Sábado, Junho 15, 2013

POSTERIDADE


«Vede, Ninfas, que engenhos de Senhores,
O vosso Tejo cria, valoroso,
Que assi sabem prezar com tais favores»
Luís de Camões

_Mundano a quem favores o mundo tem,
Que breve é a tua glória. Por final,
Teu festejado corpo de mortal,
Em silêncio, co'a terra ajusta bem!

Humano deserdado em todo o bem,
Que não no génio teu, em que um caudal
De Amor, de altura, de ânsia, de ideal,
Favores de eternidade já contém!

Diversos andais, nas voltas do destino!
Aquele a quem o mundo entoa um hino,
Ao mundo o cala o baque dum caixão;

Aquele a quem a terra não merece,
O Porvir, juiz justo, o enaltece
E a clara voz lhe atende por lição.
Maria Antonieta Fernandes
Correio do Ribatejo, pag. 12, de 12/06/1998

Quinta-feira, Junho 13, 2013

QUERO

Quero viver daquilo que viveres;
quero chorar por tudo que chorares;
quero adorar aquilo que adorares;
quero sofrer por tudo o que sofreres.

Só hei-de crer naquilo que tu creres;
quero invejar sòmente o que invejares;
quero aspirar a tudo a que aspirares
e só descrer daquilo que descreres.

Quero mentir em tudo o que mentires;
quero sentir, amor, o que sentires;
sermos, num só, dois corpos _ tu e eu.

Só nos separa um nada que persiste:
_Esta minha ilusão que ainda existe,
e a tua que de há muito já morreu!

Armando Soares Imaginário

Segunda-feira, Junho 10, 2013

INVOCACION Y ODA A LUIS DE CAMOENS

Ven, Luis de Camoens, ven a España
__a este ardiente jardín__
y háblamos en tu claro verso,
cuéntanos las palavras de Manrique
__ que tan bien conocías__, muéstranos
«lo bien que suena el verso castellano»,
lo bien que suena junto al portugués.

Hablanos de Ben Sara de Santarén
__que tú no conocías, pero ya te ha leído
el otro mundo__,  de la niña e moza
que hunde los pies en las arenas de oro
de la playa inmortal; cuenta del Diego
al que Sá de Miranda convirtió
en rio en castellano. (Por la noche
llueven tus rimas y tus versos crecen
en mi memoria __ y miro al mar,
ya dentro de mi alma.) Háblamos tú
de la nave Catarineta,
del amor que en tu isla mágica
dieron las ninfas a los navegantes,
de los naifragios en el mar común
(que amasaron dos mundos)
y la luz derrotada en tierra,
y luego en claridad más señalado
resplendor. (No habrá nieve
que cuaje en las llanuras ni en los montes,
ni en las selvas y sotos, de tus cantos,
cuando, de noche, su ramaje
me ofrece los dorados
frutos, ni Babilonia
cuyas lágrimas sequen tu recuerdo.)

Ven callando, Camoens,
pedazo del alma común, arcilla
de la alcarraza en la que todos
bebemos sin mirar al agua;
Camoens,
que «entre los verdes árboles de agora
[estás] apacentando la memoria».

Angel Crespo Pérez de Madrid
  

Sábado, Junho 01, 2013

NA ALCOVA

Envolta em rendas de alvejante linho,
N'aquele ambiente calmo e perfumado,
Desfeita a trança, o corpo abandonado,
Ela dormita no macio linho.

Beija-lhe o corpo escultural, de arminho,
Do sol, que espreita como um namorado,
Um laivo quente de paixão doirado
E a carne treme ao sensual carinho.

Ondulam rendas sobre o vasto leito,
A estátua vibra já palpita o peito,
Desfaz-se o sol em luminoso pó:

Desperta a flor, enfim e suspirando
O frio leito vê vazio e brando
Enquanto os lábios seus murmuram _ Só !...

