sexta-feira, julho 01, 2016

HISTÓRIA ANTIGA

Tudo passou. No turbilhão da vida,
Na corrente voraz dos desenganos,
Ao ritmo dos meses e dos anos,
Foi-se a tragédia por nós dois vivida.
     
Tudo passou... mas, ah !  quantos arcanos
Não me ficaram n'alma dolorida,
Como a concha que jaz adormecida
No negror abismal dos oceanos !
     
Hoje, __ uma leve lembrança apenas resta
Desse drama de outrora. Para a frente
Sigo cantando, o coração em festa.
     
E tu... nem sei se dessa amarga história,
Tão rápida, tão viva, tão pungente,
Inda trazes vestígios na memória.
     
                    Nicanor Carvalho

sexta-feira, junho 24, 2016

MOTIVO INFANTIL BRASILEIRO

A chuva toda por sobre a serra
é um corpo mole, branco e sereno.
E a faixa loura da longa estrada
é um gesto vivo que diz, gritando:
     
«Menino tonto, de pés no chão,
que vendes frutas aos trens que passam,
vai para casa, Luís, José, Pedro e João!»
     
Adiante, gritando mais:
«Saia do rio, menina nua,
a chuva é forte, a água é fria!»
     
E ao moleque, todo pretinho,
rindo e bebendo água do céu;
«Olha as palmadas! E as tuas frutas,
                             se apanhas febre?»
     
E a chuva sempre por sobre a serra...
(_Aqui, moça, banana ouro...)
vai despencando
e vai banhando a estrada longa que vai calando;
«vai para casa menino tonto...»
     
_Què qu'adianta, moça?
A chuva chove também lá dentro...
     
                                         Terezinha Éboli

quarta-feira, junho 01, 2016

ORÁCULO

Dádiva, negada, poída
(Perene a quiseram os deuses,
Desfeita a sua prudência!)
Deste, se tanto, a descrença
Pejando a vida de pasmo,
Para lá de quem te desvenda
Dia após morte.
                              A prece,
Penhor da carne degredada,
Dissimula em ti o pranto;
E ficas tão sábio
E ficas mais santo.
        
                        Tomaz  Kim

segunda-feira, maio 16, 2016

CANÇÃO VERDE

A minha canção é verde
Sempre de verde a cantei!
De verde cantei ao povo
E fui de verde vestido
Cantar à mesa do Rei!
     
Porque foi verde o meu canto?
Porque foi verde?
                 __Não sei ...
     
Verde, verde, verde, verde,
Verde, verde, em vão cantei!
__Lindo moço! disse o Povo.
__Verde moço! disse El-rei.
     
Porque me chamaram verde?
Porque foi? Porquê?
            __Não sei ... 
     
Tive um amor __ Triste sina!
Amar é perder alguém ...
Desde então ficou mais verde
Tudo em mim: a voz, o olhar,
Cada passo, cada beijo ...
E o meu coração também!
     
Coração! porque és tão verde?
Porque és verde assim também?
     
Deu-me a vida, além do luto,
Amor à margem da lei ...
Amigos são inimigos!
__Paga-me! gritaram todos.
Só eu de verde fiquei.
     
Porque fiquei eu de verde?
Porque foi isto?
                __Não sei ...
     
A minha canção é verde
__Canção à margem da lei ...
Verde, ingénua, verde e moça,
Como a voz desta canção
Que, por meu mal vos cantei ...
     
A minha canção é verde,
Verde, verde, verde, verde ...
Mas ... porque é verde?
                  __Não sei ...
     
            Pedro Homem de Melo  

terça-feira, maio 03, 2016

NA ERMIDA

_«Senhora, ouve o meu brado, escuta o meu lamento
E salva o meu marido, o pai dos meus filhinhos !»
     Responde sibilante o assoviar do vento,
     E das ondas o choque, em fundos torvelinhos.
    
_«Senhora do Refúgio, ó mãe do Livramento,
Traz-nos o nosso pão,  dá-nos os seus carinhos !»
     Responde da gaivota o guinchar agoirento
     Soam na lagem fria uns passos miudinhos...
    
Há três dias que reza e a mesma raiva expele
A voz do temporal. E a onda embravecida
Salpica irreverente a negra cruz da Ermida.
    
