quarta-feira, fevereiro 25, 2009

JORGE DE SENA

CARTA A MEUS FILHOS
SOBRE OS FUZILAMENTOS DE GOYA

Não sei, meus filhos, que mundo será o vosso.
É possível, porque tudo é possível, que ele seja
aquele que eu desejo para vós. Um simples mundo,
onde tudo tenha apenas a dificuldade que advém
de nada haver que não seja simples e natural.
Um mundo em que tudo seja permitido,
conforme o vosso gosto, o vosso anseio, o vosso prazer,
o vosso respeito pelos outros, o respeito dos outros por vós.
E é possivel que não seja isto, nem sequer isto
o que vos interessa para viver. Tudo é possível,
ainda quando lutemos, como devemos lutar,
por quanto nos pareça a liberdade e a justiça,
ou mais que qualquer delas uma fiel
dedicação à honra de estar vivo.

Um dia sabereis que mais que a humanidade
não tem conta o numero dos que pensam assim,
amaram o seu semelhante no que ele tinha de único,
de insólito, de livre, de diferente,
e foram sacrificados, torturados, espancados,
e entregues hipocritamente à secular justiça,
para que os liquidasse com suma piedade e sem efusão de sangue.
Por serem fiéis a um deus, a um pensamento,
a uma pátria, uma esperança, ou muito apenas
à fome irrespondível que lhes roía as entranhas,
foram estripados, esfolados, queimados, gaseados,
e os seus corpos amontoados tão anonimamente quanto haviam vivido,
ou suas cinzas dispersas para que delas não restasse memória.

Às vezes, por serem de uma raça, outras
por serem de uma classe, expiaram todos
os erros que não tinham cometido ou não tinham consciência
de haver cometido. Mas também aconteceu
e acontece que não foram mortos.

Houve sempre infinitas maneiras de prevalecer,
aniquilando mansamente, delicadamente,
por ínvios caminhos quais se diz que são ínvios os de Deus.
Estes fuzilamentos, este heroísmo, este horror,
foi uma coisa, entre mil, acontecida em Espanha
há mais de um século e que por violenta e injusta
ofendeu o coração de um pintor chamado Goya
que tinha um coração muito grande, cheio de fúria
e de amor. Mas isto nada é, meus filhos.
Apenas um episódio, um episódio breve,
nesta cadeia de que sois um elo (ou não sereis)
de ferro e de suor e sangue e algum sémen
a caminho do mundo que vos sonho.

Acreditai que nenhum mundo, que nada nem ninguém
vale mais do que uma vida ou a alegria de tê-la.
É isto o que mais importa _ essa alegria.
Acreditai que a dignidade em que hão-de falar-vos tanto
não é senão essa alegria que vem
de estar-se vivo e sabendo que nenhuma vez
alguém está menos vivo ou sofre ou morre
para que um só de vós resista um pouco mais
à morte que é de todos e virá.
Que tudo isto sabereis serenamente,
sem culpas a ninguém, sem terror, sem ambição,
e sobretudo sem desapego ou indiferença,
ardentemente espero. Tanto sangue,
tanta dor, tanta angústia, um dia
_ mesmo que o tédio de um mundo feliz vos persiga _
não hão-de ser em vão. Confesso que
muitas vezes, pensando no horror de tantos séculos
de opressão e crueldade, hesito por momentos
e uma amargura me submerge inconsolável.
Será ou não em vão? Mas, mesmo que o não sejam,
quem ressuscita esses milhões, quem restitui
não só a vida, mas tudo o que lhes foi tirado?
Nenhum Juízo Final, meus filhos, pode dar-lhes
aquele instante que não viveram, aquele objecto
que não fruíram,, aquele gesto
de amor, que fariam "amanhã".
E, por isso, o mesmo mundo que criemos
nos cumpre tê-lo com cuidado, como coisa
que não é só nossa, que nos é cedida
para a guardarmos respeitosamente
em memória do sangue que nos corre nas veias,
da nossa carne que foi outra, do amor que
outros não amaram porque lho roubaram.

Jorge Cândido de Sena


http://pt.wikipedia.org/wiki/Jorge_de_Sena

11 Comments:

Blogger Líria said...

Querido amigo
Ultimamente, tem sido só a Mariazita a postar no Lírios. Os estudos absorvem-me muito tempo, e como estão em primeiro lugar, a Mariazita tem me feito o favor de manter o blog activo. Não sei se ela vai querer fazer isso muito tempo. Vamos ver, senão terá que fechar.
Como ela tem estado ausente, resolvi eu postar um poema da minha poeta preferida - Florbela Espanca.
Espero que vás ver e que gostes.

Gostei muito deste texto. Gosto de Jorge de Sena. Ele tem um poema lindo - vou pedir à Mariazita que o bublique - não sei como se chama, só sei que começa assim:

"Amo-te muito, meu amor, e tanto/
que ao ver-te, amo-te mais, e mais ainda/..."

É maravilhoso!

Até sempre

Beijos da Líria

4:59 da tarde  
Blogger Baila sem peso said...

"Não sei meus filhos, que mundo será o vosso."
Mas sei que vos desejo tudo e mais do
que aquilo que eu posso!
Sim, possivel é, que não seja o que dá total prazer
Mas tudo farei para que vos seja dada
toda a alegria de VIVER!

Sem mais comentários, meu amigo!
Gostei de aqui estar contigo!

Beijinhos

1:10 da manhã  
Blogger O Profeta said...

Muito interessante o teu artigo...


Abraço

3:06 da tarde  
Blogger Concha said...

Adorei esta escolha.
Esta carta escrita pelo poeta Jorge de Sena,tem mais de 40 anos.
Eu,sou apreciadora dos seus poemas.
E este, é tão actual.
Continuamos com guerras,injustiças e fuzilamentos.
Não temos Goya,para retratar as guerras actuaís,mas temos o foto-jornalismo,os média...
...mas, continuamente cometemos os mesmos erros.

Um abraço

5:22 da tarde  
Blogger Sandra Daniela said...

Boa escolha!! Esta carta pode ter muitos anos, mas cada vez mais, mais actual... Infelizmente para o Mundo...


Beiijinho

9:22 da tarde  
Blogger Mariazita said...

Cheguei há cerca de meia hora e já estou ao leme…

Venho, em nome da Líria, agradecer a visita ao Lírios.
Ela voltou à sua actividade normal de estudante,
que a obriga a manter-se afastada.
Na sua ausência, tentarei manter o barco em andamento.

Espero poder continuar a contar com a tua visita.
Até sempre.

Beijinhos
Mariazita

10:38 da tarde  
Blogger Pico minha ilha said...

É dificíl saber o qual o mundo de nossos filhos.Abraço

10:54 da tarde  
Blogger Cotovia said...

...há palavras que nunca perdem a validade.

6:32 da tarde  
Blogger Alice Matos said...

"E, por isso, o mesmo mundo que criemos
nos cumpre tê-lo com cuidado, como coisa
que não é só nossa, que nos é cedida
para a guardarmos respeitosamente
em memória do sangue que nos corre nas veias,
da nossa carne que foi outra, do amor que
outros não amaram porque lho roubaram..."


Hoje prefiro citar... gostei...

Beijo para ti...

4:49 da tarde  
Blogger freefun0616 said...

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