segunda-feira, maio 18, 2020

ETERNAMENTE

Gosto de ti ! Se crês no meu instinto
vai aprendendo a ler esta verdade
e vê também a pura claridade
de tudo quanto sou e quanto sinto.
     
Enquanto eu pairo acima da maldade
não andes tu julgando que te minto,
nem creias complicado labirinto
o que é so, afinal, simplicidade !
     
Gosto de ti ! No fundo da minh'alma
este amor vive sempre, não se acalma,
vive orgulhoso de me ver sofrer ...
     
Gosto de ti ! Que importa ? Podes rir,
podes talvez cansar-te de o ouvir !
Mas não me canso eu nunca de o dizer !
     
               Virgínia Victorino

 

segunda-feira, abril 13, 2020

SONHO DESFEITO

Como a nuvem que além, sobre a planura,
Sobe e se esvai no azul da imensidade,
Foi-se o doirado sonho de ventura
Que iluminou a minha mocidade.
     
Sonho que me embalara na doçura
Dum afecto mais puro que a verdade,
E que, nas minhas horas de amargura,
_Era um facho de luz na escuridade !
     
E agora, quanto à mente fatigada
Me acodem, como espectros desolados,
Lembranças de ventura malograda,
     
Bendigo a hora em que a velhice austera
Me há-de imprimir nos lábios descorados,
O sorriso de quem já nada espera...
                 
             Ponta Delgada
             Maria das Mercês do Canto Cardoso 

sábado, abril 11, 2020

CIUMENTA

Fazes-me pena com os teus queixumes,
Minha adorada e encantadora amiga,
E no entanto perdoa que eu te dia
São irrisórios esses teus ciúmes.
    
Eu sou a flor dos solitários cumes
Que a neve queima e o vendaval fustiga,
À qual não chegam mãos de rapariga
Nem desce a protecção dos altos Numes.
    
E tens ciúmes duma pequenita
Em cujos olhos leio a minha sina
E é toda a luz da minha solidão!
    
Porque te assusta o amor que lhe dispenso?
Olha que Deus bondoso e em tudo imenso,
Também me fez imenso o coração.
    
                    Carlos de Moraes

quinta-feira, abril 02, 2020

OS QUE AMEI

O que são hoje? _Esta ansia, esta agonia...
A vê-los sem os ver, a todo o instante,
Junto d'Eles e d'Eles tão distante,
Na dor eterna que p'ara além me guia...
    
São a minha saudade cruciante;
O pensamento meu da cada dia;
O ar que respiro, a luz que me alumia,
Vivos em mim no meu amor constante;
    
São tudo o que me cerca _ em tudo os vejo;
Lembranças que lembrá-las só desejo;
Os ais profundos que a minh'alma solta...
    
Sombras longínquas, pelo céu dispersas...
Mágoas pungentes, no meu peito imersas...
O Bem da minha vida que não volta.
    
        Maria Isabel da Camara Quental

segunda-feira, janeiro 13, 2020

PERDIDO NA BRUMA

Perdi-me na bruma das coisas terrenas. _
Vagueio, às escuras, num mar de ansiedade...
Se atento os ouvidos, se escuto, oiço apenas,
Em sons murmurantes, a voz da saudade !...

Num mundo distante vislumbro paisagens: _
_Cidades ignotas, castelos de espuma...
Na tela dos «longes» perpassam imagens, _
Não sei distinguilas, perdi-me na bruma !...

Meus olhos absortos, fitando os espaços,
Observam tragédias dum mundo enganoso... _
_Sou nau sepultada no «Mar dos Sargaços»,
Galera perdida no «Mar Tenebroso» !

Descubro, contudo, nas vagas, boiando,
Fragmentos, destroços de armadas vencidas; _
Carcaças enormes no mar, baloiçando,
Florestas de mastros co'as velas caídas !...

... Será que este mundo perdeu sua rota
Num vento de insânia fugal, fugitivo ? ! _
Habito uma ilha confusa, remota,
Perdi-me na bruma... _ não sei onde vivo !

M. Correia da Silva

sábado, abril 13, 2019

RENASCER

Dantes ao ver chegar a Primavera
Cheia de cor, de aroma, de magia,
Mais triste e mais sòzinha me sentia
No desespero de quem nada espera.
     
A sua luz magoava-me, pois era
Para a minha tristeza uma ironia
Eu não pode sentir essa alegria,
Eu não poder sonhar essa quimera !
     