E a criança que chega, a face descomposta,
Diz-lhe a chorar: «Ó mãe não rezes mais por ele
Que o mar vem de lançá-lo agora mesmo à costa».
     
                 João Correia Ribeiro

domingo, maio 01, 2016

MAIO

Deslumbrantes as campinas
Nos seus adornos floridos
Em que brilham as boninas
Os malmequer's e os suspiros !
     
Nos jardins, tudo alegria !
Muita rosa a rescender !
Tudo encanta e enebria 
Da Natureza o prazer !
         
               F. Pinheiro

terça-feira, abril 19, 2016

PERSEGUIÇÃO

O  que eu persigo não me podes dar:
     mas, ao ver-te, vislumbro a minha morte
     de perfil, contra o mar e o vento forte
     naquela tarde em que vieste amar-
     -me solitário, obsessivo e pobre
     
     O que eu persigo, impossível d'alcançar,
     és tu, nesse momento de dizer: «Conheço-te?.
     que tento eternizar a breve transe sobre
    a árvore na alta copa a clarear:
     «Morte, vem a meus braços: eu amo-te. eu amo-te !»
     
     O que eu persigo não se pode nomear:
     perfeitamente espírito em leque
     de cabra do deserto a tropeçar
     no sangue e a morrer de sede a saque
     
                    António Barahona da Fonseca

domingo, abril 10, 2016

CASA ONDE EU NASCI

Era minha esta casa... Eu a conheço...
Janelas amplas... larga porta... a escada
por onde, em pensamento, agora desço
para ir sonhar à sombra da latada.

O laranjal cheiroso, o mato espesso...
o poço onde era a roupa bem lavada.
No pátio, bem no centro, eu não me esqueço,
a amendoeira por meu pai plantada.

Dava guarda ao portão um jasmineiro
que de flor se vestia o ano inteiro
e hoje está triste e velho como eu.

Casa velha! Deixaste de ser minha...
Assim, tudo que amei, tudo que eu tinha,
deixou, há muito tempo, de ser meu!

    
Lilinha Fernandes

sexta-feira, abril 08, 2016

BALADA ...

BALADA AOS OLHOS  AZUIS SIDERAIS DUMA INGLESINHA

____________________________________________

O nevoento céu de Inglaterra
Só traja de outonal melancolia,
__E o céu azul sempar da minha terra,
Nos seus olhos é o céu duma elegia !
     
Quantas saudades,, minha doce inglesa,
Boiam no azul desses seus olhos, quantas !
__Dos seus olhos cheiínhos de tristeza, 
E de resignação, como os dos santos.
     
Sob o oiro casto dos cabelos louros,
Que transparente e humilde olhar, o seu ! 
__Olhos de Cristo, siderais tesouros,
Sois duas gotas límpidas do céu !
     
Cinge o oval, tão clássico e tão puro,
Do seu rosto, uma auréola de perdão...
_E o seu vestido, _sempre o mesmo " _escuro,
Veste de luz também meu coração !
     
Em seus olhos de prece e de veludo
Passam rezas de mágoa e de saudade:
_Queixume vago e doloroso e mudo,
Duma inviolada e estéril mocidade !...
     
Assim humildes como os das crianças,
Dão.me a impressão, seus lindos olhos, Miss:
De serem viuvinhos de esperanças,
Olhar que só p'ra  não choras sorrisse !
     
                      Américo Durão 

 

domingo, abril 03, 2016

NA VÉSPERA ...

É noite velha e triste, por sinal;
Eu v^-lo ao varandim que dá pró mar...
Como se casa bem com o meu mal
A tristeza da noite sem luar !...
     
Eu vê-lo... E fito triste o areal
Que às vezes uma vaga vem beijar :
Beijos de Amor. Mulher, eis o Ideal
Que à natureza eu tenho de invejar !...
     
E como é grande o meu tromento crê.
E como eu sofro ao ver de mim ao pê
Os beijos que o Mar dá cheio de ardor.  
     
É noite sem luar. É noite triste.
Vou partir. Mas que importa se inda existe
Em minha Alma o luar do teu Amor ?
     
                         Salema Vaz

sexta-feira, abril 01, 2016

JORGE DE SENA

JORGE DE SENA

ao Manuel Poppe


Eis-te no porto em que o desejo cessa.

Viveste pouco e no entanto tanto!

