domingo, janeiro 25, 2015

POEME DE SHAPO

               POEME DE SHAPO
                
traduit par Boileau

Hereux qui, près de toi, pour toi seule soupire,
Qui jouit du plaisir de t'entendre parler,
Qui te voit quelquefois doucement lui sourire.
Les dieux, dans son bonheur, pourraient-ils  l'égaler ?
Je sens de veine en veine une subtil flamme
Courir par tout mon corps sitôt que je te vois ;
Et dans les doux transports où  s'égare mon âme,
Je ne saurais trouver de langue ni de voix.
Un nuage confus se répand sur ma vue,
Je n'entends plus, je tombe en de douces langueurs ;
Et  pâle, sans haleine, interdite, éperdue ,
Un frisson me saisit, je tombe, je me meurs !

terça-feira, janeiro 20, 2015

SONETOS ÍNTIMOS

I
     
Não sei se são saudades o que sinto,.
Não sei se é de saudade que estremeço.
E tenho na alma um travo de absinto
Cuja fatal origem desconheço.
     
Da minha carne o animal instinto
Nem uma vibração lhe reconheço...
Sorrir não posso, mas chorando minto,
Pois afinal é um bom o que padeço.
      
Da tua graça etérea me sustento.
E assim me encanta o gozo e o tormento
Nesta paixão profunda e singular !
     
Bendigo o sofrimento que me ordenas,
Que a vida para mim reside apenas
Na luz do teu olhar.
      
II
     
Fico-me às vezes a pensar perplexo,
Que sou apenas uma sombra alada
Do que tu és; um pálido reflexo
Do sol que canta dentro de ti, mais nada.
     
Num deleitoso, espiritual amplexo,
Enlaça-te a minha alma desvairada,
Se a tua boca, num ritmar complexo,
Oscular a minha boca insaciada.
     
Prisioneira do Amor, as minhas penas
Têm aroma súbtil das acucenas;
_São como pombas mansas num pombal;
     
Benvinda serias tu à minha cela
Anjo da minha guarda, minha estrela,
Sublime encarnação do meu ideal ! 
     
III
     
Dizem que os beijos cansam, que enfastiam,
Que só o primeiro beijo tem sabor...
Nem sempre. Isto depende do fervor
Das delicadas almas que os viam.
     
Aqueles que florescem, que irradiam
Do mais intenso, do mais puro amor,
Quanto mais repetidos com ardor
Mais saborosos são, mais inebriam.
     
Vê tu os nossos beijos, minha Amada
Como na sua essência perfumada
Atingem, dia a dia, a perfeição !
     
É que os beijos de Amor são milagrosos !
Morrem, a rir, nos lábios amorosos,
Para ressuscitar no coração !
     
Carlos de Moraes

sábado, janeiro 17, 2015

CERRAÇÃO

Sim! o chorar é bom! Sai o pranto às levadas.
Brotam do coração lágrimas represadas!...
                              Numa dor violenta,
é o vulcão que irrompe, é a onda que rebenta!
    
Sim! o chorar é bom! Alivia e consola!
No cúmulo da dor, é a suprema esmola
com que Deus suaviza a alma dolorida,
como orvalho que cai sobre a flor ressequida!
    
Sim! o chorar é bom!...  A lágrima furtiva
que às vezes nos provoca uma mágoa mais viva,
_dor que não chega a ser, dor passageira e calma_
não é choro... O chorar é o arranque da alma!...
    
                        Cristovam Ayres

domingo, janeiro 11, 2015

PORQUÊ ?...

Porque te amei __ perguntas __ de improviso ?...
Porque te amei, amor ?... Vão lá sabê-lo !
Talvez por ser tão negro o teu cabelo,
Talvez por ser tão claro o teu sorriso ...
    
Seria porque em teu olhar diviso
a luz que me anuncia o setestrêlo ?
Ou nele adivinhei, sem conhecê-lo,
o caminho que leva ao paraíso ?...
    
Talvez por teu frescor de juventude,
pela graça gentil de uma atitude,
o encanto que se sente e não se vê ...
    
Mistérios do amoroso coração
nunca pode entendê-los a razão ....
Ama-se a gente sem saber porquê.
      
