quinta-feira, Abril 10, 2014

TERRA DO MEU ORGULHO

Mar largo. O vento canta. O navio estremece.
A alma de Frei Gonçalo erra sobre este mar...
Sírios, na proa, ao alto, o roteiro esclarece.
Brilha Vénus à ré. Começa a dealbar.

Sinto na boca impura o aroma duma prece.
O coração, ansioso, é um sino a repicar...
Céu e mar são um templo azul, que resplandece!
_De joelhos: São Miguel surge em seu verde altar!

Ó terra de meus pais! Arca do meu afecto...
Mais linda das que eu vi, de olhar saudoso e inquieto,
Buscando-te rival entre os jardins do mundo...

Terra do meu orgulho, e último bem que espero!
Mãe de Bento Góis e mãe de Santo Antero...
_Beijo, a alma de rojo, o teu ventre fecundo!
Raposo de Oliveira

domingo, Abril 06, 2014

EPÍLOGO

Este mar, este sol, este perplexo
     Olhar de um gato, este sabor de sal,
     Esta folha da Bíblia, este vitral
     De um templo de Bizâncio, este complexo
    
     Teorema, tudo isto é já um reflexo
     Crepuscular do mundo e do final
     Do cordeiro na cova do chacal,
     Do Espírito castrado pelo sexo.
    
     O que era belo é morto. E, entre monturos,
     Vagam hienas. Vespas zumbem juros,
     De uma csterna o homem mede estrelas.
    
     Sobe uma ogiva à lua. E uma pomba
     Desce do céu e traz no bico a Bomba.
     Uiva em vestais o cio das cadelas.
    
          Domingos Carvalho da Silva

sábado, Abril 05, 2014

EUGÉNIA LIMA

http://www.omirante.pt/noticia.asp?idEdicao=54&id=71363&idSeccao=479&Action=noticia#.U0BlraLtAkE


 http://www.oribatejo.pt/2014/04/05/morreu-a-acordeonista-eugenia-lima/


 https://www.youtube.com/watch?v=ycnBqdRk6k4

terça-feira, Abril 01, 2014

CAIR DO ALTO

E ficou com as mãos pousadas no teclado,
Esquecida, a cismar num mundo de riqueza:
Supunha-se num baile; um conde apaixonado
Segredava-lhe: "Adoro-a!... Eu mato-me, marquesa!..."

Ah! se fosse fidalga!... Ao menos baronesa...
Que baile! que esplendor na noite de noivado!...
Estremeceu, nervosa, achou-se na pobreza,
E o piano soltou um grito arrepiado.

Absorvida outra vez, prendeu-se-lhe o sentido
A mesma ideia __ o luxo. Ia comprar cautelas...
E imaginou de novo o conde enfurecido...

Um palácio, um coupé, esplêndidos cavalos...
Nisto o marido entrou, de óculos e chinelas,
E miou com ternura: "Anda aparar-me os calos."
Garcia Monteiro
1859 - 1913

domingo, Março 23, 2014

SONETO

Quem no mundo não tem uma ilusão,
Quem a terra não sente estremecer,
E nas fragas bater um coração,
Quem nas fontes só água vê correr,
    
Terá uma vida calma, sem acção,
Qual onda sem desejo de crescer;
Qual estrela sòmente escuridão,
Que nenhuns olhos tristes podem ver.
    
Eu quero as tempestades do oceano,
Sentir, no peito, o fogo lusitano;
A dor da vida, em mim, quero sentir!
    
Quero a branda tristeza na alegria,
No sol nascente a definhar do dia,
Na sombra escura, a luz que há-de surgir!
 
        Maria de Carvalho

sábado, Março 08, 2014

ELOGIO DA VIRGINDADE

Não, não é uma jóia pela qual se paga.
É só a primeira vez de alguma coisa enorme
que envolve o prazer e não envolve o prazer
porque a ciência do prazer é ela mesmo prazerosa.
Também não é a marca sem a qual tudo perde
a legitimidade e o valor consequente.
Não é nada melhor nem pior do que nada.
 
Mas é um minuto, o minuto antes de,
quando a gente está vivo e frui a vida
e ainda não sabe o quanto ela se guarda.
 