Carlos de Pina Machado

Segunda-feira, Maio 27, 2013

O ORFÃO

!Vir ao mundo e não ter mãe!
Percorrer o mundo inteiro
Sem um lábio maternal
Que vos diga _ filho vem!... _
É como se forasteiro
Na própria terra natal.

!E dizer que havendo Deus.
Fonte de imensa piedade,
Há criancinhas sem berço,
E almas sem caridade!

!Ver os lírios das campinas
Todos cheios de alegria,
E tantas mãos pequeninas
Sem o pão de cada dia!

Ser orfão! !Não ter na vida
Aquilo que todos têm!
É como a ave sem ninho...
É qual semente perdida
Que, ao voltar do seu eirado,
O lavrador descuidado
Deixou tombar no caminho.
Guerra Junqueiro

Segunda-feira, Maio 20, 2013

O GOSTO DO QUOTIDIANO BURGUÊS

O louro chá no bule fumegando
De Mandarins e Brâmanes cercado;
Brilhante açucar em torrões cortado;
O leite na caneca branquejando;

Vermelhas brasas alvo pão tostando;
Ruiva manteiga em prato mui lavado;
O gado feminino rebanhado,
E o pisco Ganimedes apalpando;

A ponto a mesa está de enxaropar-nos,
Só falta que tu queiras, meu Sarmento,
Com teus discretos ditos alegrar-nos.

Se vens, ou caia chuva, ou brame o vento,
Não pode a longa noite enfastiar-nos,
Antes tudo será contentamento.


Pedro António Correia Garção

Terça-feira, Maio 14, 2013

MANIAS !


O mundo é velha cena ensaguentada,
Coberta de remendos, picaresca;
A vida é chula farsa assobiada,
Ou selvagem tragédia romanesca.

Eu sei um bom rapaz, __ hoje uma ossada, __
Que amava certa dama pedantesca,
Perversíssima, esquálida e chagada,
Mas cheia de jactância quixotesca.

Aos domingos a deia já rugosa,
Concedia-lhe o braço, com preguiça,
E o dengue, em atitude receosa,

Na sujeição canina mais submissa,
Levava na tremenda mão nervosa,
O livro com que a amante ia ouvir missa!
Cesário Verde






1855 _ 1886

Quarta-feira, Maio 01, 2013

CAVADOR

Há qualquer coisa de sublime e grande
No compasso erguer do cavador,
Corpo e enxada _ um todo de vigor
Que força hercúlea conjugada expande.

Para que a terra a seu contento ande,
De sol a sol se estende o seu labor,
Rega, a de fronte honrada, o seu suor...
Bem merecida messe! Deus lha mande!

Brilha, em mão de guerreiro, a fina espada
Mas sabe que, da lâmina afiada
Sairá sangue, morte, pranto, dor...

Polida, p'lo trabalho só esforçada,
Instrumento de vida, és dura enxada,
Arma de paz, nas mãos do cavador!

Maria Antonieta Fernandes

Correio do Ribatejo, pag. 7, 8/5/1998

Quinta-feira, Abril 25, 2013

CÃZOADA

Quando um cão é bem dentado,
não há ossos que o aturem!

Duarte Arsénio

Chiado Editora

Nota: A apresentação deste livro "VERSUS INTEMPORAIS"
           foi efectuada a 25 de Abril 2013 na CARREGUEIRA,
           concelho da Chamusca

Terça-feira, Abril 16, 2013

A FAMILIA

Tal como a planta que nos vem da terra
E que no ar se expande e frutifica,
Tal como a onda que tal força encerra
E quando beija a areia, ramifica,

Tal como o pólen que na terra cai
E que em frutos e flores se desenrola,
Tal como a chuva que do céu se esvai
E tudo reverdece e tudo enflora,

Tal como o Sol que traí o brilho ao mundo
E enche o mundo de luz e alegria,
E canta e ri e vibra em tom jocundo,
Assim a vida, assim é a família,

Assim a vida, assim é a família,
Que se expande com amor profundo
Porque a sublima, exalta, ampara e guia.


 Anália Torres

Quinta-feira, Abril 11, 2013

O CANTO DOS CISNES...