             Cardoso dos Santos

segunda-feira, janeiro 05, 2015

A M O R

Amor _ seiva da vida que a alma enflora ;
Flor da alma em que florece a esperança ;
É fogo ardente, em chama na lembrança ,
Que o peito gela e o coração devora ;
     
É cobarde vencido a toda a hora ;
Herói que tudo vence e tudo alcança ;
Cuidado que não dorme nem descansa ...
Desvairado prazer que ri e chora ;
     
É facho oculto que ilumina a Gente ;
É dor que nos consola e nos tortura ;
É delícia que dói constantemente ...
     
Negro fantasma e aparição querida ;
Desgraça que nos traz toda a ventura ;
Tirano que nos mata e nos dá vida .
      
           Maria Isabel da Camara Quental

quinta-feira, janeiro 01, 2015

JANEIRO

A chuva enlouquece a terra,
E o vento, de mau, sussurra,
A neve branqueia a serra,
E além o próprio mar urra.
     
Bem está a cozinheira
Ao fazer o ensopado,
Mais o velhinho, à lareira,
Recordando o seu passado.
      
            Fernando  Pinheiro

sábado, dezembro 20, 2014

TAL VEZ

Tal vez sea todo culpa de la nieve
que prefiere otras tierras más polares,
lejos de estos trópicos.
     
Culpa de la nieve, de su falta,
__ la falta que nos hace
cuando oculta sus copos y no cae,
cuando pospone, sin abrirlas, nuestras cartas.
     
Tal vez sea culpa de su olvido,
de nunca verla en estas calles
ni en los ojos, los gestos, las palabras.
Tantas cosas dependen noche e día
de su silencio táctil.
     
Nuestro viejo ateísmo caluroso
y su divagación impráctica
quizá provengan de su ausencia,
de que no caiga i sin embargo se acumule
en apiladas capas de vacío
hasta borrarnos de pronto los caminos.
     
Sí, tal vez la nieve,
tal vez la nieve al fin tenga la culpa...
Ella y los paisages que no la han conocido,
ella y los abrigos que nunca descolgamos,
ella y los poemas que aguardan su página blanca.
     
              Eugénio Montejo 

sexta-feira, dezembro 19, 2014

SONETO

Um de meus bisavós foi mercador,
Outro foi de alfaiate oficial,
Outro tendeiro foi, sem cabedal;
E outro, que juiz foi, foi lavrador.
     
O meu paterno avô foi professor
De latim que ensinou ou bem ou mal,
E o avô materno viveu no seu casal,
De que inda agora mesmo sou senhor.
     
Meu pai médico foi, homem de bem,
Minha mãe «dom» teria, porque, enfim,
Muitas menos do que ela agora o têm.
     
Abade eu fui, e se saber de mim
Alguma coisa mais quiser alguém,
Saiba que versos faço, e os faço assim.
      
                 Eugénio Sílio Peixoto
      
Ribeira Grande (Ilha de S. Miguel)

quinta-feira, dezembro 11, 2014

O CÉU É FUNDO

O  céu é fundo e claro como um lago.
   Ébrio de fresco vinho e sol candente,
   no fértil campo que uma fonte banha,
   com mãos e boca ávidas me entrego
   à colheita dos frutos perfumados.

           Armindo José Rodrigues

sábado, dezembro 06, 2014

HISTÓRIA DO CASAMENTO

Dois entes que se desejam,
Duas caras que se engraçam,
Duas bocas que se beijam,
Quatro braços que se abraçam ...
     
Duas almas que se atraem,
Dois destinos que se prendem,
Duas vidas que se esvaem ...
... Dois tolos que se arrependem.
     
          M. A. d'AMARAL    

quarta-feira, dezembro 03, 2014

MEDALHA DE PALAVRAS

De propósito

terça-feira, dezembro 02, 2014

O BEIJO

À minha amada, na praia,
dei um beijo a sós e a medo ;
mas a onda que desmaia
descobriu este segredo.
     
E às outras logo contando
o beijo que me viu dar,
foi de onda em onda passando
o meu segredo a cantar.
     
Treme ansioso o teu seio,
E eu,  pálido de temor,
que todo o mar anda cheio
de aquele beijo de amor !
    
         Afonso Lopes Vieira

quinta-feira, novembro 27, 2014

MALMEQUER

Se me ponho a desfolhar
Um malmequer, curiosa,
Fico triste e a pensar
Se me engana a flor mimosa

Tirando pétalas fora
Por querer saber a sina,
Vejo logo, sem demora,
A sorte que me destina...

