento.)
 
Lutaram por longas horas
Até vir a madrugada.
Ao fim dessas longas horas
Minh'alma foi derrotada.
 
(O secreto desejo
É mais ágil que a espada.)
 
Passou a viver em mim,
Fechado como num cofre,
A tentar ser ele o fim
Pelo qual minh'alma sofre.
 
(O secreto desejo
É mais forte que a morte.)
  
               Luís de Macedo

domingo, maio 03, 2015

DÍVIDA DE AMOR

Se me fosse possível comparar
O amor que recebi com o que dei,
Veria certamente __ eu bem o sei __
Que se hão-de as duas partes compensar.
    
Não que tivesse a dita de lograr
Sempre, um amor igual, dos que eu amei;
Mas também, compensando, __ justa lei !__
Nem sempre o alheio amor pude igualar.
     
Uma dívida só tenho impagável
A qual é para mim o maior bem,
Dívida infinda, enorme, inigualável ;
     
Pois nunca poderei dar a ninguém
Um afeto que seja comparável
A' quele amor que eu devo a minha mãe !
     
          J. C. Mendes Júnior

segunda-feira, abril 20, 2015

MANOS

     Manos, interjecciones en el dia,
punzón de la palabra, roedoras
del cadáver del viento, exploradoras
de su mansión de alada geometría.
    
    Manos palpantes,, que en la sombra fría,
a seno, mármol, flor doráis las horas,
evocando a otra luz, desveladoras,
la atónita belleza, que dormía.
    
     Manos que a pleno sol vais nocherniegas,
garzas entre la bruma del instinto,
frenesi de expresar lo zabareño.
    
    Manos, tristes de tacto; lindes ciegas
de nuestro melancólico recinto.
!Oh torpes manos, límites del sueño!
    
                Dámaso Alonso
                   1898 - 1990

terça-feira, abril 14, 2015

SONETO

Feliz esse mortal que se contenta
Com a herdade dos seus antepassados,
que, livre do tumulto e de cuidados,
Só do pão que semeia se alimenta.

De entre os filhos amados afuguenta
A discórdia cruel; vê dos seus gados,
Sempre gordos, alegres, bem tratados,
Numeroso rebanho que apascenta.

O trono mais dotoso é comparável
Ao brando estado deste, que não sente
De um ceptro de ouro o peso formidável?

O que vive na corte mais contente
Provou nunca um prazer tão agradável
Como o deste pastor pobre, inocente?

Marquesa da Alorna
(1750-1839)

sábado, abril 11, 2015

REGRESSO

Minha aldeia, voltei! Avé Marias...
Teu crepúsculo de oiro até parece
que me canta , e me embala, e me adormece,
a florir a amargura dos meus dias...

Como a urze das tuas serranias,
poeta aqui nasci, sem que o soubesse...
E aqui __ visão de estrelas e de prece __
vi meu primeiro amor, quando me vias!

Minha aldeia, voltei! __ Anoiteceu...
Sobre o meu coração, como num ninho,
estendes a asa d'oiro do teu céu...

E ele dorme e sorri __ o abandonado! __
como dorme e sorri um passarinho,
sob a asa da mãe agasalhado...


Bernardo de Passos