Sábado, Maio 17, 2008

SEDUÇÃO

Ela, ao ver-me vestido de preto,
me perguntou:
«Que foi que te aconteceu?»
Nada lhe disse.
Lá fora, o som de mavioso nocturno,
vindo não sei de onde,
enchia a noite de imensurável tristeza...
Em me vendo calado,
de olhar taciturno,
aconchegou-se a mim.
........................................................

E eu, que me enlutara
para lhe dizer
que morrera o nosso amor,
nossa grande amizade,
não tive coragem...
Ao sair pela manhã do seu aposento,
saí pálido, cansado e morto de saudade...

Luís D'Alenquer

Quinta-feira, Maio 15, 2008

HORA NEGRA

Quando eu morrer, Amor, não tenhas pena.
Há-de acabar de vez esta agonia
Que sem cessar minha alma desfazia
No lento corroer duma gangrena.

Quando findar a vida que envenena
E para mim nascer o eterno dia;
Quando for como a neve branca e fria
A minha pele ardente de morena;

Quando deixar o mundo onde não vivo,
Então minha alma livre, sossegada
__Quando mais nada já houver de mim__

Será como o perfume doce e esquivo
Que se evola da flor já desfolhada
Na calma luarenta dum jardim...

Maria Helena Duarte de Almeida

Quarta-feira, Maio 14, 2008

MÃE

OLHA, meu filho, quando, à aragem fria
dalgum torvo crepúsculo encontrares
uma árvore velhinha, em modo e em ares
de abandono e outonal melancolia,

não passes junto dela, nesse dia
e nessa hora de bênçãos, sem parares;
não vás, sem longamente a contemplares:
vida cansada, trémula e sombria!

Já foi nova e floriu entre os esplendores:
talvez em derredor dos seus amores
inda haja filhos que lhe queiram bem...

Ama-a, respeita-a, ampara-a na velhice;
sorri-lhe com bondade e com meiguice:
_Lembre-te, ao vê-la, a tua própria Mãe!

António Correia de Oliveira
1879-1960

Sábado, Maio 10, 2008

AUSÊNCIA

Partiste e contigo foi
tudo quanto me deixaste.
Tudo quanto um dia olhaste
nos teus olhos mansos foi.

Partiste e tudo levaste.
Não deixaste, no jardim,
rosa que um dia cheiraste,
fruto que um dia colheste,
ar que um dia respiraste.

Só eu fiquei mas sem mim,
que a mim também me levaste.

Fernanda de Castro

Terça-feira, Abril 29, 2008

VOY A APAGAR LA LUZ

Voy a apagar la luz
para quedarme a oscuras con tu rostro,
para inventar de nuevo aquel instante:
intimidad etérea y fulminante,
piel en la voz,
voz en el canto,
en la mirada...
Voy a apagar la luz
porque la oscuridad me obliga a dibujarte,
me da la dulce libertad de juntar las ternuras,
de calcar las ansias y borrar las soledades...
Voy a apagar la luz
para pensar en ti.

Viviane Nathan

Sexta-feira, Abril 18, 2008

SOU QUEM TE QUER...

Eu sou uma intrusa na vida,
A mais pequena unidade de medida.
Sou a que vive por viver,
Aquela que chora sem se ver.

Eu sou a lágrima de um olhar,
A mágoa do verbo amar.
Sou a que luta e nunca vence,
A palavra suplicante de uma prece.

Eu sou quem ama sem ser amada,
Mais um sinónimo de "nada".
Sou quem sorri só com a boca,
Quem se finge surda e faz de louca.

Eu sou o vento que voa sem destino,
O choro nos olhos de um menino.
Eu sou segredo que ninguém conhece,
Tormento que ninguém merece.

Sou dor de chama que flameja
E se abafa para que ninguém a veja.
Eu sou alma velha, nua,
Sombra que, à noite, cobre a Lua.

Sou quem te quer com pouca sorte,
E ainda mais te amará depois da morte...