Não ignoro o relativo resistir de uma membrana
e todo o lado trágico que isso trouxe à História.
Não ignoro o perigo de supervalorizáa-la;
mas ressalto o perigo de não lhe dar valor nenhum.
Antes você não sabia de nada, você só sabia
que havia alguma coisa que você quase ignorava.
Agora houve uma dor perfeitamente suportável
e um pequeno prazer perfeitamente suportável.
O melhor vem depois. Mas isto, a descoberta,
a promessa de novas e infinitas angústias,
o começo de um caminho que findará na morte,
isso, meu bem, não dá pra perder calmamente
no banco posterior de um automóvel.
 
Renata Pallottini

sexta-feira, Fevereiro 21, 2014

ERA UMA TARDE...

Era uma tarde
De vento agreste e de inclementes chuvas.
À porta do palácio, a multidão
De aleijadinhos, orfãos e viúvas,
Mal coberta de andrajos, a tremer,
Pedia pão...

Quem havia de, entretanto, aparecer ?
Vinha Isabel com uma abada de ouro,
Um deslumbrante e autêntico tesouro,
E ia já dá-lo aos pobrezinhos, quando
El-Rei lhe tolhe o passo...
__Que trazeis vós, Senhora, no regaço ?__
Pergunta D. dinis. Ela corando,
Responde-lhe: __São rosas, meu Senhor...
__Rosas no Inverno ? Não será engano ?...
__É que estas rosas são de todo o ano, __
Diz a Rainha então,
__São rosas de piedade e de perdão,
Rosas de luz,
Rosas de amor,
Duma roseira que plantou Jesus...__
E, desdobrando o seu brial de seda,
Mostrou-lhas, a sorrir...
Cada moeda
Se transformara, por milagre, em flor...
E, frescas, orvalhadas e viçosas,
Aos pés de El-Rei cai um montão de rosas...

Pelo ar derramou-se um tal aroma
Tão doce e tão fragrante,
Como se alguém tivera nesse instante
Quebrado uma redoma
De bálsamos celestes...

    
 Cândido Guerreiro

segunda-feira, Fevereiro 17, 2014

O RELÓGIO

Corda, ponteiros, numeros, _ e tanta
Coisa lá dentro !  Finas rodas de aço !
Ao seu comando, débil de cansaço,
Ora a gente se deita, ora levanta.
    
A voz do tempo !  Sossegada canta
Imperturbável, dominando o espaço.
Nova manhã desperta no regaço
Da noite, como surge a flor na planta. 
    
O Passado, o Presente sempre iguais !
O mesmo giro sempre, sempre... Aquela
Pontualidade que não pára mais !
    
Já não te ouço sequer !  Nem sinto o mundo !
Vai-se-me a vida sem eu dar por ela ...
Um segundo... um segundo... outro segundo...
              Cabral do Nascimento

quinta-feira, Fevereiro 13, 2014

AZULEJOS

Asume el aire
su vocación perdida
la densidad
abierta de tus manos
cuando en la tarde llueve.
    
Entre tu nombre
y el mío hay un lugar
donde no falta
la luz, la arquitectura
que nace de tu sombra.
    
Irrepetible,
sorprendida en su vuelo
tu otra imagen.
La certeza del pájaro
te acoge en su huida.
    
Ojos furtivos
(azules) de mujer
pueblan la casa.
Una mirada incendia
las paredes del cuarto.
    
Última escena:
(lejos) tu voz desnuda
es un lenguaje
cifrado en lo más liso
del agua, en lo más hondo.
Àngel Campos Pámpano

segunda-feira, Fevereiro 10, 2014

SENTENÇAS

Ai de quem ria e não tente
Sair da sua alegria !
É destino da serpente,
Do verme que anda contente
Sem procurar ver o dia.
    
Dura a vida enquanto dura
O bater do coração.
Semeia, moço a ventura
Que essa mesma, com fartura
Colherás com tua mão.
    
Semear _ verbo que encerra
O dever de toda a gente !
Há sempre um canto de terra
Quer no vale, quer na serra
Adonde caiba a semente...
    