Malmequer é agoirenta
Pois começa a dizer mal,
Mas é flor que a todos tenta

Muito embora trivial,
Dizer bem não ex'primenta
Mal dizer é habitual !...

 
Carolina Viseu Pinheiro da Silva Matos

segunda-feira, novembro 24, 2014

VOY A DORMIR

Dientes de flores, cofia de rocío,
manos de hierbas, tú, nodriza fina,
tenme prestas las sábanas terrosas
y el edredón de musgos escardados.

Voy a dormir, nodriza mía, acuéstame.
Ponme una lámpara a la cabecera;
una constelación; la que te guste;
todas son buenas; bájala un poquito.

Déjame sola: oyes romper los brotes...
te acuna un pie celeste desde arriba
y un pájaro te traza unos compases

para que olvides... Gracias. Ah, un encargo:
si él llama nuevamente por teléfono
le dices que no insista, que he salido...

     
                   Alfonsina Storni

domingo, novembro 23, 2014

ORAÇÕES DO AMOR

Eu não acreditava
Que simplesmente à luz d'um doce olhar
Tornasse a alma uma perfeita escrava.
      
Contudo, ò flor sem par,
Quando ontem, passando, tu me olhaste,
Mal imaginas que no mesmo olhar
A alma me levaste.
      
António Fogaça

sábado, novembro 22, 2014

PRAÇA DE CASA FORTE

           para José Rodrigues de Paiva

Neste lago afogou-se a minha infância,
À sombra dessas árvores morri ...
Hoje, um espelho afronta as minhas ânsias :
Minha imagem me diz: nunca te vi !
     
Dói-me o agreste amor por esse verde
Que dentro do meu peito diz adeus.
E eu digo adeus como quem não sente
na vida que passou e se perdeu !
     
Ó praça, fogo verde pela tarde,
Quero queimar-me aqui onde tu ardes
Por entre os beijos longos dos casais ;
     
Quero deixar-me aqui, raiz e fronde,
Deitado sobre a grama que foi ontem,
Inutilmente verde, sombra em paz !...
      
                               Paulo Gustavo 

quinta-feira, novembro 20, 2014

O MAIOR COLOSSO

"Ciclópeo mar! No bojo insano, a espuma
Recorda mil estrofes de pavor,
Porém domina as vagas, uma a uma
Na praia, a humilde areia sem valor...

Eis a montanha! Com vaidade suma,
Dirige ao céu fantástico pendor;
Colosso ingente sim... mas pode a bruma
Dissipar nele a forma, o brilho, a cor!

Só o pensamento avança. Iluminado,
Resolve e queima as cinzas do passado,
Vai dormitar, em sonho, nos museus...

Grava centelhas de fulgor eterno;
Pode afundir nos báratros de Averno,
P'ra despertar no coração de Deus!"


Olindo Casal Pelayo

quarta-feira, novembro 12, 2014

RAFAEL ALBERTI

Si yo nací campesino,
si yo nací marinero,
?por qué me tenéis aquí,
si este aquí yo no lo quiero?
      
El mejor dia, ciudad
a quien jamais he querido,
el mejor dia _ i silencio ! _
habré desaparecido.
      
          Rafael Alberti 

sexta-feira, novembro 07, 2014

RAJEUNISSEMENT

Jadis, au Noveau Monde, une eau miraculeuse
Rajeunissait tous ceux qui s'y baignaient, dit-on,
C'etait des Espagnols l'idée ambitieuse,
Et le réve chéri de Ponce de Lèon.

Mais on sait que toujours cette onde merveilleuse
A trompé des chercheurs la folle ambilion,
La fontaine rêvée est chose fort douteuse,
Peut-être elle n'était que pure illusion.

Eh bien, malgré cela, sais-tu ce que je pense?
Que j'ai tout près de moi ma souce de Juvence,
Car près de ce qu'on aime on rajeunit toujours.

Ainsi je trouve en toi la source qui, sans cesse,
M'apporte un souvenir du temps de ma jeunesse
Et fait revivre encor mes plus fraîches amours!
 

      
Celestino Soares

segunda-feira, novembro 03, 2014

MUITO PEDIR

__Dá-me esse jasmin de cera,
       Minha flor ?
«Mas... e depois, se lho dera,
       Meu senhor ?!»
       
__Depois, era uma lembrança.
       «Mas de quê ?»
__De uma tão linda criança,
       Já se vê.
      
«Oh !  tão linda !  Mas parece,
       Sendo assim,
Que inda quando lhe não desse
        Tal jasmin...»
      