Juliana Belo

Quinta-feira, Abril 17, 2008

ANTONIO BOTTO

SONETO

Tem cuidado que é sempre mau prever
qualquer coisa na vida que arrastamos;
convence-te que nós nada evitamos
d'aquilo que nos tem de suceder.

E' sempre muito grave. Sem querer,
A pouco nos familiarisamos
com a atitude firme que pensamos
tomar para o que nos vai acontecer...

e esse caso previsto chega e vem,
por que muito o desejámos. Isso não!
Resoluções não servem a ninguem.

A vida surpreende a cada passo;
e sem nossa mesquinha intervenção
resolve o mais difícil embaraço.

Sexta-feira, Abril 11, 2008

RECUERDO

RECUERDO

N'uma pequena caixa invernisada
Conservo com amor o meu thesoiro
Recordação d'uma mulher amada
E dos meus sonhos d'oiro.

Para muitos __ talvez! __ não valha nada
O meu thesoiro __ joia preciosas __;
Recordação d'uma mulher amada,
D'uma mulher formosa __.

E uma carta pequena e perfumada,
Escripta n'um estylo mui fagueiro;
Recordação d'uma mulher amada,
Do meu amor primeiro!....

Lisboa 1890
Delfim de Brito

Sexta-feira, Março 21, 2008

DIA MUNDIAL DA POESIA

POESIA

Ouvi falar,
E isto um dia...
Que há no mundo,
A poesia.

_O que é isso?
Eu perguntei,
E a resposta:
_Eu nada sei.

Fui procurando,
Ver se encontrava,
Andei rebuscando,
Mas nada achava.

Consultei o sol,
Também o vento.
E a resposta:
_Não sei, lamento.

Até que,...
Vi uma criança.
Olhei para ela;
Senti esperança.

Seu saltitar,
Sua alegria!
Oh sim, já sei:
_Isto é, POESIA.

Anónimo

.....................
SONETO

Llevó tras sí los pámpanos otubre,
Y con las grandes lluvias insolente,
No sufre Ibero márgenes ni puente,
Mas antes los vecinos campos cubre.

Monvayo, como suele, ya descubre
Coronada de nieve la alta frente;
Y el sol apenas vemos en oriente,
Cuando la opaca tierra nos lo encubre.

Sienten el mar y selvas ya la saña
Del Aquilon, y encierra su bramido
Gente en el puerto y gente en la cabaña.

Y Fabio, en el umbral de Tais tendido
Con vergonzosas lágrimas lo baña,
Debiéndolas al tiempo que ha perdido.

Lupercio Leonardo de Argensola

Sexta-feira, Março 14, 2008

DIA DA POESIA _ BRASIL

ROMAGEM ÀS SERRAS

Por essas lindas tardes vaporosas,
Ao cair dos ocasos de Verão,
Quero ouvir, em suas queixas lacrimosas
Soar a viola terna do sertão.

Nessas horas de amor e de saudade,
Em que o céu lá no alto empalidece,
E o sol, qual medalhão, no azul se evade,
E o rosto em fogo, além desaparece;

Nessas tardes de sonho e de ternura,
Pela hora do descanso e do aconchego,
Quando a brisa nos beija com doçura,
Qual de uma amante o carinhoso apego,

Eu quero ver minh'alma desprender-se
Nas asas da mimosa fantasia,
Como as aves do céu que vão perder-se
Do éter na região sedosa e fria,

Quero fitar nos longes das colinas
Esse horizonte intermino e ondulado
Que do azul sobre as lânguidas campinas
Cai em caireis, imenso e arroxeado...

Nesse almo descair do firmamento,
Com o seu langor de hora vesperal,
Perpassa n'alma o suave sentimento
De uma doce bondade angelical.

Os campos ondulados lá se arqueiam,
No imenso talho de um quadrado vasto,
Enquanto os nédios gados se recheiam
No verdejante e saboroso pasto.

