sexta-feira, dezembro 07, 2012

RETRATO

UM carro de assalto
   carregado de flores
   me chamou com ternura
   o José Saramago.

   Numa época torva
   como é a nossa,
   de honra espezinhada
   e governos de nojo,
   de bandoleiros vis
   a comando dos ricos,
   que nenhum crime trava,
   nenhuma infâmia assusta,
   mas também promissora,
   exaltante e segura,
   de abnegados e isentos
   semeadores singelos
   de abundância e de paz
   ao serviço de todos,
   radiante me sinto,
   nunca desanimado,
   de, como os mais pobres,
   o que como o ganhar,
   com o suor do rosto,
   com o calor dos braços,
   com a dor das ideias,
   com o alor dos actos.
   As mãos crispo, na fúria
   de colher as estrelas,
   que no espaço germinam
   como fartas searas.
   Os olhos fitos lanço,
   f eitos pródigo vento,
   por sobre os vastos campos,
   por entre as nuvens altas.
   Sorvo o aroma da terra,
   sorvo o aroma do estrume,
   sorvo o aroma da água,
   sorvo o aroma do gado,
   numa tentação quente
   de perturbada febre,
   sem deixar de ser eu,
   sossegado e desperto.
   Recordo, minucioso,
   a confiança gasta,
   no ermo do passado
   tenebroso e abjecto,
   em ímpetos fugazes,
   apelos e protestos.

   Um carro de assalto
   carregado de flores
   me chamou com ternura
   o José Saramago.

   Do coração me irrompem
   irrequietas aves,
   frutos estimulantes,
   apaziguantes fontes,
   numa cinfusão doce
   de anseios saciados.
   O menino que fui
   outra vez em mim espreita,
   no começo outra vez
   de uma jornada longa,
   sem egoísmo, sem glória,
   sem atitudes vagas,
   sem perversas reservas,
   sem opiniões amargas.
   Com o tempo perdi-me,
   com o tempo me achei,
   desatento de mim,
   por aos outros atento,
   numa decisão extrema,
   luminosa e inteira,
   do lado mais custoso
  da dura barricada.
   Ergo a voz que é um eco
   de milhões de outras vozes.
   Em milhões de outras iras
   a minha ira ferve.
   Por milhões de outros passos
   o passo rude acerto.
   Não há ódio tão forte
   que em nós possa deter
   a força da razão
   das razões que nos movem.
   Cala-te, desalento,
   que a nossa pátria buscas
   transformar em hostil,
   transformar em deserto.
   Já basta de mentira,
   a verdade ocultando.
   Já basta de injustiça,
   de justiça fingindo.
   Já basta de riqueza,
   à miséria extorquida.
   Soou em nós a hora
   da decisão exacta.

   Um carro de assalto
   carregado de flores
   me chamou com ternura
   o José Saramago.

          Armindo José Rodrigues


 

13 Comments:

Anonymous Anónimo said...

Que texto lindo... merecedor de uma interpretação mais minuciosa...
Palavras que gostaria de saber dizer...

Deixo-te o meu beijo...

Alice

12:24 da tarde  
Blogger Cristina said...

Que maravilla... el traductor me confundió un poco, pero se lee fantástico!
Te dejo un fuerte abrazo, buen fin de semana!
¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨★
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6:58 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Gostei particularmente do refrão. Melhor seria impossível.
M.

4:42 da tarde  
Blogger redonda said...

Vim retribuir a visita e desejar também Felicidades.
um beijinho
Gábi

5:37 da tarde  
Blogger Dolores Garrido said...

A Gábi foi mais simpática. Obrigada pela visita, julgo que a 1ª. Felicidades também.
M.
(Olamariana)

6:04 da tarde  
Blogger Verónica C. said...

Más o menos lo he podido seguir.
Me ha gustado.

Saludos

4:35 da tarde  
Blogger Lichazul said...

gracias por tu saludo
FELIZ NAVIDAD PARA TI TAMBIÉN!
Abrazo energético De Propósito

5:37 da tarde  
Blogger #*Marly Bastos*# said...

Um belo texto Manuel. Obrigada pela visita e desejo-te também um feliz Natal e um 2013 de muita prosperidade.
Bjks doces

7:13 da tarde  
Anonymous Rosa Mattos said...

Grata! És muito amável.

♥ Boas Festas ♥

7:52 da tarde  
Blogger La Gata Coqueta said...




Quiero que el espíritu
De la Navidad haga
para ti Manuel…
De cada deseo una flor
De cada lágrima una sonrisa
De cada dolor una estrella
De cada suspiro una melodía
De cada beso una esmeralda
Y de cada corazón una dulce morada…
Para continuar caminando
Por la vereda de la vida enamorada…

Un abrazo de esperanzas
Y un beso de añoranzas.

¡¡Feliz Navidad para ti y familia!!

Atte.
María Del Carmen


8:42 da tarde  
Blogger Sonhadora (RosaMaria) said...

Manuel

Um texto infelizmente muito verdadeiro e actual.
Simplesmente soberbo.

Deixo um beijinho e agradeço a visita carinhosa.
É sempre um prazer.
Sonhadora

1:22 da manhã  
Blogger Olinda Melo said...


Olá, Manuel

Um poeta que eu não conhecia, assim fui ver quem é.Obrigada por trazê-lo ao nosso convívio e com um poema cheio de força e de verdade.

Um Bom Natal.

Abraço

Olinda

2:54 da tarde  
Blogger vieira calado said...

Olá, boa noite!
Hoje venho simplesmente desejar-lhe uma óptima Quadra Natalícia!
As minhas saudações.

9:25 da tarde  

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