sábado, julho 04, 2015

A CASA DO CORAÇÃO

O coração tem dois quartos:
Moram ali, sem se ver.
Num a DOR, noutro o PRAZER.
      
Quando o PRAZER no seu quarto
Acorda cheio de ardor,
No seu, adormece a DOR...
     
Cuidado, PRAZER !  Cautela,
Canta e ri mais devagar...
Não vá a DOR acordar...
      
         Antero de Quental 

quinta-feira, julho 02, 2015

AS DUAS AVES

Porque, dizem, uma ave, em a cegando,
Canta mais e melhor,
A um rouxinol os olhos foi tirando
Cacilda, sem horror.

E a voz da ave foi, depois subindo
Em sentimento... oh ! sim...
Quanto mais cego mais e vai sentindo...
Sei-o também por mim...

De Campoamor

quarta-feira, julho 01, 2015

FLOR DE ESTUFA

Em tardes mansas, pela Avenida,
onde a carruagem roda serena,
pela vidraça toda corrida,
avisto-a às vezes, tão combalida,
tão feiazinha que até faz pena.
     
Duas velhinhas, que bem suponho
quanto não mentem com seus olhares,
mostram-lhe, heroínas, um ar risonho;
mas nada, nada distrai do sonho
seus olhos dela crepusculares.
     
De amor vivendo numa atmosfera,
nas sedas moles deitada, inerme,
tristinha cisma no mal que a espera
quando ouve os beijos da primavera
dar luz ao lírio, calor ao verme.
     
Contam que um dia, vendo uma rosa,
dentro de um copo de cristal fino,
perder o lume da cor viçosa,
em tal desgosto caiu, nervosa,
que pôs a casa num desatino.
      
É que bem sabe que um dia, breve,
do frio outono que se avizinha,
num beijo, a morte, branca de neve,
há-de colhê-la, muito ao de leve,
como o abrir de asas de uma andorinha.
      
E o beijo frio, murmúrio brando,
por-lhe no rosto sossego infindo,
tanto que as velhas piedosas, quando
forem vesti-la, dirão chorando :
«Olhem, parece que se está rindo !
      
Que bem a morte meiguinha a trata,
que tão bonita faz vê-la  à gente !»
E ela, a sorrir.se, feliz e grata...
Caixão de mogno, fechos de prata, 
forros tão lindos do ninho quente !
     
Irá formosa no seu passeio
ao campo imenso do bom repouso.
Tal como os outros, do céu nos veio
o dia curto, do inverno em meio,
do sol mais baço, mais amoroso.
     
           D. João da Camara


     

domingo, junho 28, 2015

VISITAÇÃO

O  vazio em visita verifica
     o Verbo, verbaliza a vulva, voa
     Ave invisível visualizo cego:
     náufrago n'água benta vou à rola
    
     Em plena catedral, em pura perda
     recuperada toda ao imprevisto
     do escopro e do martelo no enigma
     cheio de não ter nada nem voz nula
    
     Somente germinar na terra branca
     como neve purpúrea numa salva 
     misturada com lâminas de barba
    
     Gerar o génio na semente surda
     tal um jorro d'esperma numa alva
     mulher aberta totalmente jarra
      
          António Barahona da Fonseca

quarta-feira, junho 24, 2015

MANHANA DE S. JOAO

Manhana de tanto calor !
Todos os criados vão
Visitar o seu Senhor.
Ai de mim, triste coitado,
Qu'eu estou nesta prisão.
Não sei quando é de dia.
Nem quando nasce o sol.
Se não três passarinhos
Que cantam no alvor.
Uma é a cotovia
Outra é o rouxinol,
Outra é a andorinha
Que é a cor do que reclama melhor.
     
           Recolhida no Planalto da Lombada por Cristina Maria
    Monteiro da Silva, da T.A , nº 19, 1º Ano, no Planalto
    da Lombada em 1985.

quarta-feira, junho 10, 2015

MENTIRA

Mente quem diz que a dor, enfim, esquece
no peito onde caiu uma amargura,
só porque um riso falso de ventura
vem aos lábios do triste que padece.
    
Dizem também que o mal nem sempre dura,
que o tempo tude extingue e desvanece.
Mas há mágoas tão grandes, que parece
que só podem findar na sepultura.
    
Os golpes tão profundos que a Desgraça
rasgou nos corações, por onde passsa,
deixam um sulco doloroso, infindo.
    