A loira cor nos cimos já se espraia,
Do sol que vai tombando no horizonte,
E seu pálido albor lá se desmaia,
Nas lombadas azuis, de monte em monte...

As arvores, nas longas serranias,
Polvilham de oiro as cabeleiras flavas
Mirando-se por sobre as penedias,
Nos longínquos confins das serras bravas,

No ar, onde finíssimas bafagens
Passam, sparzindo sensuais odores,
Da malta entre as interminas folhagens,
Corre em segredo o murmurar das flores.

Lindolpho Xavier


Nota: A publicação deste poema,
é a minha forma de colaborar no
DIA DA POESIA, que hoje, 14 de
Março, data do nascimento de
Castro Alves, se comemora no BRASIL.

Domingo, Março 09, 2008

XOSE LOIS GARCIA

ABRILSONETOS
Soneto nº 29

Non sei que dicir de tanta cousa
non sei que dicir de tanta ruina
dese corvo que no corazón apousa
e dun pombo refuxiado na retina.

O tempo chega coa morte extenuada
poñendo un paréntese ao meu riso
nunha esperanza que chega alterada
por eu dicir o que outro non dixo.

Seara de centeo aínda non medrado
vestixio iluminando outro repouso
pálidas espigas sen o corpo amado.

Corpo que levou o que nunca trouxo
na inclinación dun sol retardado
no mesmo piar dun fúnebre moucho.


Xose Lois Garcia

http://www.xoseloisgarcia.com/

Sábado, Março 08, 2008

8 de MARÇO


Sexta-feira, Fevereiro 29, 2008

NOIVADO ESTRANHO

Quisera amar-te muito, ó Gémea do Luar,
Num sonho excepcional, só de carícias feito,
Abendiçoar o céu na luz do teu olhar,
E a alma adormecer na curva do teu peito;

Quisera amar-te sempre, ó Doce como arminho
E casta como a pomba em seus arrulhos doces...
E, em troca deste amor, viver do teu carinho,
Que eu não vivia, não, Mulher, se tu não fosses!

Passar a vida inteira a ver-me nos teus olhos,
Apenas ter ventura em vez de ter abrolhos,
Beber o teu sorriso, e as mágoas esquecê-las...

E quando a morte viesse e nos levasse a ambos
Realizarmos então os desejados tambos,
Na igreja do Além... em meio das estrelas.

José Duro


Segunda-feira, Fevereiro 25, 2008

ANTÓNIO FEIJÓ

A UMA MULHER FORMOSA
Nas límpidas canções que me inspiraste
ao som da flauta d'ebano cantadas,
narrava as minhas mágoas desoladas,
mas tu não me escutaste!

Depois compus estâncias primorosas,
que lêste em carinho e sem ternura,
lançando ao rio as páginas formosas
onde eu cantava a tua formosura.

Quis ser então mais fino e mais amável:
dei-te um presente fabuloso e raro,
uma enorme safira comparável
a um céu nocturno imensamente claro.

E em paga d'essa joia deslumbrante,
d'esse primor, d'uma riqueza louca,
mostraste-me, sorrindo um só instante,
as pequeninas pérolas da boca.

António Feijó

http://pt.wikipedia.org/wiki/António_Feijó

Sexta-feira, Fevereiro 22, 2008

MÃOS DE MULHER

Mãos de mulher! Oh! doces mãos piedosas
Semeando o bem a todos os instantes;
Mãos de mães, de irmãs, ou mãos de amantes
Erguendo-se em preces silenciosas.

Mãos que têm perfurme a nardo e rosas!
Se são de amor seus gestos perturbantes,
Tecem rendas, brocados rutilantes,
Refúgio amigo em horas dolorosas.

Mãos que embalam o filho no regaço.
Trazendo o mundo em jeito d'um abraço...
Tão leves, tão macias elas são...

Mãos velhinhas, de dedos já sem vida,
Resignadas esperam a partida
Desfiando o rosário em oração.