O exílio sofre-se só se é promessa

De novo e revisitado canto.

A distância isola. A coragem cansa.

O trabalho, ó teu único repouso!

Há na tua força a ternura mansa

Dos gigantes. Mas como ter o gozo,

A inocência nua de viver-se

Na pátria antiga e fácil da amargura,

Se não há nela espaço p'ra morrer-se

E o nosso canto lá se desfigura?


Eugénio Lisboa

Londres, Fev. 1979

sábado, março 19, 2016

SAUDADES ...

Saudades são gritos d'alma
Perdidos nas serranias
 Em busca d'almas errantes
Durante noites e dias.
     
Saudades são amarguras
No peito bem reprimidas,
São mágoas sempre lembradas.
Tristezas nunca esquecidas.
     
Saudades ternos lamentos,
D'um peito amargurado,
Sente-as na vida quem tem
Ausente o seu bem amado.
     
Saudades, espinhos agudos
Cravados no coração
De quem se deixou domar
De forte amor por paixão.
     
São como fundos suspiros
Que andam por vales, soando,
São como doces tormentos
De quem só vive sonhando !
      
        F. Baptista da Graça

quarta-feira, março 09, 2016

SAUDADE

Entristeces se falo na Saudade?!
_Se ela me conquistou e não abdica
do louco coração que a purifica
na mais pura expressão da realidade!...

Usada e abusada em falsidade,
espoliada de quanto significa,
refugiou-se em mim... e pontifica
orgulhosa de tal sinceridade.

É só justiça, crê, falar-te nela,
porquanto essa palavra tão singela
já vê ressuscitado o seu valor...

Na ventura de tal ressurreição,
ela abençoa a força da paixão
na grandeza infinita deste amor.

      
Franklin Marques

terça-feira, março 08, 2016

8 DE MARÇO 2016

“A partir de 1922, o Dia Internacional da Mulher é celebrado oficialmente no dia 8 de Março.

Essa história perdeu-se no registo histórico oficial tanto do movimento socialista, como dos historiadores daquele período. Faz parte do passado histórico e político das mulheres e do movimento feminista de origem socialista do começo do século [XX].

Algumas feministas europeias na década de 70, por não encontrarem referência concreta às operárias têxteis mortas num incêndio em 1857, em Nova York, chegaram a considerá-lo um facto mítico. Mas essa hipótese foi descartada diante de tantos factos e eventos vinculando as origens do Dia Internacional da Mulher às mulheres americanas de esquerda.

Quanto aos elos perdidos dos factos em torno do dia 8 de Março levantam-se várias hipóteses em busca de mais aprofundamento.

É certo que nos EUA, em Nova York, as operárias têxteis já vinham denunciando as condições de vida e trabalho e já faziam greves . Esse momento de organização das trabalhadoras faz parte de todo um processo histórico de transformações sociais que colocaram as mulheres em condições para lutar por direitos, igualdade e autonomia participando no contexto social e político que motivou a criação de um dia de comemoração que simbolizasse as suas lutas, conquistas e necessidade de organização. É preciso, pois, entrelaçar os fios da história deste período.

Por conseguinte, há um relato que precisa de ser verificado nas suas fontes documentais, sintetizado por Gládis Gassen (num texto para as trabalhadoras rurais da FETAG), que nos indica que em Março de 1911, dezoito dias após o Dia da Mulher, e não em 1857, "numa mal ventilada fábrica de têxteis que ocupava os 3 últimos andares de um edifício de 10, na Triangle Schirwaist Company, em New York, estalou um incêndio que envolveu 500 mulheres - jovens, judias e imigrantes italianas - que trabalhavam em condições precárias, com o assoalho coberto de materiais e resíduos inflamáveis, o lixo amontoado por todas a parte, sem saídas em caso de incêndio, nem mangueiras para água... Para impedir a interrupção do trabalho, a empresa trancava à chave a porta de acesso à saída.

Quando os bombeiros finalmente conseguiram chegar aos andares onde estavam as mulheres, 147 já tinham morrido, carbonizadas ou estateladas na calçada da rua, para onde se atiraram em desespero. Após esta tragédia criou-se em Nova Iorque a Comissão Investigadora de Fábricas que já tinha sido solicitada há 50 anos! Foi assim que se iniciou a história da legislação de protecção da vida e da saúde. A líder sindical Rosa Schiederman organizou a presença de 120 mil trabalhadoras no funeral daquelas operárias para expressarem o seu lamento e declararem solidariedade para com todas as mulheres trabalhadoras".