E ficamos chorando eternamente.
Mas, se, às vezes, sorrimos, de repente,
só Deus sabe o que estamos encobrindo.
     
                     Espínola de Mendonça

sexta-feira, junho 05, 2015

RAIVA

Saber ter raiva
   Com as palavras que gritam força
  
   Ter raiva
   Com os músculos tensos de pólvora
  
   Raiva
   Com os lábios humedecidos de amor
  
   Raiva
   No jogo igualmente jogado
  
   Saber ter raiva
   Raiva de carinho e ódio
   Nas impressões digitais da vida
  
    Raiva com força
   E raiva com amor
    Jogo igualmente jogado
   No dedilhar da metralha
   No dedilhar da guitarra !
  
                    Tomás Jorge

segunda-feira, junho 01, 2015

JUNHO

Tem magia, tem segredos
À sombra dos carvalhais
Ouvir cantar ranchos ledos
Na ceifa de áureos trigais.
    
E às searas vem colher
Seu abençoado fruto
Contra a fome a oferecer
O mais potente reduto !
     
         F. Pinheiro

sábado, maio 23, 2015

EM VILA VIÇOSA

(À memória de Florbela Espanca)

Senti, sob os meus pés, a terra quente
Que cantaste com zelo arrebatado!
O teu verso foi sempre chama ardente
De um terno coração apaixonado...

Senti, numa ternura comovente,
Que vibravas, uníssona, ao meu lado
Nesse Paço Ducal, sóbrio, imponente,
Que o meu olhar hauria deslumbrado,

Descuidada e feliz segui contigo,
Pelos campos de trigo, já ceifado,
Descansamos depois, pedindo abrigo

Á sombra dum sobreiro ensanguentado...
Numa curva da estrada __ muito branca __,
Tu disseste-me: «Adeus»... Florbela Espanca.
 

        
Lisette Villar de Lucena Tacla

http://pt.wikipedia.org/wiki/Florbela_Espanca

quinta-feira, maio 14, 2015

O SECRETO DESEJO

Um desejo feito de asa
Ou de leve brisa acesa
Entrou-me de noite em casa
E achou minh'alma indefesa.
 
(O secreto desejo
É mais leve que o vento.)
 
Lutaram por longas horas
Até vir a madrugada.
Ao fim dessas longas horas
Minh'alma foi derrotada.
 
(O secreto desejo
É mais ágil que a espada.)
 
Passou a viver em mim,
Fechado como num cofre,
A tentar ser ele o fim
Pelo qual minh'alma sofre.
 
(O secreto desejo
É mais forte que a morte.)
  
               Luís de Macedo

domingo, maio 03, 2015

DÍVIDA DE AMOR

Se me fosse possível comparar
O amor que recebi com o que dei,
Veria certamente __ eu bem o sei __
Que se hão-de as duas partes compensar.
    
Não que tivesse a dita de lograr
Sempre, um amor igual, dos que eu amei;
Mas também, compensando, __ justa lei !__
Nem sempre o alheio amor pude igualar.
     
Uma dívida só tenho impagável
A qual é para mim o maior bem,
Dívida infinda, enorme, inigualável ;
     
Pois nunca poderei dar a ninguém
Um afeto que seja comparável
A' quele amor que eu devo a minha mãe !
     
          J. C. Mendes Júnior

segunda-feira, abril 20, 2015

MANOS

     Manos, interjecciones en el dia,
punzón de la palabra, roedoras
del cadáver del viento, exploradoras
de su mansión de alada geometría.
    
    Manos palpantes,, que en la sombra fría,
a seno, mármol, flor doráis las horas,
evocando a otra luz, desveladoras,
la atónita belleza, que dormía.
    
     Manos que a pleno sol vais nocherniegas,
garzas entre la bruma del instinto,
frenesi de expresar lo zabareño.
    
    Manos, tristes de tacto; lindes ciegas
de nuestro melancólico recinto.
!Oh torpes manos, límites del sueño!
    
                Dámaso Alonso
                   1898 - 1990

terça-feira, abril 14, 2015

SONETO

Feliz esse mortal que se contenta
Com a herdade dos seus antepassados,
que, livre do tumulto e de cuidados,
Só do pão que semeia se alimenta.

De entre os filhos amados afuguenta
A discórdia cruel; vê dos seus gados,
Sempre gordos, alegres, bem tratados,
Numeroso rebanho que apascenta.

O trono mais dotoso é comparável
Ao brando estado deste, que não sente
De um ceptro de ouro o peso formidável?