Maria de Lourdes Lima

Quinta-feira, Fevereiro 14, 2008

FEDERICO GARCIA LORCA

LA MONJA GITANA

SILÊNCIO de cal y mirto.
Malvas en las hierbas finas.
La monja borda alhelíes
sobre una tela pajiza.
Vuelan en la araña gris
siete pájaros del prisma.
La iglesia gruñe a los lejos
como un oso panza arriba.
!Qué bien borda! !Con qué gracia!
Sobre la tela pajiza
ella quisiera bordar
flores de su fantasia.
!Qué girasol! !Qué magnolia
de lentejuelas y cintas!
!Qué azafranes y qué lunas
en el mantel de la misa!
Cinco toronjas se endulzan
en la cercana cocina.
Las cinco llagas de Cristo
cortadas en Almería.
Por los ojos de la monja
galopan dos caballistas.
Un rumor último y sordo
le despega la camisa,
y, al mirar nubes y montes
en las yertas lejanías,
se quiebra su corazón
de azúcar y yerbaluisa.
!Qué, qué llanura empinada
con veinte soles arriba!
!Qué rios puestos de pie
vislumbra su fantasia!
Pero sigue con sus flores,
mientras que de pie, en la brisa,
la luz juega el ajedrez
alto de la celosía.

Federico García Lorca

http://pt.wikipedia.org/wiki/Federico_Garc%C3%ADa_Lorca

Segunda-feira, Fevereiro 04, 2008

DÚVIDA

Felizes os que vivem sem pensar
E acreditam em tudo, simplesmente;
Feliz também aquele que descrente,
Julga a verdade em tudo renegar.

Só eu jamais na vida hei-de encontrar
A certeza em que vive muita gente...
Busco a verdade, infatigàvelmente,
Mas nenhuma me pode contentar.

E tudo me parece falso e vão,
E chego a não saber qual a razão,
Pois a nenhuma ideia fico presa...

Triste de quem não sabe nada ao certo
E tem, como resposta no deserto,
Apenas esta angústia da Incerteza.

Hanid Estela

Terça-feira, Janeiro 29, 2008

COMPENSAÇÃO

Minha grande alegria de a ter tido
paga em sobejo a mágoa de perdê-la,
compensação é ter o perfeito juízo
que amá-la... era doce sonhar tê-la!

Que importa então aquele momento?
Sonhos nunca acabam no firmamento,
vou beijar o céu, entre as estrelas
sonhar... a mais linda de todas elas.

E então... recuso a despedida afinal
quero beijá-la, na luz da falsa ida
aqui no peito, senti-la pulsar vida.

porque na Terra existe em roseiral
e se aqui não a posso ter em flor,
para o Céu eu transfiro o meu amor!

Isa. Cal.

Segunda-feira, Janeiro 21, 2008

COMPENSAÇÃO


Eu não lastimo a sua despedida,
que me entristece pouco; esse momento,
quero apagá-lo em toda a minha vida,
porque não turve o meu deslumbramento.

Por que daria, na hora da partida,
pouso em minh'alma a inútil sofrimento?
_Antes lembrar-lhe a vinda, entretecida
de luz celeste e santo encantamento...

Antes gozar o instante em que ela veio,
senti-la, na memória, junto ao seio,
e abraçar novamente o sonho e a estrela,

do que chorar e estar aborrecido:
_Minha grande alegria de a ter tido
paga em sobejo a mágoa de perdê-la.

Milton Costa

Terça-feira, Janeiro 15, 2008

CANTIGA SUA, PARTINDO-SE.

Senhora, partem tam tristes
meus olhos por vós, meu bem
que nunca tam tristes vistes
outros nenhuns por ninguem.

Tam tristes, tam saudosos,
tam doentes da partida,
tam cansados, tam chorosos,
da morte mais desejosos
cem mil vezes que da vida.
Partem tam tristes os tristes,
tam fora d'esperar bem
que nunca tam tristes vistes
outros nenhuns por ninguem.