Um dia tu chegaste, e agora sim !
É sempre Primavera para mim
E há sempre na minha alma um renascer !
     
Bendito seja Deus Nosso Senhor,
Que me fez encontrar no teu amor
O gozo incomparável de viver !
       
                         Laura Chaves

 

sábado, abril 06, 2019

PIETÀ

Vejo-te ainda, Mãe, de olhar parado,
Da pedra e da tristeza, no teu canto,
Comigo ao colo, morto e nu, gelado,
Embrulhado nas dobras do teu manto.
     
Sobre o golpe sem fundo do meu lado
Ia caindo o rio do teu pranto;
E o meu corpo pasmava, amortalhado,
De um rio amargo que adoçava tanto.
     
Depois, a noite de uma outra vida
eio descendo lenta, apetecida
Pela terra-polar de que me fiz;
     
Mas o teu pranto, pela noite além,
Seiva do mundo, ia caindo, Mãe,
Na sepultura fria da raiz.
     
                Miguel Torga  

terça-feira, setembro 25, 2018

PARABÉNS

Foste o Rei Desejado que se espera
do nevoeiro da informação;
já não era comigo a Primavera
mas tinha em flor o coração.

Agora, quanto espinho o dilacera:
desalento, saudade, saudão;
chegado ao termo de uma vida austera,
Estou velho e cansado. Mas tu, não!...

Tomaste novo rosto e novas cores,
patenteando aos olhos dos leitores
o segredo da eterna juventude!

Ah! quem me dera ser assim também:
servir com devoção a terra mãe
e aumentar, com a idade, essa virtude!
Francisco Henriques

O ALMEIRINENSE
pag. 1, 16/10/2001

domingo, julho 01, 2018

SONETO

O Amor !  E na maior das madrugadas
Pelo espaço, a florir de luz e cor,
O meu corcel das longas caminhadas
Partiu veloz para o distante Amor.
     
Saltando as Horas tristes e caladas, 
__ Ao longe  olhando a Morte, sem temor __
Seu casco faz dar gritos às estradas, 
No ar, faz névoa e fumo o seu suor.
     
No seu cavalho de batalha o Vento
Vendo-o passar em fúria, poeirento,
Fica atrás a gritar-lhe: Onde é que vais ?
     
Mas a noite não tarda aí, decerto,
_ E cada vez a Morte anda mais perto,
E cada vez o Amor se afasta mais.
        
                           Nunes Claro

sexta-feira, junho 01, 2018

TRÊS CANÇÕES

I
Eu sou dum poente calmo
Aquela nuvem mais triste,
Se te perguntam por mim
Tu nem dizes que me viste.

Sempre de face voltada
Para o sol quando desponta
Vais vivendo em alvorada
E de mim nem dando conta.
Se te perguntam por mim
Respondes que nem me viste.
Eu sou dum poente calmo
Aquela nuvem mais triste...

II
Desfolhas um malmequer
E dás fé no que te diz
Nem te lembrando sequer
Das juras que eu te fiz.

Queria que tu soubesses
Desfolhar o meu desejo
E que em troca tu me desses
Por cada pétala um beijo...
Mas não há descrer maior
Que o descrer duma mulher:
_Perguntas pelo meu amor
À morte dum malmequer...

III
No dia do meu enterro
Não te ponhas a chorar
Pensa que fui eu primeiro
Para depois te chamar

Quando eu partir de mãos postas
Para ir a enterrar
Se é de mim que tu gostas
Não te ponhas a chorar
Porque eu parto e vou primeiro
Para procurar nos ceus
Nosso lugar verdadeiro:
_À mão direita de Deus.

Álvaro Leitão

terça-feira, maio 01, 2018

UM DIA

Mais um dia passou, desceu ao Nada !
Na voragem do tempo um grão de areia.
Para a vida mais um laço da cadeia
Que à Dor a prende sempre, amargurada !...
     
A mais uma esperança condenada !
Uma ilusão, talvez, de encantos cheia,
Que a terra indiferente à dor alheia
Na noite mergulhou, amortalhada !
    
O tempo que é, no espaço indefinido ?
O minuto que passa, decorrido,
No mistério dos mundos siderais ?
   
Do dia que passou que resta agora ?
Que resta do romper de cada aurora ?
Uma volta que a terra deu a mais !...
     