Ouve o Amor _ o que ele diz
_ Seja a tua companheira
A abençoada raiz
Do teu lar que é o teu país:
_ Faz do Amor tua fronteira !
    
Planta mais, se já plantaste,
Desde novo até velhinho;
Quando nasceste encontraste
Tanta fruta em tanta haste,
Tanta sombra em teu caminho !
    
Cala a voz do sentimento
Quando não for de bonança,
Palavras leva-as o vento,
Mas volta a todo o momento
Seu eco à nossa lembrança.
    
Toda a ventura é singela
Navega no mar do Mundo !
Navega !  Olha o barco à vela
A deslizar na água bela...
E o mar alto não tem fundo !
    
És como a barca esquecida :
Ditoso, porque não sondas.
Se é profundo o mar da vida
E a altura desconhecida
Que anda por baixo das ondas !
    
   Pedro Homem de Melo
          1904 - 1964

sábado, Fevereiro 08, 2014

REFLEXÃO

Quanto mais me interrogo, dou comigo
A negar a resposta ao que pergunto.
No pouco da verdade que persigo
O pouco é quase muito.
    
No instante em que resumo a vida inteira
Vejo com mágoa a terra semeada:
No tudo que colhi da sementeira
O tudo é quase nada.
    
Se me lanço no mar, bebo coragem
No turbilhão de espuma: não rejeito
A minha condição de ser a imagem
Do náufrago perfeito.
    
E por isso resisto às ondas bravas:
Não é branca a bandeira que eu agito.
No silêncio da noite sem palavras
O silêncio é um grito.
    
É som que me magoa e me deslumbra:
Tinge de esperança a noite enegrecida.
Na morte que cintila na penumbra
A morte é quase vida.
    
                Fernando Vieira

sábado, Fevereiro 01, 2014

RAISON D'ETRE

Des pierres claires, monde en moi, et la lance vert
De l'attente _ à l'Etre je rendrai un compte plus sûr
Que de tout ce qu'a tissé l'espérance
Dans le verbe qui de l'esprit  éclôt.
    
Sans repos aucun, pas même avec moi
Dans les liens nécessaires de la cobérence,
Mais seulement poète par châtiment,
Avec un coup de folie et d'innocence.
    
Je connus ceux qui prennent pour concret
Amour absurde, astre de voix fait,
Comme on fait à la main, utile, l'objet:
Et je sais que ceux-là payèrent songe  et os
Pour que, à l'épaule, soit bien tourné
Le viable sensé qui dit  "notre".
    
Ile de feu au loin, anneaux que je suis
D'irréversible fer enchaîné
(Le fils, le père, la vie passée) _ et je vais
Tel que je suis venu, du destin étranger..
    
Jusqu'à ce que, par poussées et en commencement
De forme dans la parole que je tire de moi,
Je sois ce que je suis maintenant quand j'offre
Ma raison d'etre dans ce que je délire. .
     
      Vitorino Nemésio
         1901 _ 1978

terça-feira, Janeiro 28, 2014

GUILHERME DE AZEVEDO

DIZE !

Dize se quando a meiga lua adoras
Nas brandas noutes d'inspirado sonho,
Não sentes n'alma n'essas breves horas
Que os anjos buscão teu olhar risonho ?

Dize se quando a perfumada aragem
Perpassa leve pelo teu cabello,
Não sentes n'alma que uma doce imagem
Em ti se inspire de mais puro anhelo !

Depois em sonhos, palpitante o seio
Sonhos de rosas, de mais linda flor,
Dize se ainda nesse doce enleio
N'umm céu não vives d'inspirado amor !

Dize se ainda quando o mar suspira,
E tu vagueias na extensão da praia,
Os sons não sentes d'amorosa lyra,
Na mansa vaga, que a teus pés desmaia ?

Se a estrella fitas nos umbraes divinos,
Candida pomba, que aspiras aos céus,
Tua alma presa d'inspirados hynmos
Dize se sentes elevar-se a Deus ?