Joham Rodriguez de Castel Branco

http://www.vidaslusofonas.pt/amato_lusitano.htm

http://www.universal.pt/scripts/hlp/hlp.exe/artigo?cod=2_30

_E agora?... _Qual dos dois escreveu o poema?!... Suponho, que foi o poeta palaciano. No entanto o nome pode induzir em erro. E só um estudioso do assunto, pode responder à questão.

Terça-feira, Janeiro 01, 2008

EM TODOS OS JARDINS

Em todos os jardins hei-de florir,
Em todos beberei a lua cheia,
Quando enfim no meu fim eu possuir
Todas as praias onde o mar ondeia.

Um dia serei eu o mar e a areia,
A tudo quanto existe me hei-de unir,
E o meu sangue arrasta em cada veia
Esse abraço que um dia se há-de abrir.

Então receberei no meu desejo
Todo o fogo que habita na floresta
Penetrado por mim como um beijo.

Então serei o ritmo das paisagens,
A secreta abundância dessa festa
Que eu via prometida nas imagens.

Sophia de Mello Breyner Andresen
Nasc. 6/11/1919 Fal. 2/07/2004

Domingo, Dezembro 30, 2007

ANO NOVO

Ano Novo _ urna cheia de ilusões
inebriando a alma de toda a gente !
Bendito anseio, pleno de emoções,
dos que andam neste mundo tristemente !

Ano Novo _ revoada de ambições,
perpassando em cortejo aurifulgente !...
Mistérios do Porvir, cintilações
bem longínquas na vida do presente !...

Ano Novo!... Porquê? __ Louco pensar !
__Se a vida é a mesma __ íngreme ladeira,
onda revolta de um picado mar !

Ano Novo!... Talvez desta maneira:
A Dor a renovar-se sem parar
neste mundo já velho de canseira!

Alfredo Lobato de Faria

Terça-feira, Dezembro 25, 2007

O MEU NATAL


A noite de Natal. Em meu País, agora,
O que não vai até romper o dia, a aurora !
As mesas de jantar na cidade e na aldeia,
à luz das velas, ou à luz duma candeia,
Entre risadas de crianças e cristais
(De que me chegam até mim só ais, só ais !).
Dois milhões de almas e outros tantos corações,
Pondo de parte ódios, torturas, aflições,
Que o mel suaviza e faz adormecer o vinho:
São todas em redor de uma toalha de linho !

António Nobre

Domingo, Dezembro 23, 2007

NATAL

Numa das mais cruéis e agrestes manjedouras
Nasceu Cristo, o maior filósofo do mundo.
Houve naquela noite um júbilo profundo
Dos crentes do Senhor das gerações vindouras.
.
Um anjo azul-turquesa e de madeixas louras
Revelou aos pastores, dentro dum segundo,
Que chegou o Salvador prometido e fecundo
Para remir os homens com mãos redentoras.
.
A notícia invadiu logo a cidade inteira,
E as perseguições não tardaram ao menino.
Obrigando-o a fugir já pela vez primeira.
.
Desde muito pequeno, aquele grande vulto
Ministrava no Templo o seu saber divino,
Dando razões da vida de tão belo culto !
.
Enéas de Lima

Sexta-feira, Dezembro 21, 2007

INVERNO

Venceu o frio. Heróico, na campanha,
gastou o Sol os últimos arrancos,
e do Inverno os soldadinhos brancos
caem do Céu e descem da montanha.

Linda de ver, alvura assim tamanha
da alta serra contornando os flancos!
E a Neve enche as ravinas e os barrancos,
vitoriosa, luminosa, estranha.

Ah! Natureza, vais sofrer deveras,
o Inverno veio; mas ainda esperas
que chegue outro Verão, um dia, breve;

e a nós toda a esperança se nos nega,
e a cada coração onde ele chega
não torna o Sol que lhe desfaça a Neve.