O que vive na corte mais contente
Provou nunca um prazer tão agradável
Como o deste pastor pobre, inocente?

Marquesa da Alorna
(1750-1839)

sábado, abril 11, 2015

REGRESSO

Minha aldeia, voltei! Avé Marias...
Teu crepúsculo de oiro até parece
que me canta , e me embala, e me adormece,
a florir a amargura dos meus dias...

Como a urze das tuas serranias,
poeta aqui nasci, sem que o soubesse...
E aqui __ visão de estrelas e de prece __
vi meu primeiro amor, quando me vias!

Minha aldeia, voltei! __ Anoiteceu...
Sobre o meu coração, como num ninho,
estendes a asa d'oiro do teu céu...

E ele dorme e sorri __ o abandonado! __
como dorme e sorri um passarinho,
sob a asa da mãe agasalhado...


Bernardo de Passos

sexta-feira, abril 03, 2015

EDUARDO WHITE

          No pensamento quardamos o íntimo ofício de observar. O coração bombeia, os pulmões respiram, trabalha o sangue para criar toda essa grande alquimia. As cores nas pupilas, as formas sob os dedos, os leves, os acidulados, os delicados perfumes que se inspira e também a música que de tão quieta se pode ouvi-la e o amor na língua, e o amor, tremente e fulminado  que fala e cria, e no fundo, ainda, toda a magnânima magia que é pensar.
    
          Olho uma pedra. E penso.
          Na dura estrutura de pedra
          uma funda bradeja de ironia. Espera.
          Anseia paciente aquele corpo deitado na sua bacia,
          concebe o arremesso,
          o movimento que mesmo parada
          a pedra anuncia.
         
          Toca-a. Podes vê-la e pô-la na mão.
          Não a armes para que fira.
         Uma pedra não merece essa bélica intenção.
          Levanta-a como um dardo
          para que veja a distância que a extasia,
          o seu porto terrestre.
          Depois atira-a,
          dá-lhe a virtude de crescer para outros lugares,
          a sua paixão celeste, a sua vocação para cantar,
          deixa a pedra correr na sua alegria,
          na sua comprovada dureza.
          
          Repara.
          A pedra vai alta,
          gargalha pelos espaços,
          respira, turbilha,
          e sentirás que antes mesmo de tocar o chão
          a pedra agradece-te
          sendo tu que voaste.
          
                                      Eduardo White

domingo, março 29, 2015

ILUSÕES

Ilusões!...
Sonhos que a alma sonhou,
Quimeras que Deus nos deu,
Sonhos que a vida teceu...
...Que a morte feroz levou!...


Ilusões!...
Estrelas que o espaço riscaram,
Róseas manhãs perfumadas,
Imagens volatizadas
Que nem rasto nos deixaram...


Ilusões!...
Esperança tantas vezes morta...
Melodias imperfeitas,
Vagas na praia desfeitas...
...Fogo que aquece... conforta.

António Luís Roldão

sábado, março 28, 2015

SONETO


No me mueve, mi Dios, para quererte*
el cielo que me tienes prometido,
ni me mueve el infierno tan temido
para dejar por eso de ofenderte.

Tú me mueves, Señor, muéveme el verte
clavado en una cruz y escarnecido,
muéveme ver tu cuerpo tan herido,
muévenme tus afrentas y tu muerte.
.
Muéveme, en fin, tu amor, y en tal manera,
que aunque no hubiera cielo, yo te amara,
y aunque no hubiera infierno, te temiera..

No me tienes que dar porque te quiera,
pues aunque lo que espero no esperara,
lo mismo que te quiero te quisiera.

.Anónimo

quarta-feira, março 25, 2015

APÓLOGO DA MORTE

Vi eu um dia a Morte andar folgando
Por um campo de vivos, que a não viam.
Os velhos, sem saber o que faziam
A cada passo nela iam topando.
     
Na mocidade os moços confiando,
Ignorantes da morte, a não temiam.
Todos cegos, nenhuns se lhe desviam;
Ela a todos c’o dedo os vai contando.
      
Então, quis disparar, e os olhos cerra:
Tirou, e errou! Eu, vendo seus empregos
Tão sem ordem, bradei: Tem-te, homicida!
     
Voltou-se, e respondeu; Tal vai de guerra!
Se vós todos andais comigo cegos,
Que esperais que convosco ande advertida?
     