__Nunca se esquecia por certo.
       «Nunca já ?»
__Nunca.  «Nunca é muito certo,
       Mas...  vá lá !»
      
__E a rosa, que bem lhe fica !
       Dá-ma,  flor ?
«Oh !  a rosa,  a rosa pica,
       Meu senhor !»
      
             João de Deus

sábado, novembro 01, 2014

A TERRA

                    Fecundarás a terra com o suor do teu rosto.
                                                                GENESIS,
     
Cavai, eternamente, a velha terra !
Sofrei, suai, gemei, na dura enxada,
Fecundai-a na paz, ou pela guerra,
Quer seja pelo arado, ou pela espada.
      Ò Homem !  trabalhar é tua herança,
      Até que a morte, enfim grite: _descansa !
     
É a árvore a tua companheira,
O lar, a tenda, a sombra de teus passos,
Da tua amante a perfumada esteira,
Como bençãos, t'estende os longos braços.
      E ou seja em teu inverno ou teu estio,
      É teu berço, teu leito, e teu navio !
     
É preciso que as lágrimas que correm
Façam crescer dos cardos os trigais,
E por cima dos corpos dos que morrem
Se ergam verdes loureiros triunfais.
      É preciso que em paz, ou pela guerra,
      Com pranto ou sangue, se fecunde a terra !
     
É preciso cavá-la !  _Nos teus braços
Luza a enxada, ou o gládio dos destroços.
A vida é curta, e breves nossos passos
E as flores vivem, crescem sobre os ossos.
      O berço, não é mais, ó criatura !
      Que a linha d'união, à sepultura.
     
É preciso que a morte, a dor, os lutos
Se transformem em vinhas ostentosas,
Nossos prantos convertam-se nos frutos,
Do sangue dos heróis tinjam-se as rosas.
      Sofrei, lutai, morrei, ò infelizes !
      __O vosso sangue é útil às raízes.
      
               António Duarte GOMES LEAL           
 

segunda-feira, outubro 20, 2014

CANTIGA

Deixa-te estar na minha vida
Como um navio sobre o mar.

Se o vento sopra e rasga as velas
E a noite é gélida e comprida
E a voz ecoa das procelas,
Deixa-te estar na minha vida.

Se erguem as ondas mãos de espuma
Aos céus, em cólera incontida,
E o ar se tolda e cresce a bruma,
Deixa-te estar na minha vida.

À praia, um dia, erma e esquecida,
Hei, com amor, de te levar.
Deixa-te estar na minha vida.
Como um navio sobre o mar.


João Cabral do Nascimento
         1887-1978

 https://www.youtube.com/watch?v=SLiuvoA2gGM

quinta-feira, outubro 16, 2014

XÍCARA conjunto musical

                    A M O R

Amor é um arder que se não sente;
É ferida que dói, e não tem cura;
É febre, que no peito faz secura;
É mal, que as forças tira de repente.

É fogo, que consome ocultamente;
É dor, que mortifica a Criatura;
É ânsia, a mais cruel e a mais impura;
É frágoa, que devora o fogo ardente.

É um triste penar entre lamentos;
É um não acabar sempre penando;
É um andar metido em mil tormentos.

É suspiros lançar de quando em quando;
É quem me causa eternos sentimentos.
É quem me mata e vida me está dando.


                Abade de Jazente
                    1719-1789  

quarta-feira, outubro 15, 2014

LEONOR

A Leonor continua descalça,
o que sempre lhe deu certa graça.

Pelo menos não cheira a chulé
e tem nuvem de pó sobre ò pé.

Digam lá se as madames do Alvor
são tão lindas como esta Leonor

Um filhito ranhoso na mão,
uma ideia já podre no pão.

Meia dúzia de sonhos partidos,
a seus pés, como cacos de vidros.

Digam lá se as madames do Alvor
são tão lindas como esta Leonor.
      
         António Magalhães Cabral 
                 1931-2007
     
 

domingo, outubro 12, 2014

DESENCANTADA

Não quero ver-te mais. De que servia ?
Bem sabes que na vida nada dura.
Se vivemos uma hora de alegria,
Temos depois imensas de amargura.
     