Matos Sequeira

Segunda-feira, Dezembro 10, 2007

ASPIRAÇÃO INÚTIL

Ah ! se a mocidade fosse
Comprida... muito comprida...
E toda ela vivida
Num beijo doce, mui doce...
Como ditosa era a vida !
.
Mas dura o dia, que a trouxe;
Passa por nós, de corrida;
Some-se, apenas nascida;
Chega amanhã... e acabou-se !...
E, não mais, volta na vida.
.
Fernandes Costa

Sábado, Dezembro 01, 2007

A CARTA

Vem o carteiro além, ao fim da rua.
_É carta que me envias, com certeza.
Dissipa-se esta nuvem de tristeza
e um outro ar junto de mim flutua !

Tão devagar ! Mas que demora a sua !
Esperar ! Que ansiedade e que incerteza !
Já estou a ver a tua letra inglesa
e que aos meus olhos tanto se insinua.

E o carteiro? !... Onde está?... Já não o vejo !
Lá vem ele outa vez: __Mais um lampejo
a acariciar o meu mortal anseio.

Chega, enfim ! Coração, porque te espantas?
Só espero uma carta e vêm tantas !
....................................................................
E, afinal, só a tua é que não veio !

Espínola de Mendonça

Sábado, Novembro 24, 2007

ALEXANDRE HERCULANO

A FELICIDADE NO AMOR

Eras tu, eras tu que eu sonhava;
Eras tu quem eu já adorei,
Quando aos pés de mulher enganosa
Meu alento em canções derramei.

Se na terra este amor de poeta
Coração há que o possa pagar,
Serás tu, virgem pura dos campos,
Quem virá a minha harpa acordar.

Como a luz duvidosa da tarde,
Quando o Sol leva ao mar mais um dia,
Reverbera poesia e saudade
Na alma imensa de um rei da harmonia;

Tal poesia e saudade em torrentes
No teu meigo sorrir eu aspiro,,
E no olhar que me lanças a furto,
E no encanto de mudo suspiro.

Para mim és tu hoje o universo;
Soa em vão o bulício do mundo;
Que este existe somente onde existes;
Tudo o mais é um ermo profundo.

No silêncio do amor, da ventura,
Adorando-te, oh filha dos céus,
Eu direi ao Senhor: tu m'a deste:
Em ti creio por ela, oh meu Deus!


Alexandre Herculano

Quarta-feira, Novembro 21, 2007

ANTONIO NOBRE

AQUI SOBRE ESTAS ÁGUAS...
(No Canal da Mancha)

Aqui, sobre estas águas cor de azeite,
cismo em meu Lar, na paz que lá havia:
Carlota, à noite, ia ver se eu dormia,
e vinha, de manhã, trazer-me o leite.

Aqui, não tenho um único deleite!
Talvez... baixando, em breve, à ´´Agua fria,
sem um beijo, sem uma Avé-maria,
sem uma flôr, sem o menor enfeite!

Ah, pudesse eu voltar à minha infância!
Lar adorado, em fumos, a distância,
ao pé da minha Irmã, vendo-a bordar:

Minha velha Aia! conta-me essa história
que principiava, tenho-a na memória,
«Era uma vez...
Ah! deixem-me chorar!

António Nobre

Sábado, Novembro 17, 2007

ESPÍRITO & HUMOR

Ter na hora própria a frase cintilante,
De molde gracioso e sorridente...
O dito agudo, o dito penetrante,
Que salta da boca de repente...

Isso é espírito... a explodir ovante.
O humor, porém, é cousa mui dif'rente...
(Se bem que seja um pouco semelhante
No modo de fazer sorrir a gente...)

O espírito e o humor, onde os eu estudo
É no Circo, observando a pantomina
Do palhaço pomposo co'o faz-tudo...

Ironiza o palhaço com ar jucundo:
E, sem que, ao fim, a farsa nos deprima.
Sério, o faz-tudo faz sorrir o mundo...

L da Cruz Sobral