                     Valentim da Silva

sexta-feira, abril 13, 2018

FONTE DOS AMORES

Ó água triste, não chores,
Vai devagar, devagar...
Que ela não cuide que choras
Porque me viste chorar !
       Ai não soluces tão alto
       Ó fonte do seu caminho !
       Ágoa chorosa e romântica ,
       Fala mais devagarinho...
Não digas nessa toada
Melancolias às flores :
Ó fonte vai sossegada,
Nunca lhes fales d'amores.
       Não contes o que me ouviste,
       O que te estive a dizer...
       Sê contente, água romântica,
       Que ela o não venha a saber !
Olha as minhas mãos ardentes,
Refresca-as, fonte amorosa !
Olha os meus olhos vermelhos...
É de rir, água chorosa !
       Ó água triste, cautela ,
       Vai devagar, devagar...
       Que ela não pense que choras
       Porque me viste chorar !
     
                      Júlio Brandão

 

domingo, abril 01, 2018

MEL E FEL

Amores são enxames de desejos,
Que em tenros corações estão zumbindo
E vão, na idade em flor, no campo lindo,
Trocar por doce néctar doces beijos.
     
Do meu cortiço vácuo, triste vejo-os
Do colmeal alheio vir saindo
E nas eleitas flores ir haurindo
O tão incerto mel dos seus festejos.
     
Mas, pois o zangão vil vos rompe e come
Os deliciosos favos, ou, cruel,
O crestador virá que vo-los tome,
     
Incautas abelhinhas, vosso mel
Lograi enquanto é mel, porque o só nome
Já duas terças partes tem de fel.
       
       Emídio Gomes dos Reis

quinta-feira, março 01, 2018

O QUE ÉS TU?...

A mulher que mais adoro.
Uma saudade que mata.
O sonho que mais imploro;
Uma onda que arrebata.

A mais alegre canção;
O desejo mais ardente;
A mais alegre tentação
Das noites do Ocidente!

O brilho do diamante;
O encanto da paisagem;
A carícia sussurrante
Da mais terna e doce aragem.

O orvalho da manhã
No canteiro do meu sonho.
O prazer da vida sã...
Nesses lábios de medronho.

A graça da natureza;
Todo o tom da melodia;
A cúpula da beleza...
Enfim... és a luz do dia!

Serias bem esta imagem
Se não fosses... só miragem!


Anónimo

quinta-feira, fevereiro 01, 2018

SONETO

Estende o manto, estende, ó noite escura,
Enluta de horror feio o alegre prado;
Molda-o bem c'o pesar dum desgraçado,
A quem nem feições lembram da Ventura.
      
Nubla as estrelas, Céu; que esta amargura;
Em que se agora ceva o meu cuidade,
Gostará de ver tudo assim trajado  
Da negra cor da minha Desventura.
     
Ronquem roucos trovões, rasguem-se os ares,
Rebente o mar em vão n'ocos rochedos,
Solte-se o Céu em grossas lanças de água: 
     
Consolar-me só podem já pesares;
Quero nutrir-me de arriscados medos
Quero saciar de mágoa a minha mágoa. 
     
                           Filinto Elísio

quinta-feira, novembro 23, 2017

HUMORISMOS

Se neste labutar em que vivemos,
Neste mar de ilusões que atravessamos,
Desde o colo materno em que choramos
Até à vala fria onde descemos;
     
Se neste labirinto em que perdemos
Tantas vezes a fé com que sonhamos,
Neste martírio atroz que desfolhamos
Levados p'la má sina em que nascemos,
     
Não houvesse por vezes um conforto
Que em rajadas de luz, vem mitigar
Quem no manto do tédio vive absorto,
      
Maldiria, sem dó, a terra, o mar,
Este mundo cruel que nasceu torto
E ninguém é capaz de endireitar.
     
            Xavier de Magalhães

terça-feira, agosto 01, 2017

Do livro «POEMA DA CIDADE TRANQUILA»

                                  kii
     
Tudo enfim se calou no silêncio do quarto,
E os braços do silêncio, fechados sobre nós,
Embalam nosso sonho e este langue cansaço.
     
O luar já secou no chão junto à janela.
Por detrás da vidraça é mais azul a noite
E nesta paz abranda, enfim, a nossa febre,
     
No meu ombro o teu beijo: a ternura esvaída
Revive em teu olhar quanto a noite levou.
Lá fora amanheceu. Aqui o claro voo
Alto, forte, viril, de quem achou a vida
     
Imagina um oceano e a ilha calma e quieta
Onde a paixão não morre e o amor só deseja
Repetir nossa história, encantada e discreta,
Por toda a Eternidade.
                                 Assim seja! Assim seja!
     