Assim, embora seja necessário continuar a procurar memórias perdidas, é certo que todo um ciclo de lutas, numa era de grandes transformações sociais até às primeiras décadas do século XX, tornaram o Dia Internacional da Mulher um símbolo da participação activa das mulheres para transformarem a sua condição e a transformarem a sociedade.

Celebramos então, anualmente, tal como as nossas antecessoras o fizeram, as nossas iniciativas e conquistas, fazendo o balanço das nossas lutas e actualizando a nossa agenda de lutas pela igualdade entre homens e mulheres e por um mundo onde todos e todas possam viver com plenamente e com dignidade.

(Extractos de um artigo de SOF - Sempreviva Organização Feminista )





Passaram cem anos desde que Clara Zetkin propôs o dia 8 de Março como Dia Internacional da Mulher,



aquando da II Conferência Internacional de Mulheres Socialistas.


Clara Zetkin

(1857-1933)

terça-feira, março 01, 2016

AO MEU CÃO

Deixei-te só, à hora de morrer.
Não percebi o desabrigado apelo dos teus olhos
Humanismos, suaves, sábios, cheios de aceitação
De tudo... e apesar disso, sem o pedir, tentando
Insinuar que eu ficasse perto,
Que, se me fosse, a mesma era a tua gratidão.
     
     
Não percebi a evidência de que ias morrer
E gostavas da minha companhia por uma noite,
Que te seria tão doce a minha simples presença
Só umas horas, poucas.
Não percebi, por minha grosseira incompreensão,
Não percebi, por tua mansidão e humildade,
Que já tinhas perdoado tudo à vida
E começavas a debater-te na maior angústia, a debater-te com a morte.
E deixei-te só, à beira da agonia, tão aflito, tão só e sossegado.
      
                                    Cristovam Pavia

quinta-feira, fevereiro 25, 2016

VILANCETE

Bem vês ... amor e ventura
Só existe, por desgraça,
Na lei da hora que passa.
     
Mal existe hora presente,
Porque sendo hora chegada
Fica logo hora passada,
Na saudade que pressente...
Hora perdida, apagada,
Que no tempo se espedaça...
Hora breve, hora que passa !...
     
Mal existe hora presente,
Por isso amor ou ventura
Tão pouco persiste e dura...
E por isso é mais ardente
Aquela estranha tortura
E mais forte aquela graça 
Que está na hora que passa !...
     
Mal existe hora presente,
Hora de amor, de alegria;
Mal existe cada dia
Que outro dia nos desmente !...
_E o que esta hora nos cria,
Que outra hora nos desfaça,
É lei da hora que passa !
     
              Maria de Carvalho

terça-feira, fevereiro 16, 2016

CERTA VOZ NA NOITE, RUIVAMENTE

Esquivo sortilégio o dessa voz, opiada
Em sons cor de amaranto, às noites de incerteza,
Que eu lembro não sei de Onde _ a voz duma Pricesa
Bailando meia nua entre clarões de Espada .

     
Leonina, ela arremessa a carne arroxeada;
E bebeda de Si, arfante de Beleza,
Acera oa seios nus, descobre o sexo... Reza
O espasmo que a estrebucha em Alma copulada...
     
Entanto nunca a vi mesmo em visão. Somente
A sua voz a fulcra ao meu lembrar-me. Assim
Não lhe desejo a carne _ a carne inexistente...
     
É só voz-em-cio a bailarina astral _
E nessa voz-Estátua, ah! nessa voz-total,,
É que eu sonho esvair-me em vícios de marfim...
     
                    Mário de Sá-Carneiro
                18//05/1890 _ 26/05/1916    

segunda-feira, fevereiro 01, 2016

IMPOSSÍVEL DESCRIÇÃO

Entre as vigas duma sala,
ou entre o céu e a terra?
     
A dimensão que me encerra,
nunca sei qualificá-la.
     
Sei que, por vezes, me ausento
para algum furtivo mal:
inseguro pedestal
onde, aos poucos, eu me invento.
     
E se cada espelho me retrata
duma forma diferente
não me levem a nenhum psiquiatra;
porque eu não estou doente
nem preciso da droga que me trata.
     
