segunda-feira, Outubro 20, 2014

CANTIGA

Deixa-te estar na minha vida
Como um navio sobre o mar.

Se o vento sopra e rasga as velas
E a noite é gélida e comprida
E a voz ecoa das procelas,
Deixa-te estar na minha vida.

Se erguem as ondas mãos de espuma
Aos céus, em cólera incontida,
E o ar se tolda e cresce a bruma,
Deixa-te estar na minha vida.

À praia, um dia, erma e esquecida,
Hei, com amor, de te levar.
Deixa-te estar na minha vida.
Como um navio sobre o mar.


João Cabral do Nascimento
         1887-1978

 https://www.youtube.com/watch?v=SLiuvoA2gGM

quinta-feira, Outubro 16, 2014

XÍCARA conjunto musical

                    A M O R

Amor é um arder que se não sente;
É ferida que dói, e não tem cura;
É febre, que no peito faz secura;
É mal, que as forças tira de repente.

É fogo, que consome ocultamente;
É dor, que mortifica a Criatura;
É ânsia, a mais cruel e a mais impura;
É frágoa, que devora o fogo ardente.

É um triste penar entre lamentos;
É um não acabar sempre penando;
É um andar metido em mil tormentos.

É suspiros lançar de quando em quando;
É quem me causa eternos sentimentos.
É quem me mata e vida me está dando.


                Abade de Jazente
                    1719-1789  

quarta-feira, Outubro 15, 2014

LEONOR

A Leonor continua descalça,
o que sempre lhe deu certa graça.

Pelo menos não cheira a chulé
e tem nuvem de pó sobre ò pé.

Digam lá se as madames do Alvor
são tão lindas como esta Leonor

Um filhito ranhoso na mão,
uma ideia já podre no pão.

Meia dúzia de sonhos partidos,
a seus pés, como cacos de vidros.

Digam lá se as madames do Alvor
são tão lindas como esta Leonor.
      
         António Magalhães Cabral 
                 1931-2007
     
 

domingo, Outubro 12, 2014

DESENCANTADA

Não quero ver-te mais. De que servia ?
Bem sabes que na vida nada dura.
Se vivemos uma hora de alegria,
Temos depois imensas de amargura.
     
Como às vezes, após um lindo dia,
Segue a noite, tenebrosa, escura,
Atrás dum grande Bem que nos sorria
Vem quase sempre a dor, a desventura.
     
Eu sei que o teu amor há-de acabar,
Que as flores que me deste hão de murchar ...
A vida é toda um sonho, uma ilusão !...
     
Nada resiste ao tempo. E, na verdade,
A maior, a melhor felicidade
É sempre aquela que se espera em vão.
     
                               Maria de Melo


quinta-feira, Outubro 09, 2014

DISPO

Cerco e troco
escrevo e ponho.
     
Levanto a saia e o subido
mostra a bainha do corpo
descubro o nu, no vestido.
     
Perpasso as mãos
nas penumbras
desacato o que é restrito.
     
Disponho do proibido
permito        dispo
desdigo.
     
Caminho pelo prazer
que sempre afirmo
e prossigo.
      
      Maria Teresa Horta  

quarta-feira, Outubro 08, 2014

CONFIANÇA

Canta e procura dar à voz honesta
Uma força de pena ou de alegria.
Espera. Crê. Resigna-te. Confia.
Deixa de ver na vida a dor funesta.
    
Ama quem te quer mal, quem te detesta,
E,  no abandono duma tarde fria,
Goza a volúpia estranha da agonia.
Duma rubra agonia cor de festa.
    
Empresta ao teu destino incerto e vago
O ritmo quieto dum mansinho lago,
Onde se espelha a paz e a esperança.
    
Pensa que Deus criou para teu gôsto,
O sol, o fogo, o mar, um sonho, um rosto,
Algum riso inocente de criança.
    
           Maria Antónia Teixeira (filha)

domingo, Outubro 05, 2014

MINHAS ASAS DE CONDOR

'A ESQUINA DA VIDA'

MINHAS ASAS DE CONDOR


Minhas asas de condor
tinham sol no coração
de um suspiro de uma flor
eu compunha uma canção

Cada beijo imaginado
meigo gesto, brando olhar
era poema bordado
de branca espuma do mar

Poentes de fogo amava
e em sonhos, cada mulher
era um anjo que eu cantava
que eu amava sem saber

Desilusões que sofri !
Dos anjos que resta agora ?
Sós os versos que escrevi
e não soube deitar fora

Agora versos não faço
chegam mais longe os meus passos
quem pode abrir o espaço
não deixa amarrar os braços

Um poema é todo o dia
desde que eu te conheci
e algum poema diria
tudo o que sinto por ti ?