Dizem que os cisnes cantam,
Só cantam para morrer...
Mas uma vez... outros cisnes
Cantaram para viver.

Foi num lago de águas mansas,
Águas puras, cristalinas...
Deslizaram como esp'ranças
Envoltas pelas neblinas.

Caprichos de amor são tantos,
Quem os pode compreender!...
Esta voz dos cisnes brancos
Ninguém a sabe entender!...

Em silêncio, mergulharam...
__Meu coração era o lago__
Como nuvens debandaram
Na aragem do meu afago.

Cisnes brancos __ lago azul,
Porque azul é a cor do Céu...
A brisa que vem do Sul
Tudo, em redor, envolveu.

Uma Princesa formosa
No lago se debruçou...
Logo o perfil duma rosa
Na água se desenhou.

Lago azul, parece um manto
Que tomaste a cor do Céu...
Ò cisnes __ o seu encanto
Até vos emudeceu!

Um sonho vi despertar
Nascido da esbelta flor...
Dois cisnes a deslizar
Felizes no seu amor.

Dizem-me que os cisnes cantam,
Só cantam para morrer...
Os meus cisnes quando cantam,
Só cantam para viver.

Os cisnes eram teus pés,
O lago __ meu coração...
Ninguém sabe quem tu és,
Princesa desta canção.

Não digam que os cisnes cantam
Num adeus para morrer...
Os meus cisnes quando cantam,
Cantam para adormecer!

Rogério Òscar da Mota Correia

Domingo, Março 31, 2013

Poema NO DOMIMGO DE PÁSCOA

No domingo de Páscoa
vi um cego a almoçar num restaurante,
Levava o garfo à boca, e entretanto sorria,
cândidamente,
como só os cegos sabem sorrir.
Comia frango, e ao servir-se do garfo ora trazia
comida nova, ora coisa nenhuma,
ora tendões e peles já antes mastigados,
ora tudo junto,
dependurado de qualquer maneira,
sorrindo sempre, cândidamente.


Eu então levantei-me, e assim mesmo,
de sapatos castanhos,
calças e casaco da mesma cor,
alto, magro e bastante calvo,
aproximei-me do cego
e disse-lhe imperativamente:
__Abre os olhos!


Que ridículo!
Uma coisa que só aos deuses pertence.

António Gedeão

Segunda-feira, Março 25, 2013

QUADRAS

Depois que Deus fez o mundo
E o seu destino lhe deu,
Não nasceu virtude nova,
Nem vício novo nasceu.

Foi sempre o mesmo conjunto
De malícias e bondades:
As mesmas boas acções
E as mesmas perversidades.
Fernandes Costa

Terça-feira, Março 19, 2013

NÃO SE CHAMA POESIA

Mentiria se dissesse
Que não tenho companhia.
Mentiria.
Negaria as madrugadas,
Os vultos nos meus ouvidos,
As palavras nos meus olhos,
O esplendor nos meus sentidos.
A rosa que veio alada
De uma inaudível balada,
De um inaudível planeta.
Mentiria se explicasse
O espectro, o búzio, a vertigem.
Vã segurança. O abismo.
O arco de luz, o sismo.
O raio Laser e a seta
Mesmo no meio dos olhos.
A cruz roída que sou:
Os dois troncos sem raiz,
Enterrada em verde relva
Irmã de irmãos sem país.
Unida em cordas de esparto,
Vestida em espinhos de sangue,
Sombria na luz do quarto.
Dentro da terra, volante.
Mentiria se dissesse
Que não tenho companhia.
Mentiria se dissesse
Que se chama Poesia.
Natércia Freire

Segunda-feira, Março 11, 2013

O POETA

Este, de sua vida e sua cruz
Uma canção eterna solta aos ares,
Luís de ouro vazando intensa luz
Por sobre as ondas altas dos vocábulos.

Carlos Drummond de Andrade 

Sexta-feira, Março 08, 2013

BEIJOS

Há beijos ideais e duradouros,
Sublimes, fugazes, penetrantes,
Há beijos que p'ra nós valem tesoiros
E nos fazem lembrar cenas tocantes.

