segunda-feira, setembro 14, 2009

VIDA D'ONTEM

VIDA D'ONTEM

(VERSOS D'HOJE)

Tenho um milhão de desejos,
Extravagantes, diversos;
Entro no amor a dar beijos,
Tu entras a fazer versos.
. (D'uma carta de mulher)

Esbelta, graciosa a minha amante
Fugiu-me há dias; maldiçoada lei
Deste negro Destino penetrante
Dizem que goza as súplicas do Rei.

Agora já lá vai, já tudo esquece
Completando um desejo, outro desejo;
Maldita sorte a minha. Ai quem pudesse
Trazer-me triste a música d'um beijo.

Altas horas da noite, abro a janela,
Entra-me largo, um resplendor de lua
E eu leio a frase recatada e bela
Sobre o retrato: _
Eu amanhã sou tua.

Era risonha, lânguida, fagueira,
Como um sorriso de ventura cheio;
_Veste-te d'homem, põe a caçadeira,
Mostra-me a curva original do seio.

Renego as crenças infantis que tinha,
Por ti eu tudo n'este amor resumo;
Volta de novo histérica andorinha,
Traz-me
o cognac, os fósforos: _Eu fumo.

E vem gozar alma da minha gémea
(Deixa o fantasma d'esse amor bizarro)
Quero contigo rir, n'esta boémia
Fuma também, d'aqui, do meu cigarro.

Não voltas, não; mas, olha a primavera,
Como nos traz a sugestão da boda,
Fala-me ao menos, lúcida quimera,
N'uma algazarra alucinante e
douda.

Conservo ainda, aqui, n'uma gaveta
Da minha mesa de trabalho, farta:
Uns pequeninos pés de violeta,
Que me mandaste dentro d'uma carta.

Diz-me se tens guardados ou dispersos,
(Temo o desdém que se te lê no rosto)
Os meus primeiros e amados versos
Feitos de risos, lágrimas, desgosto...

Lembras-te
loura (?) d'uma noite há meses
Em que no
trem íamos de corrida;
Quando me destes um milhão de vezes
Promessas, sonhos d'uma outra vida?...

Pois aqui tens a vida que me deste;
Pergunto sempre: mas porquê? Não sei.
Um estudante nada vale _ a peste...
Gozas agora as súplicas do Rei.

Eu bem sei que só bebe, quem tem sede;
Mas, o muito beber também faz mal
«Logo farei o que a senhora pede»
Ele te escreveu sobre um cartão postal.
.................................................................

Póde mostrar estes meus versos, quando
Sorrindo os ler a algum meu raro amigo;
Nada me importa, fico-me sonhando
Esse viver original antigo...

Santos Tavares

3 Comments:

Blogger yole said...

Muito agradecido por teu comentário.
Sempre há que perseguir às amantes, creio eu.

1:06 da tarde  
Blogger Carla said...

não conhecia e adorei ler
beijo

3:15 da tarde  
Blogger Martinha said...

Palavras arrastadas de saudades, tristes, mas bonitas.
:)
Fica bem Manuel. Saudações de Cádiz :)

2:23 da tarde  

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