Não, versos não faço mais
pus neles ponto final
p'ra quê buscar ideais
se és tu o meu ideal ?

Quando juntinho sonhamos
e nos beijamos... depois
que outra coisa precisamos
se o Mundo somos nós dois ?

Não há versos nem desejos
no sol da nossa alegria
Os poemas? são teus beijos
Nossos abraços __ poesia

Perdoai pois meu amor
se o poeta adormeceu,
há lá poema maior
que a filha que Deus nos deu?

.
Zacarias Mamede

quarta-feira, Outubro 01, 2014

ARMA SECRETA

Tenho uma arma secreta
ao serviço das nações.
Não tem carga nem espoleta
mas dispara em linha recta
mais longe que os foguetões.

Não é Júpiter, nem Thor,
nem Snark ou outros que tais.
É coisa muito melhor
que todo o vasto teor
dos Cabos Canaverais.

A potência destinada
às rotações da turbina
não vem da nafta queimada,
nem é de água-oxigenada
nem de ergóis de furalina.

Erecta, na torre erguida,
em alerta permanente,
espera o sinal da partida.
Podia chamar-se VIDA.
Chama-se AMOR, simplesmente.

                 António Gedeão

quinta-feira, Setembro 25, 2014

SONETO

Fere igualmente Amor o rico, e o pobre,
o moço, o velho, em fim tudo sujeita;
e, às vezes onde menos se suspeita,
arde mais vivo quanto mais se encobre.

Faz que um herói ao seu poder se dobre,
que desvarie um sábio; e não respeita
nem da cabana a esfera mais estreita,
nem do palácio o resplendor mais nobre.

Nem dentro dos grilhões de uma clausura
contra os tiros cruéis do aventureiro,
encontra fraco abrigo a formosura.

Rompe pelo impossível derradeiro;
combate as honras, a virtude apura;
e alista por vassalo o mundo inteiro.
 

     
Sanches de Frias

terça-feira, Setembro 23, 2014

SÓ PARA TI

Eu fui uma ilusão que tu criaste
e um sonho vão ... aquele em que mentiste;
eu fui o casto amor que não sentiste;
um pouco dessa vida que queimaste ...
     
Eu fui alguma coisa que olvidaste;
talvez fosse o remorso a que fugiste;
eu fui Presente e sou Passado triste;
eu fui só teu e sou quem tu deixaste ...
      
Tu és p'ra mim aquilo que ficou
dum sonho, que iludido se sonhou,
sem ter dum tal sonhar o sentimento.
     
Tu és p'ra mim o céu que escureceu ...
Tu és o quente sol que se escondeu
p'ra sempre, no sol-pôr do esquecimento !
      
                    Armando Soares Imaginário

segunda-feira, Setembro 22, 2014

FOLHAS CAÍDAS (Outono)

Outono de nostálgica saudade...
A tarde vai morrendo lentamente
nos braços sensuais do sol poente,
num facho de pujante claridade.

Meu Outono romântico, ansiedade
das almas a voar eternamente
na fantasia louca do presente,
numa falsa visão da realidade!

Minhas crenças num sopro desfolhaste,
como as folhas dos ramos sacudidas,
que ao passar desabrido, assim levaste.

Uma só me ficou, de alto valor,
mais firme do que as outras desprendidas:
a crença, minha Mãe, no teu amor!


Georgina Cardoso dos Santos

domingo, Setembro 21, 2014

PEDRO TAMEN

Tendo chegado ao fim da rua, vês de longe
que o princípio da rua não existe. O que tu vês
não é calçada ou casa, sequer esquina,
o que tu vês não é alegre ou triste,
o que tu vês arrasa os próprios olhos
porque os vês vazios.
     
E apenas há quem julgue que chegaste
porque pesas um peso que soltaste
pelo caminho por onde nunca andaste.
    