Dize se sentes o que o lyrio fala
Quando te inveja o divinal palor ?
Dize se ao fogo que de ti se exhala
Tudo na vida te não diz _ amor ? _

Guilherme de Azevedo

Correio do Ribatejo nº 5158, de 23/02/1990, pag. 19

sábado, Janeiro 18, 2014

CANÇÃO AMARGA

Cavalo alado, perdido
em labirintos de estrelas:
longos caminhos de espanto,
desnudos aos quatro ventos,
fome de pura volúpia,
sede de bruma e silêncio.
Entre meus dedos trançados,
floriu o hibisco vermelho;
por ele troquei a flor
amarga do limoeiro,
olor de terra molhada,
aromas castos de feno;
deixei a saia rodada
pela túnica de efebo,
cravei agudo pinhal
na raiz do meu desejo __
por um amor desumano,
Sem razão, sem fim, nem sexo.

   Maria Manuela Couto Viana

quinta-feira, Janeiro 09, 2014

SONETO

Esperança e desespero de alimento
Me servem neste dia em que te espero
E já não sei se quero ou se não quero
Tão longe de razões é meu tormento.
     
Mas como usar amor de entendimento?
Daquilo que te peço desespero
Ainda que mo dês _ pois o que eu quero
Ninguém o dá senão por um momento.
     
Mas como és belo, amor, de não durares,
De ser tão breve e fundo o teu engano,
E de eu te possuir sem tu te dares.
     
Amor perfeito dado a um ser humano:
Também morre o florir de mil pomares
E se quebram as ondas no oceano.
     
        Sophia de Mello Breyner Andresen


sábado, Janeiro 04, 2014

SONETO A ORFEU II

ASSIM como ao mestre a folha às vezes
à pressa mais à mão arranca o traço
verdadeiro: assim muitas vezes espelhos tomam
em si o sorriso santo e único das virgens,
      
quando elas, a sós, poem a manhã à prova,
ou no esplendor das luzes serviçais.
E no respirar das faces autênticas
mais tarde, cai um reflexo apenas.
     
O que não viram olhos no longo amortecer
fuliginoso do fogo das chaminés !:
olhares da vida, perdidos para sempre.
     
Ai! da Terra quem conhece as perdas?
Só quem em tom contudo de louvor
cantasse o coração, nascido para o Todo.
     
                       (Série II, nº II,)

                 RAINER MARIA RILKE

quarta-feira, Dezembro 25, 2013

NATAL

Enquanto a chuva
Escorrer da minha vidraça
E furar o telhado
Daquele farrapo de homem que além passa
Enquanto o pão
Não entrar com a Justiça
Lado a lado
Mão a mão
Nem Jesus vem
Andar pelos caminhos onde os outros vão
Um dia
Quando for Natal
(E já não for Dezembro)
E o mundo for o espaço
Onde cabe
Um só abraço
Então
Jesus virá
E será
À flor de tudo
O Redentor
Universal
(Quando o Homem quiser
Será Natal)

Manuel Sérgio

quarta-feira, Dezembro 18, 2013

CONSELHO SUPERFLUO

Se alguma vez, por natural maldade,
Alado amor te queira perseguir,
E acontecer, que d'essa vez te enfade,
Este conselho deverás seguir:

«Anima-o, num sorriso de bondade,
_D'aqueles com que sabes iludir;_
Simula que lhe cedes por vontade,
E a mão lhe deita, se tentar fugir.

«Depois, _que sorte a sua, lastimosa!_
Põe-lhe nos olhos apertado véu;
Ata-lhe os pulsos, no regaço o pousa.

«E quando o incauto julgue estar n'um céu,
Das asas níveas, cor de neve e rosa,
Tira-lhe as penas... para o teu chapéu!»
Fernandes Costa

segunda-feira, Dezembro 16, 2013

INCONSCIÊNCIA

Todos ajudaram a estragar a boneca
E todos se riem da boneca estragada...
Agora já não existe a boneca
E dentro da boneca não havia nada.
__Ah !  Como eu choro a boneca estragada !

Manuel Correia Marques

quinta-feira, Dezembro 12, 2013

LA SOURCE

L'autel gÎt sous la ronce et l'herbe enseveli;
Et  la source sans nom qui goutte tombe,
D'un son plaintif emplit la solitaire combe,
C'est la Nymphe qui pleure un eternel oubli.
     