     D. Francisco Manuel de Melo (1608-1666)

quinta-feira, março 19, 2015

O MAL

O meu avô octogenário, já tremente
(um velho é fruto seco, bem cristalizado),
o meu avô, que é cego e enxerga mais que a gente,
disse-me, há dias, estas cousas, a meu lado:
      
_«Nascem as árvores direitas, geralmente,
como o Bem nasce vertical, e cresce e espiga;
_mas o cipó, que nasce torto, impertinente,
logo as enlaça, e tudo entorta e tudo intriga.
     
Sobe, neto, ao farol do mar da Vida, e espreita
do alto gradil do Pundonor que dá conforto:
_quem nasce torto, tarde ou nunca se endireita;
     
corta a raíz do mal (que é tortuoso), corta;
olha que um pau, lançado ao fogo, quando é torto,
até a chama é torta,  até a cinza... é torta.»
     
                 José Marques da Cruz

terça-feira, março 17, 2015

QUE SOMBRA

Que sombra eu sou
Que a todos apetece
Sugar, esconder, esquecer e denegrir ?
Os passos que me pisam
E ressoam
Há mil anos ecoam
As vozes de negar
E de trair.
Que sombra eu sou
Que ensombra toda a gente,
Os amigos, os mortos,
A família.
E aquela imensa estrada
Semovente
De líquida vigília,
De livre continente,
Destino meu, alheio e não presente ?
             Natércia Freire

domingo, março 15, 2015

SONETO

Quem te não teve, instante venturoso,
Entre nuvens cortado de fugida,
Por um límpido raio luminoso,
Que para sempre lhe doirou a Vida!

Deve ser cruelmente desditoso,
Quem n'alma não tiver a imagem querida
De alguém, de um simples sonho vaporoso,
Que a existência lhe torne apetecida!

Divino encanto, que jamais esquece,
Quem te não teve? Lastimosa e escura,
A alma triste, que te não conhece,

E a quem foi recusada tal ventura!
Ai, daquele, a quem nunca, em vida, desce
Em sonhos, a visão da formosura!


Fernandes Costa

quarta-feira, março 11, 2015

ROMANCE DAS MULHERES ....

ROMANCE DAS MULHERES DE LISBOA,
NO REGRESSO DAS PRAIAS
.
Em terra, tantas gaivotas
Mas cedo que anoitece
De automóveis sem capota,
como de conchas abertas,
saís vós, as pressurosas
deusas nos meses de estio,
favoritas do lodo
e dos cavalos marinhos,
tontas cortesãs do Sol
que de bronze vos vestiu...
Em terra, tantas gaivotas
Vultos, sombras, calafrios...
O que fostes não mais volta:
é dif'rente cada estio...
'Státuas de sal e de Sol,
o molde ficou perdido
nas areias e nas rochas,
todo cuspido de limos,
ou roído, à luz do ódio,
pelos cavalos marinhos...
O que fostes já não volta,
ó efémeras Anfitrites
[Para quantas, dentre vós,
foi este o último estio?]
.
Já no Mar os hipocampos
comem ciúme e silêncio;
amotinados, em bandos,
bebem da Lua o veneno;
e preparam, conspirando,
o grande levantamento
_oh, vagas turbilhonantes_
do equinócio de Setembro
E, na cidade, entretanto,
passais vós, éguas, que o vento
já não emprenha, mas lança
às campinas do desprezo
Éreis 'státuas de sal
e do Sol, mas não soubestes
oiro e espuma eternizar.
Ai que cedo que anoitece
Das sombras do litoral,
uma galopada investe
para vos arrebatar
Rompem num choro as sereias
dos barcos supliciados.
Em vão cerrais as orelhas
dos brados que o temporal
contra vós desencadeia
.
Em terra, tantas gaivotas
Oh, que cedo que anoitece
De comboio e ferry-boats,
como de estranhas galeras,
_ressurgis para os encontros,
os funerais e o comércio;
para estreias e vestidos;
para os quartos de aluguer,
_e outros fornos onde, a frio,
ardereis, míseros restos,
até ficar derretido
todo esse bronze d'empréstimo
.
David Mourão Ferreira

domingo, março 08, 2015

8 DE MARÇO

quarta-feira, março 04, 2015

FICA COMIGO ESTA NOITE

Fica comigo esta noite
E não te arrependerás.
Lá fora o frio é um açoite;
Calor aqui tu terás.
Terás meus beijos de amor,
Minhas carícias terás;
Fica comigo esta noite
E não te arrependerás.
Quero em teus braços, querida,
Adormecer e sonhar;
Esquecer que nos deixamos
Sem nos querermos deixar...
Tu ouvirás o que eu digo;
Eu ouvirei o que dizes.
Fica comigo esta noite
E então seremos felizes.
Nelson Gonçalves 
https://www.youtube.com/watch?v=3X1EgYDhdq0

http://pt.wikipedia.org/wiki/N%C3%A9lson_Gon%C3%A7alves

segunda-feira, março 02, 2015

TUDO SE GASTA

Nós vestimos de sonho
    Embelezamos com flores
                     Tanta sucata !
    