Há beijos inocentes e suaves,
Há beijos venenosos, de traição,
Há beijos brandos como penas d'aves
_São os beijos honestos d'um irmão.

Há beijos singulares, misteriosos,
Amargos e de dor indefinida,
Que recordam momentos bem saudosos
_Os beijos que se dão na despedida.

Mas os beijos d'essência, os mais sagrados,
Que nunca esquecem pela vida além
São os beijos benditos, adorados,
Que nos dá com amor nossa mãe !

Lina X. Castro Soares

Segunda-feira, Fevereiro 25, 2013

A MORTE DE CALAR

As viagens que sou prenderam-se em redomas
Ao corpo das palavras. À morte de calar.
Do alfabeto meu ignoro as cristalinas
Formas de aladas letras nestes versos finais.
São fantasmas de sol. Sãp fantasmas de sede
Que chegam alta noite para nenhum Lugar.
 
Decifro nas entranhas das trevas migradoras,
O solstício da vida além da morte clara.
Mas quem me vem cegar, com setas voadoras,
Nega-me agora a paz das secretas paisagens.
 
Meus Irmãos de astronaves, guiadas por um morto,
Que me esperam e estão, que me cantam e falam,
Que na vazia cruz crucificam meu corpo
E abandonam a flor, mesmo a meio da sala,
à janela rasgada, para as cinzentas águas,
Encostam-me, sem olhos, e deixam-me ficar.
 
Não tenho nada mais a escrever sobre as ondas.
E, mesmo que tivesse, ninguém leria o Mar.
 
Natércia Freire

Terça-feira, Fevereiro 19, 2013

SONETO

Não pode Amor por mais que as falas mude
exprimir quanto pesa ou quanto mede.
Se acasp a comoção falar concede
é tão mesquinho o tom que o desilude.

Busca no rosto a cor que mais o ajude,
magoado parecer aos olhos pede,
pois quando a fala a tudo o mais excede
não pode ser Amor com tal virtude.

Também eu das palavras me arreceio,
também sofro do mal sem saber onde
busque a expressão maior do meu anseio.

E acaso perde, o Amor que a fala esconde,
em verdade, em beleza, em doce enleio?
Olha bem os meus olhos, e responde.

António Gedeão

Domingo, Fevereiro 17, 2013

PEQUENO POEMA

Quando eu nasci,
ficou tudo como estava.

Nem homens cortaram veias,
nem o sol escureceu,
nem houve Estrelas a mais...
Somente,
esquecida das dores,
a minha Mãe sorriu e agradeceu.

Quando eu nasci,
não houve nada de novo
senão eu.

As nuvens não se espantaram,
não enlouqueceu ninguém...

Pra que o dia fosse enorme,
bastava
toda a ternura que olhava
nos olhos de minha Mãe...


Sebastião da Gama

Quarta-feira, Fevereiro 13, 2013

QUANDO AS ROSAS FALAM

Num campo desfolhado me entretenho
A controlar as pétalas das rosas.
Mas perco-me a contar... faço um desenho
Onde ponho mais rosas que essas rosas.

São as que me encantaram... de onde venho,
E as que me esperam... sim, talvez formosas.
E as que deixei na estrada?... Já não tenho!
Mas com certeza são ainda rosas!

Todas elas... que estranho ramalhete!
Onde afundo a cabeça a respirar
O perfume que evoca ilusões.

Escolho uma delas... ponho no corpete
E ela me disse vendo-me chorar:
As rosas também dão desilusões!

Maria José Veiga e Moura

Sexta-feira, Janeiro 25, 2013

MAGNIFICAT

Ai, a vida!
   Quanto mais me magoa, mais a canto.
   Mais exalto este espanto
   De viver.
   Este absurdo humano,
   Quotidiano,
   De um poeta cansado
   De sofrer,
   E a fazer versos como um namorado,
   Sem namorada que lhos queira ler.
    
