domingo, outubro 06, 2013

MEMORIA CONSENTIDA

Neste lugar sem tempo nem memória
   nesta luz absoluta ou absurda,
   ou só escuridão total, relances há
   em que creio, ou se me afigura,
   ter tido, alguma vez, passado
   
   com biografia, onde se misturam
   datas, nomes, caras, paisagens
   que, de tão rápidas, me deixam
   apenas a lembrança agoniada
   de não mais poder lembrá-las.
   
   Sobra, por vezes, um estilhaço
   ou fragmento, como o latido
   de um cão na tarde dolente
   e comprida de uma remota infância.
   Ou o indistintio murmúrio de vozes
   
   junto de um rio que, como as vozes,
   não existe já quando para ele
   volvo, surpreso, o olhar cansado.
   Insidiosas, rangem tábuas no soalho,
   ou é o sussurro brando do vento
   
   no zinco ondulado, na fronde umbrosa
   dos eucaliptos de perfil no horizonte,
   com o mar ao fundo. Que soalho,
   de que casa, que vento em que paragens,
   onde o mar ao longe que, entrevistos,
   
   os não vejo já ou, sequer, recordo
   na brevidade do instante cruel ?
   De que sonho, ou vida, ou espaço de outrem
   provêm tais sombras melancólicas,
   ferindo de indecifráveis avisos
   
   este lugar em que, não sendo consentido
   o coração, se não consentem tempo e memória ?
   Pausa ou pena, a seu oculto propósito há-de
   sempre opor-se, lenta, a inexorável asfixia
   desta luz absurda, ou só escuridão total.
   
   Rui Knopfli

2 Comments:

Blogger Duarte said...

Alguns bem conhecidos, outros não tanto, mas todos obtidos com uma sensibilidade de quem sabe ler e entender poesia: os meus parabéns.
Saudações e o meu muito obrigado

12:24 da manhã  
Blogger Parapeito said...

nao conheço nada de Rui Knopfli...mas gostei desta Memória Consentida...
brisas doces*

9:48 da manhã  

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