             Pedro Tamen

quinta-feira, Setembro 18, 2014

NÃO IMPORTA SABER

foi o sol na brancura do teu rosto ?
foi o vento do sul nos teus cabelos ?
    
foi o rebanho dos meus dedos frios
perdido entre as dunas do teu peito ?
    
apenas isso ou, vagarosa, a mão
subindo na desordem dos joelhos ?
    
foi outra vez a chuva no verão ?
foi, no lugar da mão, a tua boca ?
    
                     Miguel de Castro

terça-feira, Setembro 16, 2014

A PORTA FECHADA

Ninguém me convidou. Errei o meu caminho.
Agora que não sei regressar donde vim
deixo-me estar à espera a escutar sozinho
a música de um amor que não é para mim.
    
Estou aqui por engano, alguém vai descobrir
o embuste grosseiro que me serve de lar.
Estou à espera de quê?  Talvez seja o primeiro
a perder um caminho que não tinha lugar.
    
As palavras são outras, foi trocada a viagem.
Conheci a pobreza e paguei com poesia.
Mas alguém perguntou e eu não tinha passagem:
clandestino fiquei nesta sala vazia.
   
Ninguém me convidou. Errei o meu caminho.
Agora que não sei regressar donde vim
a música das esferas faz-me cantar sozinho
e este amor que não sei fez-se sombra de mim.
 
Luís Filipe Castro Mendes

sábado, Setembro 13, 2014

ESCOPO

A verdadeira roupa
__não a que foi
emprestada ao acaso
do tempo.
    
A verdadeira fala
__não a que aprendi
a revelar-me sempre
pelo avesso.
    
O verdadeiro ser
__esse que guardo
e nutro de pranto
e assombros.
    
A verdadeira casa
__não a de ontem
a minha, habitada
de escombros.
     
          Lara de Lemos

terça-feira, Setembro 09, 2014

BEM OU MAL

O bem seria escrever
com letras alvas.
Tão claro o tempo passa,
longe, nas aléias do jardim !
     
O bem seria deixar, nas rosas,
enferrujar um esplendor de sangue
ou, na oitava luz da lua,
erguer da face o véu escuro.
    
E o mal ?  _São as pedras,
soltas no caminho, brutas feras,
vigiando em silêncio, vigiando,
se a brisa segue e eu fico
    
sob este céu imenso, sózinha.
    
                  Deborah  Brennand

sábado, Setembro 06, 2014

RETRATO DE UM AMOR ANTIGO COM UM VERSO DE POUND

Deixei o teu retrato na distância
que fizémos crescer de mim a ti,
As vezes, mais ainda que a ausência,
deserto coração do que vivi.
     
me pesam as palavras que não disse,
os gestos suspendidos na memória
como palco de sombras que se abrisse
para mostrar o que não teve história.
    
E ao fundo do retrato mais antigo
o rosto que teremos nós um dia
defronta-nos irónico, num riso
a chamar-nos da morte para a vida.
    
(Até se ouvir no meio do embaraço:
Tua mente e tu sois nosso mar Sargaço)
    
      Luís Filipe Castro Mendes

segunda-feira, Setembro 01, 2014

APOLOGIA DO LOBO

Nas montanhas soturnas e bravias,
Cobertas de urzes e giestas amarelas,
Vê-se às vezes, nas longas noites frias,
Um lobo a uivar, voltado p'ra as estrelas.
     Os seus olhos nervosos, refulgentes,
     A cintilarem como dois luzeiros,
     Têm o fulgor da fronte dos videntes,
     A ostentaçãp heróica dos guerreiros:
 Pois pode acaso alguém ao lobo negar
As aptidões de um pensador profundo ?
Quem sabe! Enquanto ao longe anda a ulular,
Estuda as obras de Proudhon a fundo.
     A Natureza educa. O Sol radiante,
     A árvore verde, graça e luz da aldeia,
     O azul celeste, a nuvem flutuante,
     Tudo contém em si uma epopeia.
O lobo talvez seja um grande artista,
Original espírito do bem,
Filósofo, talvez positivista
E que jamais se revelasse a alguém.
     Quando através dos densos arvoredos
     Eu o encontro, nas noites consteladas,
     Ou entre as altas cristas dos rochedos
     Erguidas para os ares como espadas.
Digo sempre comigo então: _Oh sábios,
Não injurieis o lobo, não fujais !
Que vai cair em breve dos seus lábios
O melhor dos sistemas sociais.
    