Cego de luz, e sempre a olhar o sol,
   Num aturdido
   Deslumbramento.
   Cada breve momento
   Recebido
   Como um dom concedido
   Que se não merece.
   Ai, a vida!
   Como dói ser vivida
   E como a própria dor a quer e agradece!

   Miguel  Torga 

Terça-feira, Janeiro 15, 2013

CANÇÕES DO BERÇO

Quem tem meninos pequenos
Por força tem de cantar;
!Quantas vezes a mãe canta
Com vontade de chorar!...

Quem tem meninos pequenos
Alivia a criação:
De dia têm-nos nos braços,
À noite no coração.
Anónimo

Sábado, Janeiro 12, 2013

SARDENTA

Tu, nesse corpo completo,

Ó láctea virgem doirada,

Tens o linfático aspecto

Duma camélia melada.

Cesário Verde


Sexta-feira, Janeiro 04, 2013

"...SÓ OS BURROS ESTÃO DISPOSTOS A SOFRER SEM PROTESTAR !

Acho uma moral ruim
trazer o vulgo enganado:
mandarem fazer assim
e eles fazerem assado.
 
Sou um dos membros malditos
dessa falsa sociedade
que, baseada nos mitos,
pode roubar à vontade.
 
Esses por quem não te interessas
produzem quanto consomes:
vivem das tuas promessas
ganhando o pão que tu comes.
 
Não me dêem mais desgostos
porque sei raciocinar...
Só os burros estão dispostos
a sofrer sem protestar!
 
Esta mascarada enorme
com que o mundo nos aldraba,
dura enquanto o povo dorme,
quando ele acordar, acaba.
 
António Aleixo

Sábado, Dezembro 22, 2012

NATAL

Para os corpos banhar de luz e graça de Deus
Na abóboda dos céus
Fez rutilar o Sol.

Para as almas encher de graça e amor e luz,
Como um doce farol
Deus fez nascer Jesus.
Alfredo da Cunha

Sexta-feira, Dezembro 07, 2012

RETRATO

UM carro de assalto
   carregado de flores
   me chamou com ternura
   o José Saramago.

   Numa época torva
   como é a nossa,
   de honra espezinhada
   e governos de nojo,
   de bandoleiros vis
   a comando dos ricos,
   que nenhum crime trava,
   nenhuma infâmia assusta,
   mas também promissora,
   exaltante e segura,
   de abnegados e isentos
   semeadores singelos
   de abundância e de paz
   ao serviço de todos,
   radiante me sinto,
   nunca desanimado,
   de, como os mais pobres,
   o que como o ganhar,
   com o suor do rosto,
   com o calor dos braços,
   com a dor das ideias,
   com o alor dos actos.
   As mãos crispo, na fúria
   de colher as estrelas,
   que no espaço germinam
   como fartas searas.
   Os olhos fitos lanço,
   f eitos pródigo vento,
   por sobre os vastos campos,
   por entre as nuvens altas.
   Sorvo o aroma da terra,
   sorvo o aroma do estrume,
   sorvo o aroma da água,
   sorvo o aroma do gado,
   numa tentação quente
   de perturbada febre,
   sem deixar de ser eu,
   sossegado e desperto.
   Recordo, minucioso,
   a confiança gasta,
   no ermo do passado
   tenebroso e abjecto,
   em ímpetos fugazes,
   apelos e protestos.

   Um carro de assalto
   carregado de flores
   me chamou com ternura
   o José Saramago.