L'inutile miroir que ne ride aucun pli
À peine est effleuré par un vol de colombe;
Et la lune, parfois, qui du ciel noir surplombe,
Seule y reflête encore  un visage pâli.
    
De loin en loin, un pâtre errant s'y  désaltère;
Il boit, et sur la dalle antique du chemin
Verse un peu d'eau resté dans le creux de sa main.
    
Il a fait, malgré lui, le geste héréditaire;
Et ses yeux n'ont pas vu sur le cippe romain
Le vase libatoire auprès de la patère.
     
                          José Maria de Heredia

sexta-feira, Dezembro 06, 2013

THAT IS THE QUESTION

Dois mais dois são quatro.
Nasci  cresci
para me converter em retrato?
em fonema? morfema?
     
          Aceito
          ou detono o poema?

                  Ferreira Gullar

segunda-feira, Novembro 25, 2013

DOIS POEMAS

Porquê palpar-te         Se te dissesse, como agora
o seio, tão brando       digo, que de amor
e vejo dar-te            me tomo __ hora
o nome, tão branco,      tão constante e, por
     
dar-te a cor             teu zelo, renovada
que nele engenho?        em meu querer __
Basta supor              e te visse furtada
que o tenho,             __ como é mister __
     
e já o perco.            maior defesa
Que o desengano          é redobrado amor.
de sabê-lo perto         E não acho despesa
é quanto amo             nem louvor
      
em teu seio,             em tanto amar.
tão seguro               Só nada poupa
e sem enleio             quem souber guardar
é meu namoro.            teu nome em tua boca.
     
     
                           GAETAN LAMPOO                

segunda-feira, Novembro 11, 2013

SONETO A ORFEU

CONVIVEMOS com flores, parras, frutos.
Não falam só a língua da estação.
Do escuro sobe multicor revelação
e tem talvez em si o brilho do ciúme
     
dos mortos que dão força à Terra.
Que sabemos nós do seu quinhão em tudo?
è modo seu já velho dar, do seu tutano
livre, tutano ao barro.
     
Mas pergunta-se: Gostam de fazê-lo?
Este fruto, obra de escravos pesados, rompe
em bola ao alto para nós, seus senhores?
     
Ou são eles os senhores, ali dormentes
junto às raízes, e dignam-se dar do que lhes sobra
este híbrido de força muda e beijos?
      
                         (Série I, nº XIV.)
      
                RAINER MARIA RILKE

terça-feira, Novembro 05, 2013

FRACTURA

Despedaça esta fractura,
 espiar por ela os meus amigos,
 fechados vários peitos, várias artérias,
 pela máquina morte removidos.
     
 Escritas daninhas: pouca me sinto já
 para expurgá-las! Em lava aluem,
 riscam a lume páginas estremes,
 e um braço na tormenta salienta-se das vagas,
     
 frutífero implanta-se
 no seio do nosso corpo escasso.
 Membro em viço, irmão braço vem
 por dentro semear-nos!
     
      Luiza Neto Jorge      

quinta-feira, Outubro 31, 2013

ALEGRIA

Tus cabellos dorados veo yo.
Derramándose escucho tu risa.
Universo de niño evitó
que a mi muerte la viera de prisa.
     
Surgió cerca una estrella después.
Muy cercana y muy lejos estaba.
Agua al yermo sació la avidez
y respuesta en un eco sonaba.
     
Y en un véspero de soledad,
entre la cotidiana gris prosa,
con belleza que es benignidad
floreciste cual pálida rosa.
     
?No es extraño en sollozos romper?
Cada lágrima de hombre es misterio.
Y una gran alegria es tener
un dolor que por breve no es serio.
     
Oigo al pecho infantil palpitar,
veo en rutas de luz sus planetas...
Si los niños que sufren son mar _
no podrán ser felices los poetas.
     
               Pavel MATEV

segunda-feira, Outubro 28, 2013

PERSPECTIVA

Estrada a fora, em longa caminhada,
seguíamos a rota do Destino;
sobre a nossa cabeça, o Sol a pino,
jorrava calcinando o pó da estrada;

eu era um devotado peregrino
buscando a perfeição idealizada;
eras a companheira idolatrada
a perfumar o meu sonho divino;

já cansados de andar tanto, entretanto,
a tarde foi caindo mansa, enquanto,

aves brancas, cruzando o azul distante,
se perderam do nosso olhar errante.