          José Leite de Vasconcelos
                      (1858-1941)

domingo, Agosto 24, 2014

VASSALAGEM

Como um vassalo aos pés d'uma rainha,
De olhar patrício e fronte misteriosa,
Uma radiante borboleta vinha
Ajoelhar-se defronte d'uma rosa.
     
Tombava a noite. E o pequenino insecto,
Na delicada folha que o sustinha,
Fitava a rosa, indo ajoelhar-se inquieto,
Como um vassalo aos pés d'uma rainha.
    
Ouve-me agora... Aquela flor tremente
Eras tu, eras tu, meiga andorinha!
E eu sou o insecto que, serenamente,
Se vem ajoelhar na tua frente,
Como um vassalo aos pés d'uma rainha.
     
                  Eugénio de Castro

sábado, Agosto 23, 2014

VINTE E TRÊS

Um numero festejado.

Um numero para esquecer

domingo, Agosto 17, 2014

NOVOS SONETOS A MINHA AMADA

A minha amada é uma menina doce
     como um exemplar currículo de cama:
     antes, durante, após, geme que me ama,
     com a falsidade que o prazer lhe trouxe.
     
Me quer como um brinquedo. Ou antes fosse.
     Mais um sorvete pra sorver na cama.
     Sabe mais coisas do que uma mulher dama _
     em seus braços meu verso desarmou-se.
     
E me quer só pra ela. Nada existe
     com que me queira dividir. E chora
     e briga e treme e agride e fica triste
     
se de algo em minha vida fica fora
     (E só faz o que quer). Nunca desiste
     de si enquanto jura que me adora.
     
                     Ildásio Tavares

sexta-feira, Agosto 15, 2014

PAI E FILHA

Criança meiga e formosa
É quem serve ao pai de guia
Ninguém melhor do que Rosa
Um velho triste alivia.
     
O pai, um velho, já cego,
Desesperado da vida,
Só tem consolo e sossego
Amparado à filha qu'rida.
     
Servem os dois de modelo
N'aquela aldeia singela;
A filha no seu desvelo,
O pai nos amores por ela,
     
Não há quadro mais divino,
De tanta simplicidade,
Ele, o cego sem destino,
Ela, a santa caridade !
     
      Julio Baptista Ripado

quarta-feira, Agosto 13, 2014

FIEL AMIGO


Ó pobre cão vadio, meu amigo!
Nem sempre encontras osso p'ra roer
Sou pobre, também sofro o teu castigo;
A vida é só p'ra quem sabe viver!

Ninguém tem dó de ti, ó desgraçado!
Afastam-se com nojo e por capricho
E já tens sido, até, apedrejado,
Por rebuscares pão que está no lixo.

Conheço que és um cão, que andas nu...
Mas quem dera que fossem como tu,
Esses falsos amigos que já tive!

Sou eu, o Silva Peixe quem te fala,
Amigo: quem mais sofre é quem mais cala
Com sentimentos sãos é que se vive.

Silva Peixe

terça-feira, Agosto 12, 2014

A MULHER SENTADA

Mulher. Mulher e pombos.
Mulher entre sonhos.
Nuvens nos seus olhos?
Nuvens sobre seus cabelos.
     
(A visita espera na sala:
a notícia, no telefone;
a morte cresce na hora;
a primavera, além da janela).
    
Mulher sentada. Tranquila
na sala, como se voasse.
     
   João Cabral de Melo Neto
 

domingo, Agosto 10, 2014

A CONCHA

É singular da concha a nostalgia
Depois que deixa as solidões do mar;
No seio nacarado preludia,
Ouve-se dentro a vaga a marulhar.
    
Semelhante à concha o coração humano;
Quando perdida a juventude e o ardor,
Ainda guarda no profundo arcano,
Fundos vestígios do primeiro amor.
    
                   Isaías de Oliveira

sábado, Agosto 09, 2014

O VELHO POVEIRO

Com a voz cansada de falar às ondas
E a pele curtida do vento do mar,
Pescador velhinho, que mistério sondas?
Que, perscruta, ao longe, teu fincado olhar?

Sentado na praia, nas dunas redondas,
Vendo as nuvens densas que enegrecem o ar,
Que receio oprime, por mais que o escondas,
Teu trémulo rosto, teu peito a arquejar?

Tu que navegavas sem um sobressalto
Entre nevoeiros, temporais, escolhos,
Porque estás agora pálido, inquieto?


