sábado, outubro 06, 2012

ONZE ANOS, ÚLTIMA MORTE

Quando chegou
a décima primeira fome
os teus ombros solares
aceitaram o arco final
e a farinha parou
na saliva da memória.
O teu rosto
rendeu-se à pedra que rasteja
e só a tua alma pequenina
se move
a beber num riacho que não vemos.
A culpa foi tua
por pedires lugar à vida
dentro deste tempo.
Ó filho da ausência,
quem te disse para vires?
Se quiseres ver o teu planeta
regressa depois
quando a tua pequena boca
não for demasiada,
quando se repartirem madrugadas
e o pão que sobrar
te fizer sequer lembrar que já morreste.
 
Mia Couto

4 Comments:

Blogger elvira carvalho said...

Excelente poema. Gosto muito de Mia couto.
Um abraço e bom domingo

2:38 da tarde  
Blogger Lichazul said...

bello poema
gracias por tu huella
buena semana

6:09 da tarde  
Blogger mariarosa said...

Gracias por pasar por mi blog. Un abrazo desde Buenos Aires.

mariarosa

1:15 da manhã  
Blogger Emília Pinto e Hermínia Lopes said...

Gostei muito do poema. Aqui falas da 11ª fome, mas haverá muitas outras fomes até ao fim dos nosso dias e, por incrivel que pareça, em pleno sec.XXI há aquela fome terrivel...fome de pão. Incrivel, não? Fome de pão???? Parabéns! Gostei muito. Beijinho e até breve
Emília

11:53 da manhã  

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