   Do coração me irrompem
   irrequietas aves,
   frutos estimulantes,
   apaziguantes fontes,
   numa cinfusão doce
   de anseios saciados.
   O menino que fui
   outra vez em mim espreita,
   no começo outra vez
   de uma jornada longa,
   sem egoísmo, sem glória,
   sem atitudes vagas,
   sem perversas reservas,
   sem opiniões amargas.
   Com o tempo perdi-me,
   com o tempo me achei,
   desatento de mim,
   por aos outros atento,
   numa decisão extrema,
   luminosa e inteira,
   do lado mais custoso
  da dura barricada.
   Ergo a voz que é um eco
   de milhões de outras vozes.
   Em milhões de outras iras
   a minha ira ferve.
   Por milhões de outros passos
   o passo rude acerto.
   Não há ódio tão forte
   que em nós possa deter
   a força da razão
   das razões que nos movem.
   Cala-te, desalento,
   que a nossa pátria buscas
   transformar em hostil,
   transformar em deserto.
   Já basta de mentira,
   a verdade ocultando.
   Já basta de injustiça,
   de justiça fingindo.
   Já basta de riqueza,
   à miséria extorquida.
   Soou em nós a hora
   da decisão exacta.

   Um carro de assalto
   carregado de flores
   me chamou com ternura
   o José Saramago.

          Armindo José Rodrigues


 

Segunda-feira, Dezembro 03, 2012

O NADA QUE É

O  canavial tem a extensão
   que nenhum metro mede, não
 
   Tem o escancarado de mar
   que está como a dasafiar
 
   que números ou seus afins
   possa prendê-los em seus sins.
 
   Ante um canavial a medida
   é uma ideia logo esquecida,
 
   porque embora todo povoado,
   povoa-o o cheio anonimato
 
  que dá esse efeito singular:
  de um nada prenhe, como o mar.
 
João Cabral de Melo Neto

Segunda-feira, Novembro 26, 2012

Á BEIRA DO MONDEGO

Do azul na grande abóboda, espelhada,
campeia a lua e os astros cintilantes;
os pés nas frescas águas murmurantes,
dorme Coimbra triste e sossegada.
 
Há pouco ainda a branda serenada
nos bandolins chorava palpitantes.
Tudo é silêncio agora e dos amantes
não se movem as sombras na calçada.
 
O cais repousa, a riba é solitária,
da ponte nos esguios candeeiros
a luz vacila crepitando vária.
 
Nas curvas lanchas dormem os barqueiros.
O poeta no entanto, o eterno pária,
escuta a voz de Inês entre os salgueiros. 
 
Gonçalves Crespo

Sábado, Novembro 24, 2012

O ROUXINOL

Meigo cantor da espessura
Chora, suspira, enternece,
Porque essa voz que é tão pura
Fala à alma e nunca esquece.
 
Tens segredos na vozita
Que eu não sei descortinar,
Ninguém, ninguém  os imita,
Ninguém sabe assim cantar.
 
Passa o vento segredando
Os seus queixums d'amor
E diz-te baixinho e brando
_ Adeus, ó triste cantor! _
 
E tu no denso das franças
Em tristes modulações,
Escarneces as esp'ranças
Dos ingénuos corações.
 
Como um orfão desvalido
Que teve prazer jamais
Passas a vida escondido
A desferir tristes ais.
 
Rouxinol, os teus queixumes
Não são mais tristes que os meus
Eu não te tenho ciúmes,
Sou triste, graças a Deus.
 
O meu coração desfeito,
Pelos prantos, pelos ais,
Soluça dentro do peito
Como tu seus madrigais.
 
Por irmã tenho a desgraça
E por amante o luar;
Sorri a brisa que passa
Mas eu só lhe sei chorar.
 
E meus prantos mais sentidos
Feitos de mágoas e dor
São por ti bem conhecidos
Oh desditoso cantor.
 
Ambos tristes, desgraçados,
Ambos gémeos na desdita
Não temos mais que cuidados
N'esta vida tão aflita.
 
Sigamos na romaria,
Da desgraça, ó rouxinol,
Eu chorarei todo o dia,
Tu de noite, ao pôr do sol.
 
Cypriano Nunes Barata

Sábado, Novembro 17, 2012

DE HEINE

Tu tens na face o estio;
O inverno, no coração;
No peito _ a estação do frio
Na face _ a amena estação.

Mas não tarda que isto passe,
Mudada serás... e então,
O inverno terás na face,
Terás no peito o verão.

Ricardo Gonçalves