Porque nessas lanchas que andam no mar alto,
E que em vão procuras, alongando os olhos,
Numa vem teu filho, noutra vem teu neto!
Alberto D'Oliveira

quinta-feira, Agosto 07, 2014

MORTA !

Havia arrulhos, havia ninhos,
Na transparência d'aquele olhar...
Olhar que os longos, negros caminhos,
Me iluminavam como o luar !...
Havia queixas, meigos carinhos,
Na branca esteira d'aquele olhar !
          Aquela boca, meu Deus, aquela
          boca __ onde os anjos vinham cantar
          Quando por vezes me lembro d'ela
          Inda prosterno-me a soluçar !
          Aquela boca d'onde a procela
          Dos beijos se iam como a cantar.
Um dia arcanjos de asas douradas
Do céu baixaram para a levar
Em nuvens pandas, aurilavradas,,
Do azul marinho, do azul do mar,
Anjos formosos, risonhas fadas,
Todos vieram para a levar !
          Amortalhada, da cor dos lírios,
          Dos brancos lírios junto do altar,
          Parece ainda rezar uns kyrius
          Por entre os lábios a sussurrar
          Branca, tão branca! da cor dos círios
          Que ardem às santas virgens do altar !
Todas as flores cantavam hinos,
Quando a levaram para enterrar !
Caía a tarde __ sons vespertinos
Se balouçavam no azul do ar,
E muito longe plangiam sinos,
Quando a levaram para enterrar ...
          
          Arnaldo Damasceno Vieira
                     1879 _ 1951

terça-feira, Agosto 05, 2014

NESTA PRIMAVERA OS PÁSSAROS

Lento é o passar veloz de todos os veículos
Rumor que se me confunde às ondas
Vai sobre o cais o meu olhar que só ouvindo
Se enclausura neste poço que lá em baixo ouço
    
Sei que não morreram todos os pássaros ainda
São pássaros que ouço lá em baixo na cidade que passa
Delicadamente as pombas interpõem seu ritmo
E não sei mais senão dum coração que bate
     
Eu sei como o bater das asas só longe é livre
Mas neste poço a cidade o repete frágil
Somos corações contudo vivos e percutindo
Um pulsar manso e imerso nesta margem
    
Uma galera é ave ou rio ou nobre ritmo
Passando anódina neste azul só pálido
Que silentes as manhãs álacres também já vividas
Mas a cidade me apela e assim frágil a amo
     
Quero pensar em pássaros e nos seus ramos de árvores
Na hora vesperal em que se acolhem e é tranquila
Mas só tenho esta manhã e a cidade em meu olhar
Compõe igual seu canto neste poço um pouco triste
    
Não sou viúva de cantos de aves por outras manhãs
Em que a primavera pintava para mim azuis céus antigos
Mas a cidade palpita com um rumos também de asa
E a beleza sobe a este poço como a pomba com leve fremir
    
Falei da cidade mas não contei da cidade
Disse antes que ela tinha um leve coração de bater triste
Talvez um Deus tanbém triste a toque e a envolva em paz
Mas a cidade é frágil neste poço subindo múrmura do cais do rio.
    
     Maria Aliete Galhoz

segunda-feira, Agosto 04, 2014

TEMPUS

Nascem dias, morrem dias,
E o tempo sempre a correr:
_Tão ledo nas alegrias !
_Tão triste no padecer !
     
Caminha, ó tempo e contigo
Leva o meu mal por meu bem ;
Mas deixa-me atrás, amigo,
Que eu não posso ir mais além...
      
    Manuel Augusto d'Amaral
                 1862-1942 

sexta-feira, Agosto 01, 2014

SONETO

Estende o manto, estende, ó noite escura,
Enluta de horror feio o alegre prado;
Molda-o bem co pesar dum desgraçado,
A quem nem feições lembram de ventura.

Nubla as estrelas, céu! que esta amargura,
Em que se agora ceva o meu cuidado,
Gostará de ver tudo assim trajado
Da negra cor da minha desventura.

Ronquem roucos trovões, rasguem-se os ares,
Rebente o mar em vão n'ocos rochedos,
Solte-se o céu em grossas lanças de água!

Consolar-me só podem já pesares:
Quero nutrir-me de arriscados medos,
Quero saciar de mágoa a minha mágoa.

Padre Francisco Manuel do Nascimento
(Filinto Elísio)
1734-1819