    Mas a ilusão
   Também se gasta
                        Sensação de ouro e prata
                        De repente
                                     Lata
 
                            Tomás Jorge

segunda-feira, fevereiro 23, 2015

MUSA DAS SOGRAS

NO   DOMINGO
     
A casa do compadre é muito sossegada
Nos dias de trabalho. Ali tudo é tranquilo,
De rusgas nem sequer o minimo sibilo,
Doce mansão de paz, esplendida morada.
     
Que família exemplar estando só !  Notada
É tanta mansidão. De vida bom estilo.
A harmonia não pode achar melhor asilo
Do que no seu seio; mas n'este mundo em nada
     
Pode haver perfeição, pois n'esse domicílio,
Onde a amizade canta fraternal idílio,
No domingo há motins, de paz sem intervalo,
     
Gritaria infernal, horrisona peleja
O compadre, nervoso e ríspido, esbraveja
Por ser dia em que vai a sogra visitá-lo.
     
Julio Camisão

sábado, fevereiro 14, 2015

SONETO

Não sei se por meu bem ou meu tormento
Te vejo e te procuro. Se a toada
Da tua voz escuto , que ignorada
Sensação é aquela que experimento ?
     
Sei apenas que a dor, o desalento
D'esta vida tão triste e tão cansada
Vejo fugir n'um rápido momento
Pelo sol d'uma esperança, acalentada.
     
Caiam bençãos do céu no teu caminho,
Deus te pague, meu Bem, todo o carinho
Do teu bondoso olhar tão lindo e brando.
      
Para mim eu só peço esta ventura,
Esta suave e tímida amargura
De te ver, meu amor, de quando em quando.
       
                             Domítilia de Carvalho

terça-feira, fevereiro 03, 2015

LUTA ROMANA

A luta começou. Grandes rumores
Na platéia. Assobios e protestos,
Rugidos, urros, desaforos, gestos,
Circundam ferozmente os contendores.
     
Rolam por terra, em sangue, os lutadores,
Aos bofetões brutais e desonestos.
Afinal um dos adversários lestos,
O outro domina. Estrépito !  Clamores !
     
Vai para casa o vencedor radiante.
E irrita a sogra, uma mulher severa,
Mas de cabeça amalucada e oca.
     
Atracam-se. (Este mundo é interessante),
O lutador que um lutador vencera,
Da sogra apanha até o céu da boca.
      
                   Horácio Campos

domingo, fevereiro 01, 2015

CANTO DA INOCÊNCIA

Vi o Caseiro erguer-se contra as sombras
das ovelhas atrozes que giravam
presas num olhal de ferro. Antes
de entrar no espaço da cidade
soube que as Ménades conduziam
o gado perverso que os deuses
haviam escolhido para símbolo.
Ovelhas que eram vítimas e carrascos
das nossas sombras crescentes, quando a tarde
escurecida, e o homem e a criança
redimiam em si a inocência.
     
Eu não sabia nada: só via os três
vultos enormes condenados ao círculo
da corda tensa, e no fim de tarde
cada forma inane jazia à espera.
O sentido da inocência só o soube
mais tarde na cidade, e então amei
o lugar-comum rural da minha vida,
escrita depois dos bíblicos pastores do Hebron
e dos idílicos da Idade Clássica.
      
         Fiama Hasse Pais Brandão

 

quinta-feira, janeiro 29, 2015

BARCAROLA

A voz da água não ouço
Sem que me lembre um soluço
Águas do lago, do poço,
Dos rios em alvoroço,
Quando nelas me debruço.

Ando sozinho entre as velas
E os barcos de proas largas
Ora azuis, ora amarelas.
Mar de estranhas aguarelas,
Mar de lágrimas amargas.

Nesta viagem comprida
Não sei que vento embalou
A minha barca perdida.
Nem saiba eu nunca na vida
De onde venho, aonde vou !


Cabral do Nascimento