E assim, ficamos nós, de olhar vazio,
embebidos no céu... Também vazio !

  
 Andrade Sanches

sábado, Outubro 26, 2013

ANSEIO

Há no compasso
Dos teus passos
Essa ternura
Quente, de lã,
Que torna a alma
Duma família,
Serena e calma,
Feliz e sã.
     
E no compasso
Dos meus passos
Apenas traços
Duma infinita
Imperfeição.
     
Sirva a ressalva
Daquela nota
Toda harmonia,
Quase perfeita,
Escrita em carinho,
Em teu louvor,
No pergaminho,
Que não desbota
Nem se amarrota,
Do nosso amor.
     
Sirva a ressalva.
Posso eu dizer
Então:
     
Há no compasso
Dos meus passos
Delével traço
Duma finita
Perfeição.
     
 Manuel Correia Marques

quinta-feira, Outubro 24, 2013

ANSEIO

Quero viver isolado,
Que ninguém saiba onde estou,
E, assim, cumprir meu fado
Da hora que já passou.
     
     Viver longe, lá bem longe,
     Onde não saibam que está
     Oh! alguém tornado monge,
     Num viver como não há.
     
Viver, mas sempre cercado
D'amor de quem nos quer bem,
É viver, mas a sonhar,
     
     N'esse sonho de noivado,
     Que do céu nos vem
     Esta vida perfumar.
     
          Martins Junior

quarta-feira, Outubro 23, 2013

OVÍDIO, AMORES, I, 5

A tua língua tem a consistência da rosa
e o sabor da madrugada.
Ergo-a com a minha em direcção ao céu
e voas no interior da minha boca.
Mordes os meus lábios
e ficas com a boca entumescida e plena.
Se abres a boca deslizo na tua língua até à garganta:
e sou a loba branca que vem morrer à praia.
     
Percorro o teu ouvido
como o mar explora as grutas;
procuro nele os búzios, as pedras,
as algas da tua história.
     
No meu peito as tuas mãos deslizam
e vêm nele uma superfície castanha,
um velho espelho chinês;
mas no teu peito as minhas mãos suscitam
a escultura e a música:
fazem nascer o volume amigo da terra,
os primeiros cantos da tarde.
Na minha boca ele é manso:
oiço nele a água, a cor do ouro, Henry Moore, o silêncio.
     
A tua pele está agora chegada ao meu rosto
leio nela uma mensagem.
Se sinto nas minhas mãos a curva das tuas coxas,
a grande baía azul do teu ventre descansa;
se me encosto na almofada,
as tuas pernas dobram-se em angulo recto.
As mãos sobem até ao joelho e descem, depois,
até se imobilizarem na grande rosácea aberta do teu ser.
     
A minha mão toma agora a forma da ogiva
e lê nas estalactites aromáticas do teu ser
as inscrições e os símbolos que me transmites.
Repouso com a cabeça entre os teus pés
e aperto nos meus pés a tua cabeça.
Nas tuas mãos sou um unicórnio livre:
elas falam de todo o amor deste mundo
através dos seus cinco sinos.
     
Quando as tuas mãos guiaram o grande chifre fálico
nas espaçosas paisagens do teu ser
os cisnes espalharam-se sobre o lago
batendo com a cauda.
     
                     M. S. Lourenço

terça-feira, Outubro 22, 2013

ANSEIO

Subi comigo ao cume de alto monte:
e à proporção que nós formos subindo,
surpreso o nosso olhar vai descobrindo
mais extenso e belíssimo horizonte.

Na encosta um rio tem a sua fonte.
Subindo mais, aldeias vão surgindo.
E ao chegar ao cimo, onde tudo é lindo,
não há beleza que se não aponte.

É mais puro o ar, é mais viva a luz,
tudo nos deslumbra, tudo nos seduz,
envolve a terra um azulino véu.

Assim, os que pelo estudo vão trepando,
novas belezas vão descortinando
no anseio infinito de alcançar o céu.

José Fernando de Moura