         Luiz de Macedo: n. Lisboa, 1925; m. Paris, 1987..
  
  

 

sábado, julho 01, 2017

Ponte conquisarda. Perdas insignificantes.

Cinco soldados apenas
aobre a ponte já roída.
As pistolas são pequenas
para o tamanho da vida.
     
Cinco rapazes somente
na ponte dinamitada.
Atrás ficou o tenente
na volta de uma granada!
     
A ponte tem um buraco
mesmo ao meio do seu desenho.
Por baixo só há um charco
cheio de granadas de estanho.
     
A ponte não aguenta
com dez botas bem cardadas?
E foram cento e setenta
a fugirem das granadas.
     
Agora só restam cinco
avançando devagar.
Sobre as arcadas de zinco
o vento só corta o ar!
     
(E o general perfumado
_tão longe de ser cruel!_
com aspecto resignado
joga às damas no quartel).
     
         Henrique Segurado

segunda-feira, maio 01, 2017

A UM CAMARADA

Se me dás essa mão, calorosa e deformada
Aperto-a na minha, camarada.
Também, do meu lado, sou eu cativo,
E a tinta que me suja a mão é sangue vivo...
Também, na minha testa, há gotas de suor,
Gelado, o meu. Não sei se o teu pior.
Exausto, ao fim do dia, és uma simples sesta
Que dorme; e a insónia, a mim, mais meregela a testa.
     
Com pedra, cal, cimento, ferro, aço,
Povoas ou constóis cidades. O que eu faço
Não se vê tanto!, é longe; é lá no escuro
As teias do passado e do futuro.
     
Pedem-te os filhos pão, que após sofrer, lutar
Nem sempre terás tu para lhes dar.
E a mim _ canções, fervor, calor contra o seu frio,
E eu finjo encher a mão no coração vazio!
     
Teu nome, obscuro som, conhecem-no bem poucos,
Mas o meu, como os de outros que tais loucos,
Já sem sentido por demais ouvido,
Pregoam-nos os jornais; _ e é o dum desconhecido.
     
Talvez tu, auto escravo fixo à terra,
Nunca erguesses o olhar ao céu, e ao que ele encerra.
Eu ergo-o; mas, daquela imensidão composta,
Recai sobre mim num grito sem resposta.
Cumpre-se, em ambos nós, a velha praga... E em breve,
Sobre ti, sobre mim, nos seja a terra leve.
Deixa-os, a esses que odeiam, entre nós erguer a espada!
Dá-me a tua mão suja e honesta, camarada.
     
                                                   José Régio
     
Ref.  16001001

segunda-feira, abril 10, 2017

CONSELHO

Sê paciente; espera
que a palavra amadureça
e se desprenda como um fruto
ao passar o vento que a mereça.
Eugénio de Andrade

domingo, março 19, 2017

SONETO (Amor é fogo que...)

Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer;
    
É um não querer mais que bem querer;
É solitário andar por entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É cuidar que se ganha em se perder;    

É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata lealdade.
     
Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?
      
Luís de Camões

quinta-feira, março 09, 2017

FRUSTRAÇÃO

Andam cavalos à solta na Avenida sobre superfícies
brancas carregando liberdades públicas
geometricamente delineadas.
     
Caminhantes de olhos irizantes sob ideologias
cromadas descem a Avenida ávidos da esperança
em microcurtocircuitos  calcinada.
     
                            Joaquim Ribeiro Aires

domingo, fevereiro 19, 2017

ÉCLOGA OU CANÇÃO ABANDONADA

Na folha bailada
Levada
No vento,
Vai meu pensamento...
     
Na cinza delida
Espargida
Pelo rio,
Vai meu olhar frio...
     
E no teu sorriso
Da mais lisa
Quietação...
O meu coração...
     
   Cristovam Pavia

segunda-feira, janeiro 23, 2017

LIÇÃO

Oiço todos os dias
De manhãzinha
Um bonito poema
Cantado por um melro
Madrugador,
Um poema de amor
Singelo e desprendido
Que me deixa no ouvido
A lição virginal
Do natural
Que é sempre o mesmo, e sempre variado.
    
​​​​​​​                  (Miguel Torga)

quarta-feira, novembro 23, 2016

TRANSFIGURAÇÃO

Chorei. Tenho a alma leve, alma de criança,
Alma que não tem nada dentro da alma.
Depois do temporal veio a bonança,
Depois da dor vem quase sempre a calma.