Se é esse o problema,
não é essa a solução.
Nem me levem ao cinema,
apenas porque estou triste
Este mal do coração
sempre persiste
e insiste.
     
Este mal do coração!
Isto que sinto antes de sentir dor...
Esta pré-dorida sensação
de cesuras, ritmo, rima,
música, dança. folclore...
e esta fúria suprema
do momento criador.
     
Entre as vigas duma sala,
ou entre o céu e a terra?
     
A dimensão que me encerra,
nunca sei qualificá-la.
     
          Fernanda Botelho    
 

sábado, janeiro 02, 2016

SOU EU

Sou alma, a poetisa d'alma misteriosa,
Sou a chuva que beija os telhados,
Sou o confessionário que lava os pecados,
Sou a boca rubra que se fechou silenciosa !
     
Não sabes quem sou, lágrima sequiosa !
Sou o bálsamo em cofres velados !...
Sou as tábuas velhas dos caixões chorados !
Sou enfeites áureos da alma dolorosa !
     
Sou o corpo frio da morte em tassalhos !
Sou o doce das quimeras, vivo além...
Sou toda asas, que dormem nos galhos !
      
Sou quem? Quem sou? Não sei, mas sou alguém !
Sou a que não vês, que dorme nos borralhos !
Sou eu... a mendiga... não sou ninguém !
      
            São Torres de Amorim

segunda-feira, dezembro 21, 2015

PAISAGEM DE INVERNO

Que queres que te diga da paisagem
Donde te escrevo! Meu saudoso amigo,
Tanto disseste que aprendi contigo
A só ver nela a minha própria imagem.

_O mar está bravo; a vinha nua; o trigo
É só esperança. Ríspido e selvagem
O pinhal sustenta com coragem
O seu pesado e verde luto antigo.

Ó minha irmã fecunda e desgraçada!
Já não há sol nem coração que te ame,
Chora no mar a voz dos temporais!

_Oiço daqui a tua voz pausada:
"Há-de haver sempre, em frente ao mar que brame,
A pacífica orquestra dos pinhais."
Sílvio Rebelo

domingo, novembro 29, 2015

À ESPERA

Casinha branca, ao centro da paisagem,
Que em montes azulados se remata;
O Vouga ao fundo, em múrmure cascata,
Passa beijando a trémula folhagem...
     
Foi nessa reniotíssma paragem,
Que ouvi do berço a matinal volata...
_Nesga do céu, que a mente me arrebata!
_Terra santa de fulgida miragem!...
     
Lá me esperas, ó Mãe! doce velhina,
Que por mim rezas, suplice, à tardinha,
Lançando à estrada o olhar angustiado...
     
Santa! Eu só peço a última ventura,
De repousar, em rasa sepultura,
Junto da tua, _à beira do valado!
     
                            Albino Costa  (Guimarães?)

 
 

terça-feira, novembro 17, 2015

ABDICAÇÃO

A paz que tenho, dela abdico:
não satisfaz a minha ânsia.
__Só a distância 
me faz rico.
     
Que importam velas, catedrais
para o meu sonho de partir?
__Sou longe e mais
só com sorrir.
     
Lírios, amores, cavalos-de-pasta,
também os teve a minha infância.
__Só a distância
hoje me basta.
     
                    Daniel Filipe

domingo, novembro 01, 2015

NOVEMBRO

Fizemos o magusto na charneca
Onde o mato começa; tarde fria,
Castanhas, belo vinho na caneca,
Lume experto, excelente companhia,
Bom apetite e sede, como a breca.
          A primeira saúde quem a fez
          Foi o prior, com frases em latim;
          Houve depois mais duas ou mais três,
          Toda a roda correram, e por fim
          Chegou, naturalmente, a minha vez.
Na caneca peguei; mas como penso
A toda a hora em ti, que me acompanhas,
Fui obrigado a recorrer ao lenço:
Não sei se me engasgaram as castanhas
Ou se a lembrança d'este amor imenso.
          
                  Acácio de Paiva

domingo, outubro 18, 2015

CANTAR DE AMIGO

Bailada, bailia
que eu já sei bailar.
E agora só queria
aprender a amar.
   
Ao entrar na roda,
soltou-se-me a liga.
E agora há quem diga
que não foi na roda.
     