Como às vezes, após um lindo dia,
Segue a noite, tenebrosa, escura,
Atrás dum grande Bem que nos sorria
Vem quase sempre a dor, a desventura.
     
Eu sei que o teu amor há-de acabar,
Que as flores que me deste hão de murchar ...
A vida é toda um sonho, uma ilusão !...
     
Nada resiste ao tempo. E, na verdade,
A maior, a melhor felicidade
É sempre aquela que se espera em vão.
     
                               Maria de Melo


quinta-feira, outubro 09, 2014

DISPO

Cerco e troco
escrevo e ponho.
     
Levanto a saia e o subido
mostra a bainha do corpo
descubro o nu, no vestido.
     
Perpasso as mãos
nas penumbras
desacato o que é restrito.
     
Disponho do proibido
permito        dispo
desdigo.
     
Caminho pelo prazer
que sempre afirmo
e prossigo.
      
      Maria Teresa Horta  

quarta-feira, outubro 08, 2014

CONFIANÇA

Canta e procura dar à voz honesta
Uma força de pena ou de alegria.
Espera. Crê. Resigna-te. Confia.
Deixa de ver na vida a dor funesta.
    
Ama quem te quer mal, quem te detesta,
E,  no abandono duma tarde fria,
Goza a volúpia estranha da agonia.
Duma rubra agonia cor de festa.
    
Empresta ao teu destino incerto e vago
O ritmo quieto dum mansinho lago,
Onde se espelha a paz e a esperança.
    
Pensa que Deus criou para teu gôsto,
O sol, o fogo, o mar, um sonho, um rosto,
Algum riso inocente de criança.
    
           Maria Antónia Teixeira (filha)

domingo, outubro 05, 2014

MINHAS ASAS DE CONDOR

'A ESQUINA DA VIDA'

MINHAS ASAS DE CONDOR


Minhas asas de condor
tinham sol no coração
de um suspiro de uma flor
eu compunha uma canção

Cada beijo imaginado
meigo gesto, brando olhar
era poema bordado
de branca espuma do mar

Poentes de fogo amava
e em sonhos, cada mulher
era um anjo que eu cantava
que eu amava sem saber

Desilusões que sofri !
Dos anjos que resta agora ?
Sós os versos que escrevi
e não soube deitar fora

Agora versos não faço
chegam mais longe os meus passos
quem pode abrir o espaço
não deixa amarrar os braços

Um poema é todo o dia
desde que eu te conheci
e algum poema diria
tudo o que sinto por ti ?

Não, versos não faço mais
pus neles ponto final
p'ra quê buscar ideais
se és tu o meu ideal ?

Quando juntinho sonhamos
e nos beijamos... depois
que outra coisa precisamos
se o Mundo somos nós dois ?

Não há versos nem desejos
no sol da nossa alegria
Os poemas? são teus beijos
Nossos abraços __ poesia

Perdoai pois meu amor
se o poeta adormeceu,
há lá poema maior
que a filha que Deus nos deu?

.
Zacarias Mamede

quarta-feira, outubro 01, 2014

ARMA SECRETA

Tenho uma arma secreta
ao serviço das nações.
Não tem carga nem espoleta
mas dispara em linha recta
mais longe que os foguetões.

Não é Júpiter, nem Thor,
nem Snark ou outros que tais.
É coisa muito melhor
que todo o vasto teor
dos Cabos Canaverais.

A potência destinada
às rotações da turbina
não vem da nafta queimada,
nem é de água-oxigenada
nem de ergóis de furalina.

Erecta, na torre erguida,
em alerta permanente,
espera o sinal da partida.
Podia chamar-se VIDA.
Chama-se AMOR, simplesmente.

                 António Gedeão

quinta-feira, setembro 25, 2014

SONETO

Fere igualmente Amor o rico, e o pobre,
o moço, o velho, em fim tudo sujeita;
e, às vezes onde menos se suspeita,
arde mais vivo quanto mais se encobre.

Faz que um herói ao seu poder se dobre,
que desvarie um sábio; e não respeita
nem da cabana a esfera mais estreita,
nem do palácio o resplendor mais nobre.

Nem dentro dos grilhões de uma clausura
contra os tiros cruéis do aventureiro,
encontra fraco abrigo a formosura.

Rompe pelo impossível derradeiro;
combate as honras, a virtude apura;
e alista por vassalo o mundo inteiro.
 

     
Sanches de Frias