Um céu lavado sobre mim se espalma,
Sobre mim passa a vida boa e mansa.
No meu jardim há uma árvore que dança
Ruflando ao vento as palmas, palma a palma.

Alegria ! Alegria ! Eu te bendigo !
Luz de quem nada vê, pão de mendigo.
És saborosa como um bago de uva !

No teu perfume que me contamina,
Sinto que o coração se me ilumina
Como um campo a florir depois da chuva.
 

    
Olegário Mariano

terça-feira, novembro 01, 2016

LIBERTAÇÃO

Silêncio profundo...

Fechei a porta.

(Madeira morta
Entre mim e o mundo.)


             Luiz de Macedo

sábado, outubro 01, 2016

O PALACIO DA PAZ

Ò palácio da Paz !  Que imensa glória
N'um século inquieto e turbulento
Dàs, num milagre, às paginas da História
A história d'esse altivo monumento !
     
Dizer à Guerra :  Pàra ! E à efervescência
Da ambição, da política invejosa,
Da luta dos int'resses, na veemência
Do rugir das paixões, essa onda irosa:
     
_Só a Paz é profícua, o forte laço
Que tanto prende sem magoar o pulso ;
Leva-nos ao triunfo o seu abraço,
À dita universal, o seu impulso !
     
Só ela é grande, a atlética figura
Que deve, enfim, domar, reger a vida,
Não à custa d'angústias e tortura,
À passagem da guerra fraticida.
     
Mas em jorros de luz e de justiça,
Hasteando a bandeira da verdade,
Abatendo os esforços da cobiça,
Para alcançar o bem da humanidade !
      
                      Amélia Jany

sexta-feira, setembro 09, 2016

ROMANTISMO

A lua é uma gôndola doirada,
Onde em sonhos de amor, um dia me embarquei
Contigo, ó meu amor, ó linda Bem-Amada,
Que um dia imaginei !
     
E partimos os dois na gôndola do Sonho...
Na Veneza do Amor, onde íamos vogando,
Tudo era lento e triste e doce como um sonho,
Como o sonho de Amor que ia sonhando !
      
Mas, perdeu-se na bruma a gôndola doirada,
Onde em sonhos de amor, um dia, me embarquei !
E morreste, na espuma,  ó linda enamorada,
E desfez-se, na espuma, o sonho em que te amei !
     
Ai, a lua é a gôndola doirada,
Onde embarquei contigo e onde sem ti, voltei !
      
                             Anrique Paço d'Arcos

segunda-feira, agosto 15, 2016

A ILHA DE SÃO MIGUEL

São Miguel _ ilha escondida
Debruçada à beira mar,
Da varanda florescida
Na voz da onda a rezar...

Ilha bela, ilha encantada:
A mão de Deus te formou
De uma estrela enamorada
Que do céu no mar tombou.

És do mar a noiva querida,
Num leito azul reclinada
Entre flores adormecoda,
Pelas ondas embalada...

És uma linda princesa,
Feita da luz do luar,
A reflectir a beleza
No vasto espelho do mar.

Ilha verde, verde terra,
Onde a desdita descansa,
Olhando o verde da serra,
Sentindo o verde da esp'rança.

Do céu os astros infindos,
Nos lagos a repoisar,
Em sonhos rubros e lindos
Fazem a alma sonhar...

São Miguel: _Do mar à serra
Tu tens do céu a beleza,
Na tela da Natureza,
Por Deus pintada na Terra.

Tu és a ilha da flor,
Tesoiro do mais fecundo:
Pérola de paz e amor,
Na concha imensa do Mundo!


Maria Isabel da Câmara Quental

segunda-feira, agosto 01, 2016

ANSIEDADE-Agosto

Agosto. Sol em brasa. Nos caminhos
Uma poeira de luz envolve tudo.
Há maciezas fofas de veludo
No chão onde floriram rosmaninhos.

Dormem as velas brancas dos moinhos
Num pesado torpor, tranquilo e mudo.
E na doirada luz que envolve tudo,
Rezam as aves no altar dos ninhos.

Calam-se as fontes. Mesmo o rouxinol
Sob a carícia lânguida do sol
Calou seu canto amargo de saudade.

Tudo se acalma nesta tarde calma...
Só na tormenta imensa da minha alma
Não se acalma esta febre de ansiedade!


Maria Helena Duarte de Almeida