Bailada, bailia
que eu já sei bailar.
E agora só queria,
mas não posso, amar.
     
     Fernanda Botelho

quarta-feira, outubro 14, 2015

VÉU

Somos seres oblíquos,
tementes da luz
que não seja reflexo.
Por isso a Beleza é para nós
antes o véu de sombra em que se oculta.
    
      
Anderson Braga Horta

quinta-feira, outubro 01, 2015

NO SILÊNCIO MONACAL

Eis, no silêncio monacal, um frémito
De borboletas... Lá de longe em longe,
Sobre a encantada placidez do tanque,
Serenamente caem gotas de água.
     
Ah! Não podermos suspender o tempo
E conservá-lo, como o fino orvalho
Imóvel neste cálice de rosa...
Ah! Não podermos suspender a vida!
     
Seremos como as estátuas sombrias
Que ficaram, nos cantos dos jardins,
Ou como as altas torres onde, a espaços,
Voam morcegos, ao morrer do sol!
     
Eis, no silêncio monacal, um frémito
De borboletas... Como é noite já!
De velha, a água enruga-se num poço...
Tomba do cális, sobre a terra, o orvalho.
     
       João Cabral do Nascimento

 

domingo, setembro 13, 2015

CABEDELO

Esbranquiçado réptil,
adiantava a língua rugosa,
a secar a saliva das ondas.
     
Dos embarcadiços de Falmouth que
morriam a bordo,
alimentava-se-lhe a sede de progredir.
     
E formava a garganta dos naufrágios,
e embebia-se da garrafa de gin,
no bolso das calças dos herejes que,
em seus lençóis,
alcançavam o repouso dos guinchos das gaivotas.
     
                         Mário Cláudio

terça-feira, setembro 01, 2015

FEIA

Achas-te feia ! O porquê
nem talvez saibas dizer...
não julga assim quem te vê
embora sem to dizer.
Teus olhos são como tantos,
fontes de amor e desvelos;
há neles iguais encantos
como nos olhos mais belos.
    
Na tua boca, o sorriso,
como um divino condão,
temtodo o jeito preciso
de prender um coração.
Há nos teu lábios, desejos,
como os possa ter qualquer,
origens de muitos beijos
como em lábios de mulher.
    
Achas-te feia !  O motivo
anda fora da razão...
e nesse desgosto vivo
laceras teu coração.
Que de mágoa definida
se possa sofrer ? Vá lá...
As penas são desta vida.
Mas penas assim não há...
    
São os gostos variados
a definir a beleza.
Ai de ti !  Que os teus cuidados
são talvez de uma incerteza...
Não há bela sem senão
por mais linda que se creia,
nem feia sem atracção
porque é difícil ser feia !
    
                Eurico Neves

domingo, agosto 09, 2015

POENTE

Apartava-se o sol da terra com um beijo,
Derradeiro acenar de amarga nostalgia...
Do vivido astro-rei a pálida agonia,
Vibrava, ao fenecer, a mágoa dum harpejo... 
     
Fundiam-se no campo as tintas do festejo
Verde-rubro da terra, em horas de alegria...
E engolfando-se ao longe, a luz desaparecia 
Da vetustez em pó da «casa de azulejos»... 
     
Momentos de harmonia!... Incerta, uma penumbra 
De brilho fulvo-rosa apenas se vislumbra,
Mas adensa-se já, volita mansamente...
     
E a chegada da noite a soluçar tristezas,
Às almas juvenis, candeias sempre acesas,
Segreda as orações etéreas, longamente...
     
                                       «EURÍPEDES»

sábado, agosto 01, 2015

MANHÃ

Oh, a frescura intensa da manhã,
Batendo, lado a lado, toda a estrada ! 
_Inda há pouco apanhei uma braçada
De alfazema florida, ingénua e sã...
     
Abre no céu, a fulgida romã
Que em beijos de oiro se desfaz, cansada,
Oh, como eu sinto agora remoçada
A minha fé tranquila de cristã...
     
Nos silvados despontam as amoras,
Começa, ao longe, a vibração das noras
Todo o campo se alegra e se ilumina !
    
Passam pardais a grazinar em bando,
Um rebanho, um pastor, de quando em quando,
_E cheira a mato, a frutos, a resina...
     
       Virgínia Vitorino